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ED 025

A Cadeira Vazia de Genebra

Em 8 de setembro de 1926, a assembleia de Genebra aprova a entrada da Alemanha na Liga das Nações, três meses depois de o Brasil anunciar a saída.

Uma cadeira de madeira escura vazia diante de uma mesa longa de assembleia, com placa em branco e pasta de couro fechada, sob luz âmbar rasante.

A cadeira que ficou vazia na sala de Genebra

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A Liga das Nações tinha dois tipos de cadeira, e a diferença entre elas explica quase tudo o que aconteceu em Genebra no ano de 1926. Na Assembleia, cada país membro valia um voto, do maior império à menor república. No Conselho, o órgão que de fato decidia, havia lugares permanentes e lugares temporários.

Os permanentes eram quatro: França, Grã-Bretanha, Itália e Japão. Estava previsto um quinto para os Estados Unidos, que nunca ocuparam a cadeira porque o Senado americano recusou a ratificação do tratado. Os temporários eram seis, distribuídos pela Assembleia em mandatos curtos, sem garantia de renovação.

A regra que dava peso a essa geografia era a unanimidade. Decisão de Conselho exigia concordância de todos os presentes, e um país temporário podia travar sozinho a vontade das quatro potências. Sentar na mesa era ter voz; sentar na mesa para sempre era ter poder de veto permanente.

O Brasil ocupava uma das cadeiras temporárias desde os primeiros anos da instituição e vinha renovando o mandato eleição após eleição. A tese defendida pela diplomacia brasileira era simples de enunciar: com os Estados Unidos fora, o continente americano ficava sem representação estável no Conselho, e o Brasil se apresentava como o candidato natural a preencher a lacuna.

Do outro lado do tabuleiro estava a Alemanha. Os acordos assinados em Locarno, em outubro de 1925, tinham garantido as fronteiras ocidentais do país e traziam uma contrapartida escrita: Berlim entraria na Liga e receberia um assento permanente no Conselho. O pedido formal de admissão foi apresentado em fevereiro de 1926, e uma assembleia extraordinária foi convocada para março.

A assembleia de março terminou sem admitir ninguém. A discussão descarrilou porque outros países aproveitaram a abertura para reivindicar o mesmo tratamento, e a unanimidade exigida virou uma trava que ninguém conseguia soltar. Os delegados voltaram para casa com a sessão suspensa e o assunto adiado para setembro.

A primeira página de hoje é a sessão de setembro, a votação que finalmente aconteceu e a cadeira brasileira que já estava de saída quando o placar foi anunciado.

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I  A Primeira Página de Hoje

O voto de Genebra e a cadeira que o Brasil deixou

Na tarde de quarta-feira, 8 de setembro de 1926, a Assembleia da Liga das Nações, reunida em Genebra, aprovou a admissão da Alemanha como país membro e a atribuição de um assento permanente no Conselho. A votação foi conduzida sem oposição registrada, e o resultado foi anunciado ao plenário como decisão unânime dos presentes.

O caminho até aquela quarta-feira passou por seis meses de costura. Depois do fracasso da sessão extraordinária de março, uma comissão foi encarregada de reorganizar a composição do Conselho, e a solução encontrada aumentou o número de lugares temporários de seis para nove, criando ainda a possibilidade de reeleição imediata para alguns deles.

O arranjo resolvia o impasse por fora. Quem exigia permanência recebia, no lugar, a chance de permanecer na prática, renovando o mandato sem passar pela regra que proibia a recondução. A Polônia foi a principal beneficiária do desenho.

O Brasil não aceitou o meio-termo. Em junho de 1926, o governo do presidente Artur Bernardes comunicou a decisão de deixar a Liga das Nações, e a notificação formal seguiu o rito previsto no próprio tratado, com prazo de dois anos até a retirada produzir efeito.

Todo Membro da Sociedade poderá retirar-se dela, mediante aviso prévio de dois anos, desde que tenha cumprido, nessa ocasião, todas as suas obrigações internacionais e todas as obrigações decorrentes do presente Pacto.

Pacto da Sociedade das Nações, artigo 1º, 1919

Quando a Alemanha foi admitida em setembro, o Brasil ainda constava na lista de membros e já não estava na sala como país que pretendia ficar. A cadeira temporária que a delegação brasileira ocupava desde o início da década seguiu formalmente ocupada por mais dois anos, e vazia de qualquer projeto.

Dois dias depois da votação, em 10 de setembro, a delegação alemã entrou pela primeira vez no plenário e foi recebida com a palavra do ministro francês do exterior, Aristide Briand, num discurso que ficou como a peça oratória mais lembrada da história da instituição.

Para trás, os fuzis, as metralhadoras, os canhões! Lugar à conciliação, à arbitragem e à paz!

Aristide Briand, discurso na Assembleia da Liga das Nações, Genebra, 1926

A ficha da sessão, como as atas a registraram:

Data da admissãoquarta-feira, 8 de setembro de 1926
LocalAssembleia da Liga das Nações, Genebra
Condição concedida à Alemanhaassento permanente no Conselho
Lugares temporários do Conselhoampliados de seis para nove
Entrada da delegação alemã10 de setembro de 1926
Aviso prévio brasileirodois anos, a partir de junho de 1926

Para a imprensa europeia, a semana foi tratada como o ponto alto do período que começara em Locarno. Para os jornais brasileiros, a mesma semana rendeu manchetes de outro tipo, porque a entrada de Berlim no Conselho tornava definitiva a perda de uma disputa que a diplomacia nacional vinha travando havia três anos.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Sete anos de assento e a porta que se fechou em 1933

A Alemanha ocupou o assento permanente conquistado em setembro de 1926 por sete anos exatos. Em outubro de 1933, o governo instalado em Berlim naquele mesmo ano anunciou a retirada do país da Liga e da conferência de desarmamento que corria em paralelo, e a cadeira permanente ficou vazia.

O período entre uma data e outra rendeu resultados concretos. Em dezembro de 1926, o comitê norueguês anunciou que o Prêmio Nobel da Paz daquele ano seria dividido entre Aristide Briand e Gustav Stresemann, o chanceler alemão que conduziu a aproximação, pelos acordos de Locarno e pela entrada da Alemanha em Genebra.

A cooperação produziu também a antecipação de prazos militares. As tropas aliadas que ocupavam a região do Reno desde o fim da guerra deixaram as zonas ocupadas em etapas, e a evacuação completa foi concluída em junho de 1930, cinco anos antes do calendário fixado no tratado assinado em Versalhes.

Stresemann deixou a cena antes de ver a manobra concluída. O chanceler saiu do cargo em outubro de 1929, na mesma semana em que a bolsa de Nova York iniciava a sequência de quedas que abriria a Grande Depressão, e a política de aproximação perdeu o principal fiador alemão no pior momento possível.

A crise econômica reorganizou o mapa eleitoral. O desemprego alemão passou de seis milhões de pessoas no início de 1933, os partidos de centro que sustentavam a diplomacia de Genebra encolheram a cada pleito, e a fórmula da cooperação internacional virou alvo preferencial dos discursos de campanha.

A saída de 1933 foi apresentada como resposta ao impasse do desarmamento. A conferência não avançava porque a França recusava reduzir seu próprio arsenal sem garantias de segurança, e Berlim usou o argumento da desigualdade de tratamento para bater a porta, submetendo a decisão a um plebiscito interno em novembro daquele ano.

O Brasil, que tinha saído sete anos antes, nunca voltou. A retirada anunciada em 1926 se consumou em 1928, e a diplomacia brasileira passou as duas décadas seguintes fora do sistema de Genebra, retomando o assunto da cadeira permanente apenas quando uma nova organização internacional foi desenhada em 1945, com o mesmo problema estrutural e o mesmo resultado para o pedido brasileiro.

A instituição não sobreviveu à sequência de saídas. O Japão anunciou a retirada em 1933, a Itália em 1937, e a Liga chegou ao fim da década sem os países que precisava conter, funcionando como registro de tratados e pouco mais. A dissolução formal saiu em abril de 1946, com o patrimônio e o palácio de Genebra transferidos para a organização sucessora.

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame do telegrama, do relógio suíço e da poltrona de bordo

A página: o noticiário de Genebra chegava ao Brasil por cabo submarino, e a página de anúncios dos jornais de setembro de 1926 vendia exatamente a infraestrutura que fazia a notícia caber no mesmo dia. Companhias telegráficas anunciavam tarifa por palavra para a Europa e prometiam entrega em poucas horas.

O anúncio: ao lado do telegrama comercial corria o reclame do relógio suíço, que a semana de Genebra transformou em produto de contexto. As casas importadoras da rua do Ouvidor e da rua Quinze anunciavam cronômetros de bolso e os primeiros modelos de pulso, com a origem do maquinismo impressa em corpo maior que o nome da loja.

A coluna: ao redor vinham os anúncios do mesmo bolso e da mesma ambição, a passagem de primeira classe nos vapores das companhias europeias, o hotel de Genebra com vista para o lago, o curso de francês por correspondência, o aparelho receptor de rádio com galena e fone de cabeça e a máquina de escrever portátil oferecida em prestações.

A conta de um leitor brasileiro de cidade grande, em setembro de 1926, cabia em poucas linhas:

Exemplar avulso de jornal diáriocerca de 200 réis
Assinatura anual de jornal diáriocerca de 30 mil réis
Telegrama para a Europaalguns mil réis por palavra
Receptor de rádio de galenadezenas de mil réis
Passagem de vapor, primeira classecentenas de mil réis
Relógio de pulso importadofração de um salário mensal

O preço explica a plateia. Uma sessão de assembleia na Suíça interessava a quem já comprava relógio importado e lia a coluna de câmbio, e o jornal vendia para esse leitor a sensação de estar sentado na sala, pelo custo de duzentos réis na banca da esquina.

O que o reclame não dizia era que o telegrama e o assento eram o mesmo negócio. Quem pagava por palavra queria a informação antes do concorrente, e um país que disputava cadeira permanente queria a mesma coisa em escala maior, estar dentro da sala onde a decisão nasce em vez de receber o resumo depois.

Por isso a página comercial e a página política se pareciam tanto naquela semana. As duas vendiam proximidade, a primeira em réis por palavra transmitida e a segunda em anos de mandato renovado, e as duas cobravam caro por um lugar que ninguém garantia manter.

O reclame de 1926, lido assim, é o retrato mais honesto do impasse. O que estava em disputa em Genebra não era o mapa da Europa nem o texto do tratado, era a diferença entre ter voz numa assembleia de quarenta e tantos países e ter o direito de dizer não sozinho numa mesa de dez.

"Vale mais uma cadeira temporária na mesa que decide ou a coerência de sair quando a regra do jogo não muda?"

 
 
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