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A Coluna Prestes entrega as armas depois de 25 mil km

Em 3/2/1927, cerca de 620 rebeldes cruzam a fronteira em San Matías e encerram a marcha mais longa da história do país.

Botas militares gastas e um fuzil antigo sobre um mapa do Brasil.

Botas e mapa de marcha, fronteira da Bolívia, 1927

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Em 3/2/1927, cerca de 620 homens atravessaram a fronteira em San Matías, na Bolívia, e entregaram os fuzis às autoridades bolivianas, segundo o verbete Coluna Prestes do CPDOC, o centro de documentação histórica da Fundação Getulio Vargas. O mesmo verbete registra que, nos 2 anos e 3 meses anteriores, nenhuma tropa do governo conseguiu vencer esse grupo em combate.

Uma tropa invicta que termina entregando as armas num país vizinho. Os dois registros estão certos, e a distância entre eles explica a marcha inteira.

Os homens que chegaram a San Matías vestiam o que sobrava das fardas de 1924. Muitos andavam descalços, com as botas gastas meses antes, e vinham do Mato Grosso depois de cruzar o Pantanal a cavalo e a pé.

Entre eles estava o capitão Luís Carlos Prestes, engenheiro do Exército formado na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Tinha 29 anos e dava nome à coluna nos jornais, embora o comando formal fosse do major Miguel Costa, oficial da Força Pública de São Paulo, a polícia militar do estado.

O caminho até a fronteira cortou o Brasil do Rio Grande do Sul ao Maranhão. A tropa desceu pelo sertão do Nordeste, atravessou Minas Gerais e Goiás e voltou pelo Centro-Oeste até o Pantanal.

A soma da marcha, segundo o mesmo verbete do CPDOC, chega a cerca de 25 mil quilômetros. Nenhuma capital de estado caiu nas mãos dos rebeldes, e o governo federal nunca conseguiu fechar um cerco em volta deles.

Parar uma tropa que não perdia parece contraditório. A explicação está no objetivo da marcha: derrubar o presidente Artur Bernardes, e a marcha nunca chegou perto de conseguir.

As páginas abaixo começam pelos quartéis de 1924, quando dois levantes separados, um em São Paulo e outro no Rio Grande do Sul, viraram uma tropa só.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

Dois levantes, uma tropa só

A Coluna Prestes nasceu do tenentismo, o movimento de oficiais jovens do Exército, na maioria tenentes e capitães, que se rebelaram contra os governos da Primeira República. Eles pediam voto secreto, fim das fraudes eleitorais e moralização da política.

O primeiro levante saiu em 5/7/1924, na cidade de São Paulo, sob o comando do general reformado Isidoro Dias Lopes. Os rebeldes ocuparam a capital paulista por 23 dias, enquanto tropas federais bombardeavam bairros operários como a Mooca e o Brás.

No fim de julho, os revoltosos deixaram São Paulo de trem e seguiram para o oeste do Paraná. Ali se entrincheiraram na região de Catanduvas e resistiram por meses.

No Rio Grande do Sul, o levante veio em outubro de 1924. Prestes, então capitão do batalhão ferroviário de Santo Ângelo, sublevou a tropa e reuniu cerca de mil homens, entre soldados e civis da região das Missões.

Os gaúchos marcharam para o norte, furaram o cerco das forças legais e chegaram ao Paraná em abril de 1925. O encontro com os paulistas aconteceu perto de Foz do Iguaçu.

Da junção nasceu a 1ª Divisão Revolucionária. Miguel Costa ficou com o comando geral e Prestes com a chefia do estado-maior, o posto que planeja rotas e combates. Entre os oficiais estavam Juarez Távora, João Alberto, Siqueira Campos e Cordeiro de Farias.

O plano era simples de dizer e difícil de cumprir: manter a revolta viva pelo interior até que novos levantes nas capitais derrubassem Bernardes. A tropa atravessou uma ponta do Paraguai e entrou no Brasil pelo Mato Grosso.

A tática ganhou nome entre os próprios rebeldes: guerra de movimento, em que a tropa nunca para para defender território. A coluna dividia-se em destacamentos, trocava cavalos nas fazendas e sumia antes que o Exército montasse o ataque.

A coluna nunca venceu uma guerra e nunca perdeu uma batalha: era rápida demais para ser cercada e pequena demais para tomar o poder.

O custo da estratégia caiu sobre o sertão. Em várias cidades, a tropa requisitava gado, cavalos e mantimentos, e parte dos moradores fugia antes da chegada dos rebeldes.

O ponto mais ao norte da campanha foi o Piauí. Entre dezembro de 1925 e janeiro de 1926, a coluna rondou Teresina, e Juarez Távora foi preso pelas forças legais nas redondezas da cidade.

A ficha da marcha:

Início da junção: abril de 1925, oeste do Paraná
Comando geral: major Miguel Costa
Estado-maior: capitão Luís Carlos Prestes
Distância percorrida: cerca de 25 mil km, segundo o CPDOC
Fim: 3/2/1927, San Matías, Bolívia
Homens na entrega das armas: cerca de 620, segundo o CPDOC
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O capitão que não voltou para 1930

A entrega das armas encerrou a marcha, mas não a história dos homens. Na Bolívia, Prestes foi trabalhar como engenheiro em La Gaiba, numa concessão de terras de uma empresa estrangeira perto da fronteira, e empregou ali parte dos antigos soldados.

Em dezembro de 1927, recebeu a visita de Astrojildo Pereira, fundador e dirigente do Partido Comunista do Brasil, o PCB. Astrojildo levou uma mala de livros marxistas, e Prestes passou os meses seguintes lendo.

Nesses anos, a imagem da coluna crescia nas cidades. Os jornais de oposição chamavam Prestes de Cavaleiro da Esperança, e o apelido virou título de livro:

“O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes”

Jorge Amado, O Cavaleiro da Esperança, 1942

O livro de Jorge Amado saiu primeiro em espanhol, em Buenos Aires, em 1942, porque a ditadura do Estado Novo proibia qualquer elogio a Prestes no Brasil.

Em 1930, os antigos companheiros foram chamados para a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder. Juarez Távora, João Alberto, Miguel Costa e Cordeiro de Farias aceitaram e ganharam cargos no novo governo.

Prestes recusou. Em maio de 1930, lançou um manifesto rompendo com os tenentes e se declarando a favor da revolução socialista, e ficou fora do movimento que derrubou Washington Luís em outubro.

Siqueira Campos não chegou a ver a revolução. Voltava de Buenos Aires, onde tinha ido conversar com Prestes, quando o avião em que viajava caiu no Rio da Prata, em maio de 1930.

Da coluna saíram ministros, interventores e governadores da Era Vargas, e também o homem que passaria quase uma década preso por ordem do mesmo governo.

Prestes entrou no PCB em 1934. No ano seguinte, liderou a Intentona Comunista, levante militar esmagado em poucos dias, e foi preso em 1936. Só saiu em 1945, com a anistia do fim do Estado Novo.

Com a redemocratização, elegeu-se senador pelo Distrito Federal em 1945, na legenda do PCB. O mandato foi cassado em 1948, depois que o PCB teve o registro cancelado.

O percurso da coluna ganhou monumento em 2001: o Memorial Coluna Prestes, projetado por Oscar Niemeyer em Palmas, no Tocantins, estado que a tropa atravessou em 1925, quando a região ainda pertencia a Goiás.

A cronologia depois da fronteira:

1927: exílio na Bolívia e visita de Astrojildo Pereira
1930: manifesto de Prestes e Revolução de 1930 sem ele
1934: Prestes entra no PCB
1935: Intentona Comunista
1936 a 1945: prisão
1945: eleito senador
2001: Memorial Coluna Prestes em Palmas
 

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III  O Anúncio da Página 3

A patente dada a Lampião

A página: entre 1924 e 1926, os jornais brasileiros escreveram sobre a coluna sob estado de sítio, a suspensão de garantias que Artur Bernardes manteve em vigor por quase todo o mandato. As notícias da marcha chegavam filtradas pelos boletins oficiais.

O anúncio: a imprensa ligada ao governo tratava os rebeldes como bandoleiros e anunciava vitórias que a marcha seguinte desmentia. Os jornais de oposição, quando podiam, publicavam os nomes dos tenentes como heróis.

A coluna: a notícia mais estranha da campanha saiu do Ceará. Em março de 1926, em Juazeiro do Norte, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, recebeu uma patente de capitão para combater os rebeldes.

A patente foi assinada no Juazeiro sob a proteção do padre Cícero Romão Batista, chefe político e religioso da cidade. O governo federal organizava os Batalhões Patrióticos, tropas de civis armados para caçar a coluna no sertão.

Lampião ganhou fardas, fuzis e munição, mas não chegou a enfrentar a tropa de Prestes. Voltou ao cangaço com o armamento novo, e a patente nunca foi reconhecida pelo Exército.

Os Batalhões Patrióticos também não derrotaram a coluna. O que a esgotou foi o desgaste: doenças, deserções, falta de munição e a certeza de que as cidades não iam se levantar.

Washington Luís assumiu a Presidência em 15/11/1926 e não ofereceu anistia. Sem apoio nas capitais e sem perdão do governo, o estado-maior decidiu levar os homens para fora do país.

A última travessia foi a do Pantanal, com a tropa já reduzida e perseguida no Mato Grosso. A escolha da Bolívia garantia uma fronteira próxima e um governo disposto a receber os rebeldes como exilados.

A notícia da entrega das armas chegou às redações dias depois de 3/2/1927, porque a fronteira de San Matías ficava longe de qualquer telégrafo. Os jornais do Rio publicaram o fim da marcha já em fevereiro.

A ficha da última página:

Presidente na entrega: Washington Luís
Local: San Matías, Bolívia
Data: 3/2/1927
Anistia: só em 1930, depois da Revolução de 1930

“Se você marchasse 25 mil quilômetros sem perder uma batalha, aceitaria parar numa fronteira sem ter tomado o poder?”

O centenário da entrega das armas cai em 3/2/2027, uma quarta-feira. Nessa data, reconfira a distância e o número de homens no verbete Coluna Prestes do CPDOC, no site cpdoc.fgv.br.

 
 
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