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A Coluna que Saiu de Braga

Em 28 de maio de 1926, o general Gomes da Costa põe as tropas na rua e caminha sobre Lisboa, encerrando a Primeira República.

Um quepe militar de oficial pousado sobre um mapa de estrada dobrado, sob luz âmbar rasante.

O quepe e o mapa da coluna de 1926

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A Primeira República portuguesa foi proclamada em 5 de outubro de 1910 com a promessa de dar ao país uma administração estável. Entre aquela data e 28 de maio de 1926 ela empossou 45 governos e oito presidentes eleitos, segundo o levantamento do historiador Douglas L. Wheeler em Republican Portugal: A Political History, 1910-1926, publicado em 1978.

Nenhum desses governos caiu por eleição perdida. A queda vinha por dissolução, por renúncia coletiva, por bomba na rua ou por guarnição militar que se recusava a obedecer ao ministro da Guerra, e o intervalo médio entre um gabinete e o seguinte era de poucos meses.

O Exército tinha voltado da Primeira Guerra Mundial com uma conta aberta. O Corpo Expedicionário Português foi desfeito na batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918, na Flandres, num só dia de ofensiva alemã, e os oficiais que regressaram acusavam os políticos de Lisboa de os terem mandado para a frente sem substituições nem material.

O escudo, moeda criada em 1911 para substituir o real, perdia valor a cada orçamento aprovado com défice. Quem vivia de ordenado fixo em Lisboa e no Porto via o preço do pão e do carvão subir enquanto o câmbio da libra esterlina era publicado todos os dias na primeira página dos jornais.

Duas tentativas de golpe já tinham falhado no ano anterior, em 18 de abril e em 19 de julho de 1925, ambas com participação de oficiais da guarnição de Lisboa e ambas terminadas em tribunal, com absolvições que os próprios réus trataram como autorização para tentar outra vez.

O homem que faria a terceira tentativa chamava-se Manuel de Oliveira Gomes da Costa, tinha 63 anos em 1926, servira em Moçambique, na Índia portuguesa e em Flandres, e não pertencia a nenhum dos partidos que se revezavam no poder. Estava colocado longe da capital, no comando da 8.ª Divisão, sediada em Braga.

A primeira página de hoje é o dia em que ele mandou a tropa sair do quartel, o que dizia o papel que fez ler em voz alta e quanto tempo levou a estrada até Lisboa.

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I  A Primeira Página de Hoje

O papel lido em voz alta e a estrada até a capital

Em 28 de maio de 1926, de madrugada, as unidades da guarnição de Braga saíram dos quartéis por ordem do general Gomes da Costa e ocuparam os pontos centrais da cidade sem disparar. Braga ficava a cerca de 360 quilómetros de Lisboa por estrada, distância suficiente para que a notícia chegasse à capital antes das tropas.

O movimento tinha sido preparado por um grupo de oficiais que precisava de um nome respeitado para o encabeçar. Gomes da Costa chegou a Braga vindo de Lisboa dois dias antes, hospedou-se em casa de um amigo e assumiu a chefia de um levantamento cujos detalhes operacionais tinham sido combinados sem ele.

Portugueses! O Exército levantou-se em armas para salvar a Nação.

Manifesto do general Gomes da Costa, lido em Braga, 28 de maio de 1926

O manifesto não prometia república nem monarquia, nem nomeava um regime substituto. Anunciava o fim do domínio dos partidos, apelava à união dos portugueses e deixava por escrever quem governaria no dia seguinte, ausência que os meses seguintes trataram de preencher a golpes internos.

O governo de António Maria da Silva, empossado em dezembro de 1925, tentou reagir por telegrama e por telefone. As guarnições consultadas responderam com silêncio, com adesão ou com pedidos de tempo, e nenhuma coluna leal partiu do sul para enfrentar a do norte.

O que aconteceu entre 28 e 31 de maio de 1926, dia a dia:

28 de maio: levantamento em Braga, ocupação da cidade sem resistência
29 de maio: adesão da guarnição do Porto e de unidades de Coimbra
30 de maio: o comandante Mendes Cabeçadas assume o controlo militar de Lisboa
31 de maio: o presidente Bernardino Machado entrega o poder e o governo demite-se
6 de junho: Gomes da Costa entra em Lisboa à frente das tropas

A coluna avançou para sul recolhendo unidades pelo caminho, e a rendição chegou antes do confronto. Em Lisboa, o comandante da Armada José Mendes Cabeçadas Júnior tomou a capital pelo lado de dentro, o que transformou a marcha do norte numa viagem de confirmação.

Bernardino Machado, presidente da República desde dezembro de 1925 e figura central do regime desde 1910, entregou o cargo a Mendes Cabeçadas em 31 de maio e partiu depois para o exílio em França, onde já estivera na sequência do golpe de Sidónio Pais em 1917.

Em 6 de junho, Gomes da Costa desfilou na Avenida da Liberdade com as tropas que trouxera do Minho, diante de uma multidão que aplaudia o fim de um regime sem saber o nome do que vinha a seguir. Dezasseis anos de república parlamentar tinham terminado em quatro dias de estrada.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Três chefes em seis semanas e os treze dias de Salazar

O regime aberto em Braga durou 48 anos, o triplo do tempo que a Primeira República conseguiu ficar de pé. O general que o abriu governou 24 dias como chefe de Estado e passou o resto da vida afastado do poder que tinha entregado a si mesmo.

A vitória partiu-se de imediato. Mendes Cabeçadas, que recebera o poder em 31 de maio, foi afastado em 17 de junho de 1926 por Gomes da Costa, que acumulou a chefia do governo e do Estado e nomeou um ministério com os oficiais mais próximos.

Em 9 de julho, o general foi deposto pelos mesmos militares que o tinham levado a Lisboa, num movimento chefiado por Óscar Carmona. Recebeu o bastão de marechal como compensação formal, foi enviado para os Açores e ficou fora da política até ao fim da vida, em 1929.

Antes do desfecho, um professor de finanças da Universidade de Coimbra chamado António de Oliveira Salazar aceitou a pasta das Finanças em 3 de junho de 1926. Exigiu controlo sobre a despesa de todos os ministérios, não o obteve, e regressou a Coimbra treze dias depois, em 19 de junho.

Voltou em 27 de abril de 1928, já com o poder de vetar a despesa de qualquer ministério, e nunca mais saiu do governo.

Sei muito bem o que quero e para onde vou.

António de Oliveira Salazar, declaração de posse como ministro das Finanças, 27 de abril de 1928

O que se seguiu foi construção institucional lenta. Carmona ficou como presidente até 1951, a censura prévia à imprensa foi imposta por decreto ainda em 1926, e a Constituição de 1933 deu nome ao arranjo definitivo, o Estado Novo, com Salazar como presidente do Conselho.

Portugal manteve esse regime até 25 de abril de 1974, quando outro movimento de capitães, também organizado longe do poder central e também sem disparo decisivo, o derrubou em poucas horas. Da marcha de Braga até a madrugada dos cravos passaram 47 anos e onze meses.

Gomes da Costa está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, junto de figuras da história militar portuguesa, e o nome dele aparece hoje em ruas e praças de várias cidades do país. Os documentos do processo que o afastou em julho de 1926 continuam nos arquivos militares.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame do vapor, do bacalhau e do câmbio da libra

A página: os jornais portugueses de 28 de maio de 1926 saíram com a notícia do levantamento de Braga e, nas páginas seguintes, com os anúncios comprados dias antes por quem não sabia que o regime cairia naquela semana. O Século e o Diário de Notícias vendiam espaço a farmácias, casas de fazendas e agências de navegação.

O anúncio: o produto de maior presença era a passagem de vapor para o Brasil. As companhias anunciavam saídas de Leixões e de Lisboa com destino ao Rio de Janeiro e a Santos, em terceira classe, dirigidas ao trabalhador do Minho e das Beiras que fazia a viagem com contrato de trabalho na mão.

A coluna: ao lado vinham os anúncios do consumo diário, o bacalhau da Terra Nova em fardo, o azeite em lata, o adubo químico para a vinha do Douro, a máquina de costura em prestações e o aviso das casas de câmbio com a cotação da libra esterlina do dia.

O que circulava no comércio português em 1926, item por item:

Moeda em usoo escudo, criado em 1911
Moeda que substituiuo real, mil réis por escudo
Cotação publicada todo diaa libra esterlina
Emigração mais anunciadaBrasil, por via marítima
Porto de partida no norteLeixões, em Matosinhos
Censura prévia à imprensaimposta por decreto em 1926

O câmbio da libra explicava a política melhor que o editorial ao lado. Cada oficial de guarnição e cada funcionário público lia na mesma página o valor do ordenado dele em moeda estrangeira, e a leitura repetida todos os dias fazia mais pela adesão ao levantamento do que qualquer manifesto lido em voz alta.

O anúncio de passagem para o Brasil dizia a mesma frase por outro caminho. Um país que exportava braços em terceira classe estava a informar, na página comprada, que não tinha trabalho para os oferecer em casa, e nenhum dos 45 governos anteriores tinha conseguido mudar aquele número de partidas.

A marcha de Braga e o reclame do vapor pertencem à mesma economia. O general prometeu ordem a quem já tinha desistido de esperar por ela nas urnas, e o comprador da passagem tinha tomado a decisão mais radical possível sobre a mesma promessa, que era não ficar para ver.

Os decretos assinados entre 28 de maio e 9 de julho de 1926 estão publicados no Diário do Governo daquelas semanas, digitalizado pela Imprensa Nacional. O centenário da marcha cai em 28 de maio de 2026. Reconfira a coleção do Diário do Governo naquela semana.

"Uma república cai pelo general que marcha ou pelos governos que não chegaram ao fim do mandato?"

 
 
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