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A Coroa que Reza Pôs na Própria Cabeça
Em 25 de abril de 1926, no palácio de Golestan, o antigo oficial da Brigada Cossaca se coroa xá e funda a dinastia Pahlavi.
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A coroa Pahlavi, montada em 1926
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Em 31 de outubro de 1925, o Majlis, o parlamento iraniano, aprovou a deposição da dinastia Qajar, que ocupava o trono persa desde 1789. Seis meses depois, o homem escolhido para substituí-la se coroou dentro do palácio de Golestan, construído e ampliado pelos próprios Qajar, usando pedras retiradas do tesouro imperial que aquela mesma dinastia tinha juntado ao longo de mais de um século.
O nome dele era Reza Khan. Vinha da Brigada Cossaca Persa, tropa de elite treinada por oficiais russos, e tinha subido de soldado raso a comandante sem passar por academia militar nem por família de posses. Em fevereiro de 1921 marchou com sua unidade sobre Teerã e tomou a capital sem resistência organizada, num acerto com o jornalista Seyyed Zia'eddin Tabatabai, que virou primeiro-ministro enquanto Reza ficava com o Ministério da Guerra.
O cargo militar era o que interessava. Nos quatro anos seguintes ele desmontou as milícias regionais, submeteu chefes tribais no Curdistão e no Luristão, derrubou a república separatista do Gilão e transformou um exército de faccões concorrentes numa força única que respondia a uma pessoa só. Em outubro de 1923 acumulou o posto de primeiro-ministro. O xá Ahmad Qajar, então com 25 anos, saiu do país rumo à Europa e nunca mais voltou.
Reza chegou a defender publicamente a proclamação de uma república, no modelo do que Mustafa Kemal fazia na Turquia vizinha. O clero xiita reagiu contra, e ele recuou. A solução encontrada manteve a monarquia e trocou apenas a família que a ocupava, o que exigia um texto votado e um ritual público.
O sobrenome escolhido para a casa nova não era de família. Pahlavi é o nome da língua do Império Sassânida, o persa médio, falado antes da conquista árabe do século VII. A escolha dizia em uma palavra o programa inteiro do governo que começava ali.
A primeira página de hoje é o dia da coroação em Golestan, quem colocou a coroa na cabeça de quem e o que estava dentro daquele objeto recém-montado.
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I A Primeira Página de Hoje
O trono de mármore, o joalheiro e o menino de seis anos
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Em 25 de abril de 1926, Reza Khan foi coroado xá do Irã no salão do trono do palácio de Golestan, em Teerã. A cerimônia reuniu deputados do Majlis, clérigos, chefes tribais e o corpo diplomático estrangeiro, e o cenário escolhido carregava a ironia inteira do dia: o Takht-e Marmar, o trono de mármore encomendado por Fath Ali Shah Qajar no início do século XIX.
O gesto central da cerimônia foi executado por ele mesmo. Reza tomou a coroa das mãos e a colocou na própria cabeça, sem intermediário religioso, repetindo um movimento que a Europa já tinha visto em Napoleão em 1804 e que na Pérsia comunicava a mesma frase sem palavras: a autoridade não vinha de cima nem de trás, vinha do próprio homem que a segurava.
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A monarquia da Pérsia é confiada à pessoa de Sua Majestade Reza Shah Pahlavi e a seus descendentes homens, de geração em geração.
Emenda à Constituição persa aprovada pela Assembleia Constituinte, 12 de dezembro de 1925
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A coroa era mais nova que o governo. Encomendada meses antes ao joalheiro Haj Serajeddin, foi montada com pedras tiradas do tesouro imperial acumulado pelos Qajar, entre elas centenas de diamantes, esmeraldas, safiras e pérolas, com um diamante amarelo de grande porte no centro da frente. Nenhuma pedra ali tinha sido comprada pela família que estreava no trono.
O desenho copiava um objeto que ninguém vivo tinha visto. O modelo declarado era a coroa dos reis sassânidas, conhecida por moedas e relevos rupestres de mil e seiscentos anos antes, e a peça foi construída sobre uma armação de feltro vermelho, no formato do capacete militar sassânida.
O que a cerimônia de Golestan estabeleceu, ponto por ponto:
| Data da coroação | 25 de abril de 1926 | | Local | palácio de Golestan, Teerã | | Dinastia encerrada | Qajar, no trono desde 1789 | | Dinastia iniciada | Pahlavi | | Coroa | montada em 1926 | | Herdeiro proclamado | Mohammad Reza, seis anos | | Base legal | emenda de dezembro de 1925 |
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O segundo ato do dia olhava para a frente. Mohammad Reza, filho mais velho do novo xá, nascido em outubro de 1919, foi proclamado príncipe herdeiro aos seis anos de idade, e a sucessão ficou escrita no mesmo texto que fundava a casa.
Um oficial que aprendeu a ler tarde e nunca estudou fora do país acabava de tornar hereditária a coroa de um império antigo, com joias de quem ele havia deposto e uma referência estética a um reino desaparecido no século VII.
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II O Que Aconteceu Depois
Quinze anos de trilhos e a abdicação assinada em setembro
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A dinastia fundada em Golestan durou 53 anos e teve dois ocupantes, o número exato de xás que a Pérsia moderna assistiu cair no mesmo século. Reza reinou por quinze anos e quatro meses, e seu filho, o herdeiro de seis anos daquela cerimônia, foi deposto pela revolução de 1979.
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O reinado começou por obra pública de escala nacional. Uma lei de 1925 criou impostos sobre chá e açúcar destinados exclusivamente à construção de uma ferrovia, e a Trans-Iraniana, iniciada em 1927 e concluída em 1938, ligou o golfo Pérsico ao mar Cáspio em cerca de 1.400 quilômetros de trilhos, com centenas de túneis, sem empréstimo estrangeiro amarrado a concessão política.
O programa seguinte mexeu na roupa e no nome das pessoas. Uma lei de 1932 estabeleceu a idade mínima de casamento, uma lei de 1934 fundou a Universidade de Teerã, e o decreto de janeiro de 1936, o kashf-e hijab, proibiu o véu feminino em público e mandou a polícia retirá-lo à força, medida que manteve parte das mulheres do país trancada em casa por anos.
Em 1935, o governo pediu formalmente aos Estados estrangeiros que passassem a chamar o país de Irã em documentos oficiais, abandonando o termo Pérsia, de origem grega. O nome novo era o antigo, Irã vem de Aryanam, terra dos arianos, e completava o mesmo movimento que já estava no sobrenome Pahlavi.
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O passado glorioso do Irã não é uma lembrança. É o programa de trabalho do presente.
Reza Shah Pahlavi, discurso de inauguração da Universidade de Teerã, 1934
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O fim veio pela geografia. Em agosto de 1941, tropas britânicas e soviéticas invadiram o Irã em operação conjunta para garantir o corredor de abastecimento até a União Soviética e o controle dos campos de petróleo. Reza resistiu por três dias e cedeu.
Em 16 de setembro de 1941, ele assinou a abdicação em favor de Mohammad Reza, então com 21 anos, e foi embarcado pelos britânicos rumo à ilha Maurício e depois a Joanesburgo, na África do Sul, onde permaneceu até 1944 sem autorização para retornar.
O herdeiro proclamado em Golestan aos seis anos assumiu o trono aos 21, sob ocupação militar de duas potências, e o manteve por 37 anos até deixar o país em janeiro de 1979. A coroa montada com pedras dos Qajar foi usada em apenas duas cerimônias de coroação, a de 1926 e a de outubro de 1967.
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