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ED 019

A Faixa Entregue Sob Estado de Sítio

Em 15 de novembro de 1926, Washington Luís recebe a faixa de Artur Bernardes no Rio e assume um país governado quatro anos por decreto.

Uma faixa presidencial dobrada sobre bandeja de prata numa mesa de jacarandá, sob luz âmbar rasante.

A faixa presidencial antes da cerimônia

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O Brasil de 1926 tinha Constituição, Congresso, eleição marcada e jornal na banca todo dia. Só que a Constituição estava suspensa em boa parte do território havia quatro anos, por decreto renovado a cada poucos meses, e o jornal saía com espaços em branco onde o censor tinha passado o lápis.

O estado de sítio era o regime de trabalho da República desde julho de 1922. Ele permitia prender sem processo, desterrar cidadão para o interior, fechar associação, apreender edição inteira de jornal e cortar matéria antes da rotativa, tudo por ordem administrativa e sem juiz no meio do caminho.

A lista de motivos foi se acumulando. O levante do Forte de Copacabana abriu a série em julho de 1922, a revolta paulista de julho de 1924 manteve São Paulo sob bombardeio por três semanas, e a coluna comandada por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes cruzou o interior do país até 1927 sem ser alcançada por tropa nenhuma.

Cada episódio virava prorrogação. O Congresso votava a renovação, o Executivo publicava o decreto, e o país seguia com o direito de reunião suspenso, com deputado preso e com uma colônia penal instalada em Clevelândia, no extremo norte do Amapá, para onde foram despachadas centenas de presos políticos e de sindicalistas entre 1924 e 1926.

A eleição de 1º de março de 1926 aconteceu dentro desse arranjo, e por isso foi silenciosa. Havia uma chapa só na disputa, montada no acordo entre São Paulo e Minas Gerais, com Washington Luís Pereira de Sousa na cabeça e Fernando de Melo Viana como vice, e a apuração deu ao vencedor quase a totalidade dos votos válidos num eleitorado de pouco mais de 700 mil pessoas, num país de 30 milhões.

O vencedor era paulista de carreira, apesar de nascido em Macaé. Foi delegado no interior, prefeito da capital paulista, presidente do estado de São Paulo, e chegou ao palácio com uma reputação de administrador de obra e de orçamento, não de orador de tribuna.

A primeira página de hoje começa numa segunda-feira de novembro, no salão do Palácio Monroe, com dois homens de casaca e uma faixa de seda passando de um ombro para o outro.

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I  A Primeira Página de Hoje

O salão do Monroe e a faixa às duas da tarde

Na segunda-feira, 15 de novembro de 1926, no Palácio Monroe, sede do Senado na Avenida Central do Rio de Janeiro, Artur da Silva Bernardes entregou a faixa presidencial a Washington Luís diante do Congresso reunido em sessão solene, de corpo diplomático presente e de galeria lotada.

A data não era acidente de calendário. O 15 de novembro marcava a proclamação da República em 1889, e a Constituição de 1891 fixara ali a troca de mandato, de modo que o rito de posse acontecia sempre no aniversário do regime, com salva de artilharia no Morro do Castelo e desfile de tropa na avenida.

Bernardes saía do cargo como o presidente que governara mais tempo sob exceção em toda a história da República até então. Ele passava adiante o mandato tendo enfrentado dois levantes militares, uma coluna rebelde que atravessou treze estados e uma imprensa que só publicava o que o gabinete do chefe de polícia deixava passar.

O discurso do sucessor foi curto e de administrador. Falou em equilíbrio orçamentário, em conversibilidade da moeda, em estrada de rodagem, em imigração e em recenseamento, sem uma linha de acerto de contas com o antecessor e sem promessa de perdão a quem estava preso ou exilado.

A ficha do dia, como os jornais do Rio a registraram:

Datasegunda-feira, 15 de novembro de 1926
LugarPalácio Monroe, Rio de Janeiro
Quem entregouArtur Bernardes
Vice empossadoFernando de Melo Viana
Mandatoquatro anos, até 15 de novembro de 1930
Tempo de país sob sítio até alicerca de 50 dos 52 meses anteriores

Um presidente eleito por 700 mil votos num país de 30 milhões de habitantes recebia a chave de uma máquina de exceção que funcionava havia quatro anos e que ninguém, nem ele, sabia se ainda seria necessária no mês seguinte.

A primeira decisão prática veio em dezembro. O novo governo deixou o estado de sítio caducar sem pedir renovação ao Congresso, e a censura prévia acabou por vencimento de prazo, sem discurso de libertação e sem revogação solene, exatamente do jeito administrativo que combinava com o homem.

A segunda decisão foi monetária e mais ambiciosa. Em dezembro de 1926 o Congresso aprovou a criação da Caixa de Estabilização, que fixou o mil-réis em uma paridade de ouro e passou a emitir papel lastreado em depósito de divisa, encerrando anos de câmbio oscilante que castigava importador e exportador na mesma proporção.

Governar é abrir estradas.

Washington Luís, discurso de posse no governo de São Paulo, 1920

A frase de 1920 virou o programa de 1926. O orçamento federal passou a reservar verba de rodovia num país que tinha 2 mil quilômetros de estrada em condição de tráfego permanente e onde a carga andava de trem, de tropa de burro ou de barco, com o automóvel confinado ao perímetro das capitais.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do sítio suspenso à faixa perdida em 1930

A liberdade de imprensa que voltou por vencimento de prazo em dezembro de 1926 durou pouco mais de sete meses, e quem a encurtou foi o mesmo governo que a deixara voltar.

Em agosto de 1927 o Congresso aprovou a lei de imprensa apelidada pelos jornais de lei celerada. Ela tipificava crime de abuso na publicação, previa prisão para diretor de jornal, exigia registro de periódico e devolveu ao Executivo, por via judicial, boa parte do controle que a exceção exercia por decreto.

O motivo era a Coluna. Prestes e Miguel Costa só cruzaram para a Bolívia em fevereiro de 1927, e o governo tratou a cobertura simpática dos jornais como combustível de quartel inquieto.

A obra, essa, saiu do papel. A rodovia Rio de Janeiro a São Paulo foi entregue em 1928 com 500 quilômetros de leito macadamizado, encurtando para pouco mais de doze horas de automóvel um trajeto que o trem cumpria em quinze e que a tropa de burro levava semanas para fazer.

O tesouro, no entanto, dependia de um grão só. O café respondia por cerca de 70 por cento do valor exportado pelo Brasil, e a política de valorização comprava a safra excedente com empréstimo estrangeiro para segurar o preço na bolsa de Nova York, um mecanismo que funcionava enquanto houvesse crédito na praça de Londres.

Em outubro de 1929 o crédito acabou. A quebra da bolsa derrubou o preço da saca pela metade em poucas semanas, os armazéns de Santos ficaram com estoque que ninguém financiava, e a Caixa de Estabilização perdeu reserva de ouro tão rápido que a conversibilidade foi suspensa antes do fim do ano.

A questão social é, entre nós, uma questão de polícia.

Frase atribuída a Washington Luís, registrada em A República Velha, de Edgard Carone, 1970

A sucessão fez o resto. Contrariando o revezamento que mantinha São Paulo e Minas Gerais alternando no palácio, o presidente lançou outro paulista, Júlio Prestes, e empurrou Minas para uma aliança com Rio Grande do Sul e Paraíba em torno de Getúlio Vargas.

Júlio Prestes venceu a eleição de março de 1930 e nunca tomou posse. O assassinato de João Pessoa em julho deu à oposição o mártir que faltava, as tropas gaúchas marcharam para o norte em outubro, e em 24 de outubro de 1930 uma junta de generais tirou Washington Luís do Palácio Guanabara e o embarcou para o exílio em Portugal.

Vale medir o intervalo. Entre a faixa recebida no Monroe e a faixa perdida no Guanabara passaram três anos, onze meses e nove dias, e o presidente que assumira prometendo estrada e moeda firme saiu com a moeda desancorada, a estrada pronta e a República de 1891 encerrada junto com o mandato.

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame do automóvel e da estrada nova

A página: nos jornais do Rio e de São Paulo de 1926, a página 3 era território de automóvel. O anúncio trazia o desenho do carro em perspectiva, o nome do modelo em letra grande, o endereço da agência na rua da Assembleia ou na avenida São João e a menção obrigatória a facilidade de pagamento em prestações.

O anúncio: o texto não vendia velocidade, vendia alcance. Prometia que a família chegaria à fazenda no domingo e voltaria na segunda, que o caixeiro viajante cobriria três cidades num dia e que a peça de reposição estaria à mão em qualquer capital, porque a montadora mantinha depósito no país.

A coluna: ao redor corriam os reclames da mesma cadeia, pneumático com garantia de quilometragem, oficina de retífica, bomba de gasolina em posto de rua, seguro contra colisão e curso de direção com instrutor diplomado, um comércio inteiro nascendo antes da estrada existir.

A conta do automóvel brasileiro em 1926 cabia em poucas linhas:

Automóveis em circulação no paíscerca de 60 mil
Estrada em tráfego permanentecerca de 2 mil km
Ford montados em São Paulodesde 1919
Chevrolet montados no Ipirangadesde 1925
Rodovia Rio a São Paulo entregue1928, com 500 km
Café no valor exportado pelo paíscerca de 70 por cento

A montagem local explica o preço do anúncio. A Ford operava linha em São Paulo desde 1919 e a General Motors abriu a dela no Ipiranga em 1925, ambas recebendo o carro desmontado em caixote e apertando o parafuso final aqui, o que cortava imposto de importação e derrubava o valor da prestação anunciada na página 3.

O que faltava era chão. Um Ford entregue em São Paulo podia rodar bem dentro da cidade e morria na primeira chuva forte da estrada de terra para o interior, onde o leito virava atoleiro e o trecho de vinte quilômetros consumia o dia inteiro de viagem.

Por isso o programa de estrada e o anúncio de automóvel eram a mesma peça de propaganda. Cada quilômetro de macadame entregue pelo governo transformava um carro parado na garagem em um carro que valia a prestação, e cada carro vendido criava um eleitor interessado no quilômetro seguinte.

O reclame de 1926, lido assim, é o documento mais honesto do governo que começava. O que estava à venda não era carro nem discurso, era a promessa de que o país inteiro caberia numa viagem de fim de semana, feita por um presidente que preferia inaugurar leito de estrada a discutir a Constituição suspensa que acabara de deixar expirar.

"Quando o governo escolhe entregar estrada em vez de garantia, quanto tempo a obra segura no lugar o direito que ficou faltando?"

 
 
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AEpitácio Pessoa
BArtur Bernardes
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