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A Letra que Caiu no Chão
Em 26 de fevereiro de 1926, Louis Armstrong grava Heebie Jeebies com o Hot Five num estúdio da OKeh em Chicago e canta sem usar palavra.
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O cornetim e o disco de goma-laca de 1926
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A OKeh Records pôs Heebie Jeebies à venda em 1926 dentro da série 8000, o catálogo barato que a casa anunciava a compradores negros como novidade dançante de consumo rápido, feita para vender no mês e sair de circulação. As gravações que Louis Armstrong fez com o Hot Five e o Hot Seven entre 1925 e 1928 foram inscritas em 2002 no National Recording Registry, a lista de preservação permanente da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
A gravadora tinha sido fundada em 1918 em Nova York por Otto K. E. Heinemann, importador de equipamento de fonógrafo, e tropeçou no mercado que a sustentaria em 1920, quando lançou Crazy Blues com a cantora Mamie Smith. O pedido veio de cidades onde nenhum vendedor de disco tinha entrado antes, e a indústria batizou aquela linha de catálogo de race records, expressão do produtor Ralph Peer.
Em fevereiro de 1926, Louis Armstrong tinha 24 anos, morava em Chicago havia quatro anos e trabalhava em dois empregos por noite. Tocava cornetim na orquestra de Erskine Tate, no Vendome Theatre, acompanhando filme mudo e executando abertura de concerto, e depois seguia para os salões de dança da cidade, onde a casa pagava por noite e o repertório era outro.
O Hot Five não existia fora do estúdio. Era um grupo montado para gravar, com Kid Ory no trombone, Johnny Dodds no clarinete, Johnny St. Cyr no banjo e Lil Hardin Armstrong ao piano, pianista de formação clássica, mulher de Armstrong e a pessoa que empurrou o nome dele para a etiqueta do disco. Os cinco nunca fizeram temporada juntos.
O processo de gravação daquele ano ainda era acústico. Não havia microfone: os músicos tocavam contra uma corneta de captação que empurrava uma agulha sobre um disco de cera, cada lado cabia em pouco menos de três minutos, e não existia recurso para cortar, emendar ou corrigir. O que entrasse na cera entrava inteiro, defeito incluído.
A primeira página de hoje é a sexta-feira em que aqueles cinco músicos cortaram cinco lados num turno só, o que a etiqueta dizia sobre a faixa que ficaria famosa e o que exatamente foi cantado quando a voz entrou sem carregar palavra nenhuma.
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I A Primeira Página de Hoje
A sessão de sexta e o coro sem palavra
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Na sexta-feira de 26 de fevereiro de 1926, o Hot Five entrou no estúdio que a OKeh mantinha em Chicago e gravou cinco lados no mesmo turno: Cornet Chop Suey, Oriental Strut, You're Next, Muskrat Ramble e Heebie Jeebies. Cinco lados num dia era ritmo normal, porque a casa comprava a matriz, não o ensaio.
A canção não era de Armstrong. Heebie Jeebies estava creditada a Boyd Atkins, violinista e saxofonista que trabalhava em Chicago, e a expressão dava nome a um estado de nervos, aquela tremedeira que o inglês coloquial dos anos 1920 usava para arrepio e agitação. O número tinha sido escrito para dançar, não para virar objeto de estudo.
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Say, I've got the heebies, I mean the jeebies.
Heebie Jeebies, gravação de Louis Armstrong and His Hot Five, OKeh 8300, 1926
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No meio do vocal, a voz larga a palavra e passa a cantar sílabas sem significado, seguindo a linha melódica como se fosse um instrumento de sopro. Armstrong contou depois, em Swing That Music, publicado em 1936, que a folha com a letra tinha caído no chão e que ele improvisou para não interromper a tomada, e a versão virou a origem oficial do episódio.
A lenda tem um problema de cronologia. Sílabas sem sentido já circulavam em disco comercial antes daquela sexta-feira, entre elas King of the Bungaloos, que o cantor Gene Greene gravou em 1911, e o repertório de Cliff Edwards, o Ukulele Ike, que vocalizava linhas inteiras sem letra em gravações do começo da década de 1920.
O que a tomada de 1926 fez de diferente foi outra coisa. Armstrong não imitava um instrumento de brincadeira: cantava com a mesma construção de frase que usava no cornetim, com o mesmo ataque atrasado e a mesma respiração, e o resultado colocou voz e sopro no mesmo plano dentro do arranjo, coisa que nenhum dos registros anteriores tinha fixado com essa clareza.
A ficha da sessão de 26 de fevereiro de 1926, instrumento por instrumento:
| Louis Armstrong: cornetim e voz | | Kid Ory: trombone | | Johnny Dodds: clarinete | | Lil Hardin Armstrong: piano | | Johnny St. Cyr: banjo | | Lados gravados no turno: cinco, entre eles Muskrat Ramble |
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A gravação acústica impunha coreografia física. O cornetim precisava recuar da corneta de captação para não saturar a cera, e a voz precisava avançar. Cada troca entre tocar e cantar exigia que Armstrong andasse dentro da sala em silêncio, no compasso, sem esbarrar em ninguém, e o disco guarda o resultado de uma tomada única feita sob essa restrição.
Em Chicago, o efeito apareceu primeiro na rua, não na crítica. Músicos e trabalhadores passaram a se cumprimentar cantando as sílabas do disco, o refrão sem letra funcionava como senha entre quem tinha ouvido, e a gravadora percebeu que vendera muito mais que um número de dança do mês.
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II O Que Aconteceu Depois
Do catálogo descartável ao acervo nacional
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O disco que a OKeh anunciou como novidade de estação em 1926 fixou um procedimento que sobreviveu à gravadora, ao processo acústico e ao formato de 78 rotações. A casa que o lançou foi comprada pela Columbia naquele mesmo ano.
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O Hot Five continuou gravando até 1928, com trocas de formação e ampliação para sete músicos em 1927. Dessa sequência saíram Potato Head Blues, no mesmo ano, e West End Blues, em 1928, cuja abertura de cornetim sem acompanhamento virou a passagem mais copiada de trompetista da década seguinte.
A OKeh perdeu a independência rápido. A Columbia Phonograph Company comprou a operação em 1926, manteve a etiqueta e a série 8000 em atividade e absorveu o catálogo, que atravessou a quebra da bolsa de 1929 e a queda brutal de venda de disco nos anos seguintes com boa parte das matrizes preservada.
Armstrong trocou o cornetim pelo trompete, saiu do formato de grupo pequeno para as orquestras de dança, atravessou a Europa em turnê a partir de 1932 e entrou no cinema. Em 9 de maio de 1964, com 62 anos, chegou ao primeiro lugar da parada de singles da Billboard com Hello, Dolly!, interrompendo a sequência de primeiros lugares que os Beatles emendavam desde fevereiro daquele ano.
O canto sem palavra virou disciplina. Cab Calloway construiu número de palco inteiro sobre a chamada e resposta em sílabas, Ella Fitzgerald transformou o recurso em improviso longo de coro sobre coro em gravações como How High the Moon, de 1947, e Sarah Vaughan trouxe para dentro do canto de balada o mesmo tratamento instrumental da voz.
O que veio depois, ano a ano:
| 1926: a Columbia compra a OKeh e mantém a série 8000 | | 1927: o grupo é ampliado e grava como Hot Seven | | 1928: West End Blues fixa a abertura de cornetim mais copiada | | 1932: primeira turnê europeia de Armstrong | | 1964: Hello, Dolly! chega ao topo da parada da Billboard | | 2002: as gravações de 1925 a 1928 entram no National Recording Registry |
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A inscrição no National Recording Registry, em 2002, tratou as sessões do Hot Five e do Hot Seven como bloco único, e não faixa a faixa. O parecer daquele ano apontou o conjunto como a virada em que o solo individual passou a organizar o arranjo de jazz.
A casa onde Armstrong morou por quase três décadas, em Corona, no bairro do Queens, em Nova York, funciona hoje como museu e arquivo. O acervo guarda centenas de fitas de rolo que ele mesmo gravou em casa, com conversa, ensaio e comentário sobre o próprio repertório, além de colagens que fazia nas caixas das fitas.
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