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ED 013

A Noite em que a Orquestra Não Estava no Fosso

Em 6 de agosto de 1926, a estreia de Don Juan em Nova York sincroniza discos de cera com a projeção.

Um prato de toca-discos de dezesseis polegadas ao lado da cabeça de um projetor de cinema, com o braço da agulha pousado na borda do disco.

O prato de discos acoplado ao projetor

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Em 1925, num laboratório da Western Electric em Nova York, um grupo de engenheiros passava os dias tentando casar duas máquinas teimosas. De um lado, um projetor de cinema. Do outro, um toca-discos.

Gravar som já era coisa resolvida havia quase cinquenta anos. O problema era manter as duas máquinas no mesmo compasso do primeiro ao último metro do rolo.

Meio segundo de atraso bastava para a agulha entregar uma palavra que a boca na tela já tinha terminado de dizer.

A saída foi mecânica, não eletrônica. Projetor e prato passaram a ser tocados por motores acoplados, girando presos ao mesmo comando, e a agulha começava a leitura numa marca gravada no disco, não onde o operador achasse melhor.

O sistema ganhou o nome de Vitaphone. A Western Electric tinha a patente e nenhum estúdio grande interessado em comprar.

Os grandes de Hollywood não viam motivo para gastar. As salas de projeção do país empregavam organistas, pianistas e orquestras inteiras, o público estava acostumado com esse arranjo, e reformar milhares de cinemas custaria uma fortuna que ninguém queria adiantar.

Quem apareceu foi um estúdio pequeno e endividado. A Warner Bros. tinha menos de dez anos de vida, uma dívida crescente e nenhuma cadeia de salas comparável à dos concorrentes.

Sam Warner assistiu a uma demonstração do sistema e passou meses convencendo o irmão mais velho, Harry, de que ali estava a única chance de o estúdio pular a fila.

Em abril de 1926 os dois assinaram com a Western Electric a criação da Vitaphone Corporation, com licença exclusiva de exploração do sistema.

O passo seguinte foi comprar uma vitrine. O estúdio arrematou o Piccadilly, uma casa da Broadway com a esquina da rua 52, rebatizou o prédio de Warners' Theatre e mandou reformar a cabine de projeção para caber os pratos, os amplificadores e a fiação nova.

Faltava a única coisa que nenhuma demonstração de laboratório resolve: uma plateia pagante sentada no escuro, sem saber de onde vem o som.

A primeira página de hoje começa numa noite quente de agosto na Broadway, com o público de smoking e um disco de cera girando na cabine.

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I  A Primeira Página de Hoje

O braço da agulha e o eixo do projetor

Na noite de 6 de agosto de 1926 a fila na esquina da rua 52 era de convidados de gala. A imprensa de Nova York estava lá, os executivos dos estúdios rivais também, e a bilheteria da temporada seguinte já vendia sessão dupla, matinê e noite.

O programa não abriu com o filme anunciado. Abriu com uma fileira de curtas sonoros, feitos para provar que o aparelho funcionava com voz, com corda e com sopro.

O primeiro rolo trazia Will H. Hays, presidente da associação dos produtores americanos, em pé diante da câmera, falando direto para a plateia sobre a novidade que ela estava prestes a ouvir.

Depois veio a Filarmônica de Nova York, regida por Henry Hadley, tocando a abertura de Tannhäuser, de Wagner, gravada em estúdio semanas antes.

A lista seguinte era de nomes que enchiam sala de concerto. Mischa Elman ao violino, Efrem Zimbalist com Harold Bauer ao piano, a soprano Marion Talley cantando Caro nome, do Rigoletto de Verdi.

O tenor Giovanni Martinelli fechou a série com Vesti la giubba, de Pagliacci, e a plateia aplaudiu de pé uma projeção, como se aplaudisse um palco.

Só então entrou o longa. Don Juan, dirigido por Alan Crosland, com John Barrymore no papel principal, Mary Astor, Estelle Taylor como Lucrécia Bórgia e Warner Oland como o pai da família Bórgia.

Nenhum ator dizia uma palavra na tela. O que o disco trazia era a partitura de William Axt executada pela Filarmônica, mais sinos, campainhas e o choque das lâminas nos duelos, colados na cena no instante certo.

O equipamento na cabine era simples de descrever e difícil de operar. Cada rolo de filme tinha o seu disco próprio, um bolachão de quarenta centímetros, gravado a 33 rotações e um terço por minuto.

A agulha corria de dentro para fora, ao contrário do disco doméstico, e o operador pousava o braço numa seta gravada na cera antes de liberar o projetor.

Um rolo durava cerca de dez minutos, e Don Juan tinha dez rolos. Eram dez discos numerados, empilhados na ordem, com dois projetores revezando para que a projeção não parasse na troca.

A cópia inteira exigia dez discos, dois projetores e um operador que não podia errar a seta de partida uma única vez em duas horas e meia de sessão.

Meus amigos, nenhuma história escrita para a tela é tão dramática quanto a história da própria tela.

Will H. Hays, discurso filmado de abertura do programa Vitaphone, 6 de agosto de 1926

Um disco riscado, uma agulha pulando de sulco ou um rolo emendado depois de arrebentar tiravam a imagem do compasso pelo resto da bobina.

Naquela noite nada disso aconteceu. O jornal do dia seguinte descreveu música saindo da tela com clareza de sala de concerto, e a temporada do filme na casa da Broadway seguiu por meses, com ingresso marcado e lugar reservado.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A conta que chegou nas salas de projeção

Don Juan custou perto de 790 mil dólares e a Warner ainda precisava convencer cada dono de cinema do país a instalar pratos, amplificadores e alto-falantes por conta própria.

A instalação completa do Vitaphone numa sala saía por algo entre 16 mil e 25 mil dólares em 1926, valor alto para uma casa de bairro que faturava com ingresso de centavos.

No fim daquele ano, o número de cinemas equipados nos Estados Unidos ainda cabia numa lista curta. O estúdio bancou parte das instalações para garantir que existisse onde exibir o que estava produzindo.

A virada veio catorze meses depois. Em 6 de outubro de 1927, o mesmo Warners' Theatre estreou O Cantor de Jazz, com Al Jolson cantando e improvisando frases faladas entre os números.

Sam Warner não viu a estreia. O irmão que empurrou o sistema dentro do estúdio faleceu em Los Angeles na véspera, aos 40 anos, e os quatro irmãos estavam a caminho do enterro na noite da sessão.

O sucesso do filme fechou a discussão em Hollywood. Em 1928 os estúdios grandes assinaram acordo para adotar som, e a conversão das salas virou corrida.

O Vitaphone perdeu a corrida técnica que ele próprio abriu. A Fox apostava no Movietone, sistema que gravava a trilha como uma faixa fotográfica na lateral do filme, sem disco nenhum para sincronizar.

Som impresso na película não sai do compasso, não risca e não troca de ordem na cabine. Por volta de 1931 as cópias em disco tinham sido abandonadas pela indústria.

Quem diabos quer ouvir ator falando?

Frase de Harry Warner de 1926, relatada por Jack Warner em My First Hundred Years in Hollywood, 1965

A conta mais pesada não caiu sobre os estúdios, caiu sobre quem trabalhava dentro das salas. Cada cinema americano mantinha músicos empregados, dos organistas de casa de bairro às orquestras de trinta pessoas das salas de luxo.

A Federação Americana de Músicos calculou que a conversão para o som tirou do mercado a maior parte dos postos de trabalho em cinema num intervalo de poucos anos, e chegou a bancar campanha de anúncios contra a música gravada.

O prédio da rua 52 acompanhou o resto do século. Serviu de sala de cinema, de estúdio de televisão da rede CBS e de casa de espetáculo, e foi demolido em 1990.

Os discos sobreviveram melhor que os cinemas. Cópias de vários curtas do programa de 1926 continuam guardadas em arquivo, e a trilha de Don Juan é ouvida hoje a partir da mesma cera prensada naquele ano.

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame de duas colunas na Broadway

A página: em agosto de 1926, os jornais de Nova York dedicavam páginas inteiras aos anúncios de espetáculo, com a programação das casas da Broadway organizada em colunas estreitas, teatro por teatro.

O anúncio: o reclame do Warners' Theatre vendia duas coisas ao mesmo tempo. O nome de John Barrymore em corpo grande, que a plateia já conhecia da bilheteria, e uma palavra que ninguém tinha ouvido antes, Vitaphone, impressa em caixa alta logo abaixo.

A coluna: o anúncio informava sessões marcadas duas vezes por dia, lugar reservado e preço de teatro, não de cinema. A casa vendia uma noite de gala, com hora de começar e poltrona numerada, e não uma sessão contínua em que se entra no meio.

O detalhe comercial diz mais que a técnica. Um cinema de 1926 vendia ingresso barato, sessão que rodava o dia inteiro e público entrando a qualquer hora.

Ao cobrar preço de teatro e marcar horário, o estúdio tratava a máquina nova como atração de temporada, e não como comodidade de bairro.

A escolha das palavras no reclame também foi calculada. Nenhuma linha prometia ouvir os atores falando, porque em Don Juan eles não falavam.

O que o anúncio prometia era a Filarmônica de Nova York executando a partitura e os grandes nomes do canto lírico no mesmo programa, atrações que custariam caro em qualquer casa de concerto da cidade.

O argumento de venda era de acesso: pelo preço de uma poltrona na Broadway, o público de qualquer cidade ouviria Martinelli e a Filarmônica quando as cópias chegassem à sua sala.

O jornal seguiu imprimindo aquela mesma coluna de espetáculos por décadas. O que mudou nela, em poucos anos, foi a lista dos empregos que sustentavam cada endereço anunciado.

Em 1926, ao lado do nome do filme, muitos anúncios ainda destacavam o organista residente ou o maestro da casa como parte da atração. Em meados dos anos 30 esses nomes tinham saído da página.

O sistema que estreou naquela noite durou cinco anos no mercado e substituiu de forma permanente a orquestra que tocava ao vivo em cada sala do país.

"Uma tecnologia que morre em cinco anos, mas apaga uma profissão inteira, entra na história como fracasso ou como marco?"

 
 
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Na estreia de Don Juan em 6 de agosto de 1926, quantos discos de cera numerados foram usados para acompanhar a projeção inteira?

ASeis discos
BOito discos
CDez discos
DDoze discos

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