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Na noite de 6 de agosto de 1926 a fila na esquina da rua 52 era de convidados de gala. A imprensa de Nova York estava lá, os executivos dos estúdios rivais também, e a bilheteria da temporada seguinte já vendia sessão dupla, matinê e noite.
O programa não abriu com o filme anunciado. Abriu com uma fileira de curtas sonoros, feitos para provar que o aparelho funcionava com voz, com corda e com sopro.
O primeiro rolo trazia Will H. Hays, presidente da associação dos produtores americanos, em pé diante da câmera, falando direto para a plateia sobre a novidade que ela estava prestes a ouvir.
Depois veio a Filarmônica de Nova York, regida por Henry Hadley, tocando a abertura de Tannhäuser, de Wagner, gravada em estúdio semanas antes.
A lista seguinte era de nomes que enchiam sala de concerto. Mischa Elman ao violino, Efrem Zimbalist com Harold Bauer ao piano, a soprano Marion Talley cantando Caro nome, do Rigoletto de Verdi.
O tenor Giovanni Martinelli fechou a série com Vesti la giubba, de Pagliacci, e a plateia aplaudiu de pé uma projeção, como se aplaudisse um palco.
Só então entrou o longa. Don Juan, dirigido por Alan Crosland, com John Barrymore no papel principal, Mary Astor, Estelle Taylor como Lucrécia Bórgia e Warner Oland como o pai da família Bórgia.
Nenhum ator dizia uma palavra na tela. O que o disco trazia era a partitura de William Axt executada pela Filarmônica, mais sinos, campainhas e o choque das lâminas nos duelos, colados na cena no instante certo.
O equipamento na cabine era simples de descrever e difícil de operar. Cada rolo de filme tinha o seu disco próprio, um bolachão de quarenta centímetros, gravado a 33 rotações e um terço por minuto.
A agulha corria de dentro para fora, ao contrário do disco doméstico, e o operador pousava o braço numa seta gravada na cera antes de liberar o projetor.
Um rolo durava cerca de dez minutos, e Don Juan tinha dez rolos. Eram dez discos numerados, empilhados na ordem, com dois projetores revezando para que a projeção não parasse na troca.
A cópia inteira exigia dez discos, dois projetores e um operador que não podia errar a seta de partida uma única vez em duas horas e meia de sessão.
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Meus amigos, nenhuma história escrita para a tela é tão dramática quanto a história da própria tela.
Will H. Hays, discurso filmado de abertura do programa Vitaphone, 6 de agosto de 1926
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Um disco riscado, uma agulha pulando de sulco ou um rolo emendado depois de arrebentar tiravam a imagem do compasso pelo resto da bobina.
Naquela noite nada disso aconteceu. O jornal do dia seguinte descreveu música saindo da tela com clareza de sala de concerto, e a temporada do filme na casa da Broadway seguiu por meses, com ingresso marcado e lugar reservado.
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