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A Noite que Graham Pagou

Em 18 de abril de 1926, no 48th Street Theatre de Nova York, Martha Graham dança dezoito peças curtas num recital que ela mesma bancou.

Palco de teatro vazio visto da plateia, com um piano de cauda na coxia.

Palco vazio de teatro em Nova York, 1926

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Entre 1923 e 1925, Martha Graham subiu ao palco em revistas comerciais da Broadway, no Greenwich Village Follies, com salário de temporada e público pago por outra pessoa, como ela mesma registra em Blood Memory, autobiografia publicada em 1991. Em 18 de abril de 1926, ela usou a reserva formada nesses anos para alugar um teatro de Nova York por uma tarde, sem produtor, sem empresário e sem bilheteria vendida.

Os dois fatos estão a menos de três anos de distância e descrevem escolhas opostas. Um mostra uma bailarina empregada, dançando repertório escolhido por diretores de revista. O outro mostra a mesma bailarina como pagadora da conta, decidindo sozinha o que subiria ao palco e assumindo o prejuízo caso a casa ficasse vazia.

A formação dela vinha da Denishawn, a escola que Ruth St. Denis e Ted Shawn mantinham em Los Angeles e onde Graham entrou em 1916. Ali se aprendia um vocabulário de danças orientalistas, espanholas e gregas, montado para turnê e para plateia de teatro de variedades. Foi o único treinamento formal que ela teve, e foi dele que saiu em 1923 para trabalhar em Nova York.

O sustento veio do ensino. Em 1925, Graham assumiu aulas de dança na Eastman School of Music, em Rochester, no estado de Nova York, onde conheceu as alunas que dividiriam o palco com ela e trabalhou ao lado de Louis Horst, o pianista e diretor musical que a acompanhava desde a Denishawn e que continuaria com ela por décadas.

Nova York em 1926 tinha uma temporada de concertos organizada em torno de empresários, séries por assinatura e nomes europeus em turnê. Uma bailarina americana sem cartaz que quisesse mostrar coreografia própria tinha um caminho aberto: alugar a casa, imprimir o programa, vender os ingressos e torcer para que os críticos aparecessem.

A primeira página de hoje é a tarde de 18 de abril de 1926 no 48th Street Theatre, com o programa completo, as três alunas e o que a crítica de Nova York escreveu na manhã seguinte.

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I  A Primeira Página de Hoje

Dezoito peças numa tarde de domingo

No domingo, 18 de abril de 1926, o 48th Street Theatre, uma casa de porte médio no centro de Manhattan, abriu para um recital que não fazia parte de nenhuma série. O nome no cartaz era Martha Graham, então com trinta e um anos, conhecida no meio por sua passagem pela Denishawn e pelas revistas da Broadway, desconhecida como coreógrafa.

No palco, além dela, três alunas trazidas de Rochester: Evelyn Sabin, Thelma Biracree e Betty Macdonald. No fosso, um piano e Louis Horst. Não havia orquestra, corpo de baile, cenário construído nem maquinário de cena. O elenco inteiro cabia em quatro corpos.

A dança é a linguagem oculta da alma.

Martha Graham, Blood Memory, 1991

O programa daquela tarde trazia dezoito peças curtas, quase todas com menos de cinco minutos. Nenhuma delas era do repertório da Denishawn, e nenhuma tinha sido encomendada por um produtor. Era a primeira vez que uma plateia de Nova York via um programa inteiro assinado por ela.

Os títulos vinham em três blocos. Havia solos de vocabulário lírico, com música de Debussy, Ravel, Satie e Scriabin, entre eles Clair de Lune, Maid with the Flaxen Hair e Deux Valses Sentimentales. Havia peças de figura e estampa, como Tanagra, A Study in Lacquer e Three Gopi Maidens, ainda próximas do orientalismo que ela tinha aprendido. E havia trios curtos para as alunas, como Marionette Show e Danse Rococo.

O guarda-roupa foi resolvido em casa. Graham costurava e tingia os figurinos com as próprias mãos, prática que manteria por anos e que ela descreve em Blood Memory. O dinheiro que sobrava da conta do teatro não daria para uma costureira profissional, e a solução virou parte do método: tecido pesado, corte simples, nada que escondesse o movimento do tronco.

A ficha do recital, item por item:

Data: domingo, 18 de abril de 1926
Local: 48th Street Theatre, Nova York
Peças apresentadas: dezoito, todas curtas
Elenco: Martha Graham e três alunas, Evelyn Sabin, Thelma Biracree e Betty Macdonald
Direção musical e piano: Louis Horst
Compositores no programa: Debussy, Ravel, Satie, Scriabin e outros
Quem pagou a conta: a própria Graham, com a reserva dos anos de Broadway e das aulas em Rochester

A recepção não foi unânime, e ela não esperava que fosse. Parte da crítica de dança de Nova York tratou o programa como um passo elegante para fora da Denishawn; outra parte achou o vocabulário ainda preso ao decorativo que ele queria abandonar. O que ninguém contestou foi a autoria: pela primeira vez, o cartaz, o programa, a coreografia e a conta pertenciam à mesma pessoa.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O vocabulário que nasceu depois da conta paga

A tarde de abril de 1926 não produziu uma obra-prima. Produziu um endereço, uma companhia e uma licença para errar em público sem pedir autorização a produtor nenhum. As peças que sustentam o nome de Graham vieram depois, com o material que ela só pôde inventar por já ter palco próprio.

O passo seguinte foi montar estúdio em Nova York e transformar aulas em laboratório. Ali ela desenvolveu o par de movimentos que ficou conhecido como contraction and release, contração e liberação, organizado a partir do ciclo da respiração e centrado na pelve e na coluna. O vocabulário nasceu de um princípio fisiológico, não de uma escola estrangeira, e passou a ser ensinado como técnica codificada.

O corpo de baile mudou de cara em 1929, com Heretic, peça para um grupo de mulheres em uníssono, com figurino escuro e chão batido. O contraste com as danças de estampa do programa de 1926 é grande, e a distância entre os dois programas é de três anos.

O que veio depois, ano a ano:

1926: primeiro recital independente e fundação do próprio grupo em Nova York
1929: estreia de Heretic, com grupo feminino em uníssono
1930: estreia de Lamentation, solo dançado dentro de um tubo de malha elástica
1935: estreia de Frontier, primeira colaboração com o escultor Isamu Noguchi
1936: Graham recusa o convite alemão para se apresentar nos Jogos Olímpicos de Berlim
1944: estreia de Appalachian Spring, com música de Aaron Copland e cenário de Noguchi, em 30 de outubro, na Biblioteca do Congresso, em Washington
1945: Copland recebe o prêmio Pulitzer de música pela partitura encomendada para essa peça

A técnica saiu do estúdio e entrou no currículo. A Martha Graham School of Contemporary Dance passou a formar bailarinos que depois abriram caminhos próprios, entre eles Merce Cunningham, Erick Hawkins e Paul Taylor, e a linguagem de contração e liberação virou disciplina obrigatória em escolas de dança dentro e fora dos Estados Unidos.

O trabalho com colaboradores foi outra marca do modelo. Copland, Noguchi, Samuel Barber e William Schuman assinaram partituras e cenários para peças dela, num arranjo em que a coreografia chegava primeiro e a música era encomendada depois, ordem inversa à do balé de repertório.

Graham continuou dançando até 1970 e coreografando até o fim da vida, em 1991, mesmo ano da publicação de Blood Memory. A companhia que ela fundou depois daquele recital segue em atividade e é a mais antiga companhia de dança dos Estados Unidos ainda em operação.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame que dividia a página com a temporada

A página: a seção de Amusements dos diários de Nova York em abril de 1926 misturava tudo numa grade só. Estreias da Broadway, programação de ópera, cinema mudo, vaudeville e recitais alugados dividiam colunas estreitas, e o anúncio pago de um artista independente ficava do mesmo tamanho que o de uma revista musical com meses de cartaz.

O anúncio: ao redor dessa grade vinham os nomes fixos do varejo e da indústria. A Steinway & Sons, fabricante de pianos com sede em Nova York desde 1853, anunciava instrumentos para sala de concerto e para casa. A Victor Talking Machine Company vendia a vitrola e o disco que traziam para a sala de estar a mesma música que os teatros cobravam ingresso para ouvir. As lojas de departamento Lord & Taylor e B. Altman ocupavam páginas inteiras com moda de primavera.

A coluna: completavam a página os anúncios de produto de consumo em campanha nacional, entre eles o Listerine da Lambert Pharmacal Company, que desde o começo dos anos 1920 vendia o antisséptico bucal com a palavra halitose, e os cigarros Camel, da R. J. Reynolds. Ao lado deles, a grade da rádio WEAF, estação de Nova York que em novembro daquele ano passaria a ser o núcleo da rede NBC.

A ficha da imprensa e do reclame nova-iorquino do período, item por item:

Seção onde o recital era anunciadoAmusements, nos diários da cidade
Fabricante de pianos anuncianteSteinway & Sons, em Nova York desde 1853
Indústria de som domésticoVictor Talking Machine Company, com a vitrola e o disco
Lojas de departamento anunciantesLord & Taylor e B. Altman
Antisséptico em campanha nacionalListerine, da Lambert Pharmacal Company
Cigarro em campanha nacionalCamel, da R. J. Reynolds
Estação de rádio na gradeWEAF, que em novembro de 1926 vira o núcleo da NBC
Revista semanal de crítica culturalThe New Yorker, fundada em fevereiro de 1925

A concorrência pela atenção era desigual e mensurável em polegada de coluna. Uma revista da Broadway comprava espaço grande durante toda a temporada; um recital de tarde única comprava uma linha e dependia da resenha da manhã seguinte para existir na conversa da cidade. O cálculo de quem alugava o teatro incluía essa aritmética antes da primeira aula de ensaio.

A imprensa especializada era o outro fio. Os diários mantinham crítico de dança fixo, e revistas como The New Yorker, fundada em fevereiro de 1925, tratavam recital e estreia teatral com o mesmo espaço. Quem lê as páginas de abril de 1926 encontra a mesma coluna anunciando vitrola, creme dental e uma tarde de dança que ninguém sabia nomear.

Os documentos daquela tarde continuam acessíveis e datados. O programa impresso e os recortes de crítica do recital estão na Jerome Robbins Dance Division da New York Public Library for the Performing Arts, no Lincoln Center, e o arquivo da própria companhia mantém a cronologia das estreias. O centenário do recital cai em 18 de abril de 2026. Reconfira as duas fontes na semana do centenário, uma no catálogo da Dance Division e a outra no arquivo da companhia.

"Pagar o próprio teatro foi teimosia cara ou a única forma de assinar o que se dança?"

 
 

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No recital de 18 de abril de 1926, no 48th Street Theatre, quantas peças curtas Martha Graham apresentou no programa?

ADoze peças
BQuinze peças
CDezoito peças
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