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A Ópera dos Três Vinténs estreia em Berlim em 31/8/1928

Uma balada escrita na última semana para agradar o protagonista vira Mack the Knife, gravada por Louis Armstrong e Bobby Darin.

Um realejo de madeira sobre o palco vazio de um teatro.

Theater am Schiffbauerdamm, Berlim, 1928

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A Ópera dos Três Vinténs estreou em 31/8/1928, no Theater am Schiffbauerdamm, em Berlim, com uma balada de abertura escrita por Bertolt Brecht e Kurt Weill na última semana de ensaios. Em 1959, a mesma balada, cantada em inglês por Bobby Darin, passou nove semanas no primeiro lugar da parada Hot 100 da revista Billboard.

Uma canção feita às pressas para resolver o capricho de um ator virou o número mais regravado da peça. A peça em si quase não chegou à noite de estreia.

O empresário Ernst Josef Aufricht tinha alugado o teatro naquele ano e precisava de um espetáculo para abrir a temporada. Escolheu uma adaptação de A Ópera do Mendigo, peça inglesa de John Gay encenada em Londres em 1728, vertida para o alemão pela tradutora Elisabeth Hauptmann.

Brecht reescreveu o texto e chamou Weill para a música. Os ensaios correram no verão, com atriz trocada no caminho, cenas cortadas e o final ainda sem forma poucos dias antes da data marcada.

O ator Harald Paulsen, escalado como o bandido Macheath, queria uma entrada à altura do papel. Pediu uma canção para apresentá-lo ao público e fez questão de usar em cena uma gravata-borboleta azul-celeste.

Brecht respondeu com uma moritat (balada de feira sobre crimes, cantada ao som de realejo). A letra enumera os crimes de Macheath, apelidado Mackie Messer (Mackie Navalha), e Weill a pôs numa melodia curta, repetida estrofe após estrofe.

Paulsen não cantou a balada. A tarefa ficou com o ator Kurt Gerron, no papel de um cantor de rua, e Paulsen ganhou só metade do pedido: a peça abre anunciando o nome do personagem dele, na voz de outro.

Na estreia, a plateia assistiu ao primeiro ato sem reação. A virada veio com a Canção dos Canhões, um dueto de Macheath com o chefe de polícia, e a sala terminou a noite aplaudindo sem parar.

A primeira página conta quem estava no palco e qual história a peça contava aos berlinenses de 1928.

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I  A Primeira Página de Hoje

Um bandido de gravata azul

Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs), de Bertolt Brecht e Kurt Weill, abriu a temporada do Theater am Schiffbauerdamm, sala inaugurada em 1892 às margens do rio Spree, em Berlim.

O título promete uma ópera barata, de três moedas miúdas, o preço de um espetáculo pago por mendigos. A ideia vinha do original inglês de John Gay, escrito em 1728 como paródia das óperas italianas da moda em Londres.

A história se passa numa Londres de fachada vitoriana. Macheath, o Mackie Navalha, casa às escondidas com Polly, filha de Jonathan Peachum, dono de um negócio estranho: ele veste mendigos com trapos convincentes e cobra deles pelos pontos de esmola da cidade.

Peachum quer o genro na forca. O chefe de polícia, Tiger Brown, lutou com Macheath no exército colonial e o protege até onde consegue.

No fim, Macheath sobe ao cadafalso e é salvo por um mensageiro a cavalo. A rainha o perdoa, dá a ele um título de nobreza e uma pensão. Brecht escreveu o final feliz como deboche dos finais de ópera.

No elenco da estreia, Roma Bahn fez Polly, depois da saída de Carola Neher durante os ensaios. Erich Ponto fez Peachum, e Lotte Lenya, mulher de Weill, fez Jenny, a prostituta que entrega Macheath à polícia.

O nome de Lenya ficou fora do programa impresso por erro da gráfica. Weill, segundo o relato da própria atriz, passou a noite furioso com a omissão.

A canção mais lembrada da peça nasceu para acalmar a vaidade de um ator, e foi entregue a outro.

A música também fugia do padrão. Weill escreveu para a Lewis Ruth Band, conjunto de jazz e dança regido por Theo Mackeben, com poucos músicos revezando saxofone, banjo, trompete, piano e percussão.

A balada de abertura segue esse espírito. O cantor de rua apresenta o bandido como um tubarão, numa estrofe traduzida aqui do texto de Brecht, Die Dreigroschenoper, 1928:

“E o tubarão tem dentes, e os traz à vista no rosto; e Macheath tem uma faca, mas a faca ninguém vê.”

A comparação diz a tese da peça: o crime de rua e o crime de terno usam a mesma lógica, só muda a roupa. Macheath fala como comerciante, e Peachum administra a miséria como uma empresa.

A cronologia da estreia:

1728: Ópera do Mendigo em Londres
1928: Tradução de Hauptmann
Agosto de 1928: Moritat escrita nos ensaios
31/8/1928: Estreia em Berlim
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do realejo à parada americana

O sucesso de Berlim correu pela Alemanha. Em poucos anos a peça entrou no repertório de teatros de língua alemã e ganhou traduções na Europa.

Em 1931, o diretor Georg Wilhelm Pabst filmou a história para a produtora Nero-Film. Brecht e Weill processaram a produtora pelas mudanças no roteiro: Weill ganhou a causa, Brecht perdeu e escreveu um ensaio sobre o caso, O Processo dos Três Vinténs.

Em 1933, os nazistas chegaram ao poder e proibiram a peça. Brecht saiu da Alemanha e passou anos no exílio, na Dinamarca, na Finlândia e nos Estados Unidos.

Weill e Lenya foram para Paris e, em 1935, para Nova York. Lá, Weill compôs para a Broadway e ficou até o fim da vida, em 1950.

Kurt Gerron, o primeiro cantor da balada, era judeu. Foi deportado pelos nazistas e assassinado em Auschwitz em 1944.

A volta da canção começou em 1954. O compositor americano Marc Blitzstein traduziu a peça para o inglês, e a montagem estreou no Theatre de Lys, em Greenwich Village, Nova York, com Lenya de novo no papel de Jenny.

A tradução de Blitzstein deu à moritat o nome Mack the Knife (Mack, o Navalha) e uma letra mais leve. A montagem ficou em cartaz até 1961.

A balada saiu de Berlim proibida em 1933 e voltou à cidade em 1960 cantada em inglês.

Em 1955, Louis Armstrong gravou a canção. No estúdio, o trompetista acrescentou o nome de Lotte Lenya à lista de mulheres da letra, e Lenya, presente na gravação, riu do improviso.

A gravação de Armstrong fez de Mack the Knife um padrão do jazz (canção tocada e regravada como repertório comum dos músicos). Em 1959, Bobby Darin lançou a versão com orquestra de swing, a mais vendida de todas.

A versão de Darin ganhou o Grammy de Gravação do Ano na premiação de 1960. Foi a canção de uma peça alemã de 1928 no topo da música popular americana.

Em 13/2/1960, Ella Fitzgerald cantou Mack the Knife na Deutschlandhalle, em Berlim. Esqueceu a letra com a música em andamento e improvisou versos sobre o próprio esquecimento, sem parar a banda.

A gravação saiu no disco Ella in Berlin e deu a ela o Grammy de melhor interpretação vocal feminina. A balada voltava à cidade onde tinha nascido, agora vinda dos Estados Unidos.

A cronologia depois da estreia:

1933: Peça proibida
1954: Versão de Blitzstein
1955: Armstrong grava
1959: Darin no topo
1960: Ella canta em Berlim
 

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III  O Anúncio da Página 3

Versos alheios no programa

A página: a imprensa berlinense de setembro de 1928 tratou a estreia como o acontecimento da temporada. O crítico Herbert Ihering, do Berliner Börsen-Courier, defendeu a peça como um teatro novo, feito para o público fora da elite.

A coluna: o crítico Alfred Kerr, do Berliner Tageblatt, achou outro ângulo em 1929. Mostrou que várias canções da peça usavam versos do poeta francês François Villon na tradução alemã de K. L. Ammer, sem crédito ao tradutor.

O anúncio: Brecht não negou. Respondeu em nota publicada no mesmo ano, assumindo o empréstimo com uma frase célebre sobre a própria postura:

“Uma frouxidão fundamental em questões de propriedade intelectual.”

As edições seguintes da peça passaram a creditar Ammer. O tradutor, Karl Klammer, recebeu uma parte dos direitos autorais das canções.

Não há data exata para a escrita da moritat. Os relatos de Aufricht, nas memórias publicadas em 1966, e os de Lenya, dados em entrevistas décadas depois, falam em dias antes da estreia, sem fixar o dia, e nenhum manuscrito datado sobreviveu para resolver a dúvida.

Também não se sabe se a gravata azul de Paulsen chegou ao palco na estreia. As fotos de cena conhecidas são em preto e branco, e o programa impresso não traz figurino.

Harald Paulsen seguiu no teatro e no cinema alemão até a década de 1950. Nunca gravou a balada mais famosa do papel que tinha sido dele.

A peça voltou ao Theater am Schiffbauerdamm. Desde 1954 a sala abriga o Berliner Ensemble, companhia fundada por Brecht, e a Ópera dos Três Vinténs segue no repertório da casa.

A ficha da última página:

Estreia: 31/8/1928
Teatro: Schiffbauerdamm, Berlim
Texto: Bertolt Brecht
Música: Kurt Weill
Original: John Gay, 1728
Balada: Moritat de Mackie Messer

“Quantas canções famosas nasceram para agradar um ator?”

O centenário da estreia cai em 31/8/2028, uma quinta-feira: nesse dia, reconfira a data e o elenco no programa original, guardado no Arquivo Bertolt Brecht da Academia de Artes de Berlim (adk.de).

★ RARO

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Harald Paulsen, o ator que fazia Macheath, pediu uma canção de entrada pro seu personagem. Quem cantou essa balada na estreia de 1928?

AO próprio Harald Paulsen
BKurt Gerron, no papel de cantor de rua
CErich Ponto, no papel de Peachum
DLotte Lenya, no papel de Jenny

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