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A Pregadora Que Entrou no Mar e Voltou pelo Deserto
Em 18 de maio de 1926, Aimee Semple McPherson entra no mar em Ocean Park, na Califórnia, e reaparece cinco semanas depois em Douglas, no Arizona.
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O toldo de praia antes da busca
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Em 1º de janeiro de 1923, um templo circular de concreto abriu as portas em Echo Park, em Los Angeles, com cerca de cinco mil e trezentos assentos e um palco desenhado para ser visto da última fileira. Quem o ergueu não era pastor de denominação antiga nem herdeiro de fortuna, era uma canadense de trinta e poucos anos que tinha atravessado os Estados Unidos pregando em tendas de lona e num automóvel com dizeres pintados na lataria.
Aimee Semple McPherson não fazia culto, fazia espetáculo com pauta bíblica. Ela subia ao palco fantasiada de policial de trânsito para pregar contra a pressa, entrava dirigindo uma motocicleta pelo corredor central, contratava orquestra, coro de centenas de vozes e cenários pintados por profissionais de teatro que trabalhavam no centro da cidade durante a semana.
O alcance da voz dela deixou de depender do prédio em fevereiro de 1924. Naquele mês, a igreja pôs no ar a KFSG, uma das primeiras emissoras de rádio licenciadas nos Estados Unidos a pertencer a uma congregação, com antenas nas torres do próprio templo e programação diária que entrava na cozinha de quem nunca tinha posto o pé em Echo Park.
O tamanho da operação era o de uma empresa média da época. Havia comissariado de socorro que distribuía alimento e roupa na porta, escola de formação de pregadores, ambulatório, e uma contabilidade tocada pela mãe dela, Minnie Kennedy, que contava as ofertas de domingo e assinava os contratos.
Uma figura pública com essa dimensão não some sem consequência administrativa. Ela tinha compromisso de palco marcado, folha de pagamento a honrar, horário de rádio a cumprir e um público que sabia exatamente em que minuto a voz dela deveria começar.
A primeira página de hoje é a tarde de maio em que essa voz saiu do ar sem aviso, numa faixa de areia a poucos quilômetros do templo, diante de gente que a esperava com toalha e caderno de anotações.
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I A Primeira Página de Hoje
O toldo na areia e o mar de Ocean Park
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Na terça-feira, 18 de maio de 1926, Aimee Semple McPherson desceu até a praia de Ocean Park, no litoral de Los Angeles, acompanhada da secretária Emma Schaffer. Alugou espaço de banho, sentou-se para revisar o sermão de domingo e depois entrou na água enquanto a secretária ficava na areia guardando os pertences.
Ela nadava com frequência e o hábito era conhecido de quem frequentava aquele trecho. Passado algum tempo, Emma Schaffer não a localizou mais na arrebentação, subiu até o quiosque de salva-vidas e deu o alarme, que em minutos virou notícia de rádio na própria emissora da igreja.
A busca começou ainda com sol. Barcos de pesca saíram do píer, mergulhadores desceram nas águas frias do canal, aviões passaram baixo sobre a linha de espuma, e voluntários montaram vigília na areia com fogueiras acesas para que ninguém perdesse a referência da costa durante a noite.
O que aconteceu na areia, porém, não era operação de resgate comum. Fiéis do templo chegaram de bonde e de automóvel aos milhares, ergueram tendas, cantaram hinos em turnos que atravessaram a madrugada e transformaram a faixa de praia num culto ao ar livre que durou semanas, com pregação, arrecadação e ambulância de plantão.
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Um casal me pediu para orar por uma criança doente que estaria no automóvel, e quando me aproximei do carro fui empurrada para dentro dele.
Aimee Semple McPherson, depoimento ao júri de instrução de Los Angeles, 1926
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A vigília na areia não era luto, era expectativa organizada. A mãe dela anunciou do púlpito que a filha estava com Deus, mas manteve os cultos, a programação de rádio e a caixa de ofertas funcionando, e o templo arrecadou durante o sumiço mais do que arrecadava em semana comum.
A ficha do desaparecimento, como os jornais da Califórnia a registraram:
| Data | terça-feira, 18 de maio de 1926 | | Local | praia de Ocean Park, Los Angeles | | Idade dela | 35 anos | | Última pessoa a vê-la | a secretária Emma Schaffer | | Duração do sumiço | 36 dias | | Assentos do templo em Echo Park | cerca de 5.300 |
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Na segunda semana chegaram as cartas. Uma delas, assinada por um grupo que se identificava como vingadores, exigia meio milhão de dólares em troca da devolução dela, e outras dezenas de mensagens de todo o país anunciavam pistas, visões e paradeiros que a polícia checou uma a uma sem resultado.
O caso já era o assunto de capa da imprensa americana quando o telefone tocou em Douglas, no Arizona, a mais de mil quilômetros da praia. Uma mulher exausta tinha batido à porta de uma casa naquela cidade de fronteira, na madrugada de 23 de junho, dizendo o próprio nome e pedindo que chamassem a polícia.
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II O Que Aconteceu Depois
A cabana em Carmel e o inquérito que não fechou
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O relato que ela apresentou tinha três sequestradores, um cativeiro no deserto mexicano e uma fuga a pé de horas sob o sol. O inquérito de Los Angeles passou os seis meses seguintes tentando encaixar esse relato nas provas materiais, e não conseguiu.
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A versão dela era detalhada. Três pessoas, dois homens e uma mulher, a teriam levado da praia num automóvel, mantido presa numa casa isolada em algum ponto do norte do México, amarrado suas mãos, e ela teria se soltado esfregando a corda numa lata cortada até escapar pela janela e caminhar até avistar as luzes de uma cidade de fronteira.
As primeiras dúvidas nasceram do corpo dela. Quem a examinou em Douglas registrou que ela não apresentava sinais de desidratação grave nem queimadura de sol compatível com uma travessia longa a pé no deserto do Sonora em junho, e que os sapatos que calçava estavam praticamente sem desgaste de sola.
A geografia também não colaborou. Ela indicou a região onde estaria a casa do cativeiro, expedições foram até lá com guias locais e nenhuma construção correspondente à descrição apareceu, nem rastro de caminhada, nem lata cortada, nem corda.
Enquanto a polícia procurava a cabana no deserto, repórteres encontraram outra cabana no litoral. Em Carmel-by-the-Sea, uma casa de veraneio tinha sido alugada em maio por um casal registrado com nome falso, e vizinhos e comerciantes descreveram a hóspede de um jeito que a promotoria considerou parecido demais.
O nome que apareceu ao lado do dela era o de Kenneth Ormiston, engenheiro de rádio que operava a KFSG e que também tinha sumido de circulação no mesmo período. A promotoria montou a hipótese de que o desaparecimento fora combinado, e levou o caso ao júri de instrução em julho de 1926.
Em setembro, o promotor Asa Keyes apresentou acusações de obstrução da justiça contra ela, contra a mãe e contra outras pessoas, sustentando que o relato de sequestro fabricava um crime inexistente e desviava recurso público de investigação.
O processo caiu em 10 de janeiro de 1927. O próprio promotor pediu o arquivamento, alegando que as testemunhas principais tinham mudado de versão tantas vezes que nenhuma delas se sustentaria em julgamento, e o caso encerrou sem que nenhuma das duas hipóteses fosse provada.
O público já tinha decidido antes do juiz. Quando ela voltou de trem a Los Angeles, em 26 de junho de 1926, dezenas de milhares de pessoas ocuparam a estação e o trajeto até Echo Park, e a igreja que ela fundou continuou crescendo durante todo o inquérito, com a mesma programação de rádio no ar. Cem anos depois, a denominação que nasceu daquele templo tem congregações espalhadas por dezenas de países, e o que aconteceu entre 18 de maio e 23 de junho de 1926 nunca foi estabelecido por nenhum tribunal.
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