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O número que mais pesou em Ancara foi o da leitura. O governo de Mustafa Kemal, presidente da República desde 1923, passou a citar o atraso na alfabetização como prova de que a escrita árabe atrapalhava o turco.
O argumento era técnico. O turco tem oito vogais, e a escrita árabe registra poucas delas; a mesma sequência de letras podia ser lida de vários modos, e aprender a ler levava anos.
Em junho de 1928, uma comissão de linguistas começou a montar um alfabeto latino adaptado ao turco, com letras como ç, ş, ğ, ı, ö e ü, uma para cada som da língua falada.
Em 9/8/1928, num discurso no parque de Sarayburnu, em Istambul, Mustafa Kemal (que receberia o sobrenome Atatürk em 1934) apresentou as letras ao público: “Nossa língua harmoniosa e rica vai se mostrar com as novas letras turcas”. A frase está na coletânea Atatürk'ün Söylev ve Demeçleri (Discursos e Declarações de Atatürk), da Sociedade de História Turca.
Nas semanas seguintes, o presidente viajou pelo país com um quadro-negro, dando aulas do alfabeto em praças e prédios públicos. As fotos dele de giz na mão viraram cartaz da campanha.
A lei 1353, de 1/11/1928, tornou o alfabeto novo obrigatório. Os jornais trocaram de letra a partir de 1/12/1928, e repartições, placas e livros escolares tiveram prazo curto para seguir.
O censo de 1927 deu ao governo o número; a lei de 1928 trocou a ferramenta que, no diagnóstico de Ancara, travava esse número. |
Em 1/1/1929 abriram as Millet Mektepleri (Escolas da Nação), cursos gratuitos para adultos de 16 a 45 anos, em salas de escola, quartéis e cafés, com aulas à noite para quem trabalhava de dia.
O segundo censo, em 20/10/1935, contou 16.158.018 habitantes. A taxa de alfabetização subiu para 19,2%, segundo as tabelas da Diretoria Central de Estatística daquele ano.
A proibição de sair à rua virou regra dos censos turcos seguintes. A contagem em casa, num só dia, se repetiu de cinco em cinco anos até 1990, e outra vez em 2000.
Em 2007, a Turquia abandonou o modelo. O TÜİK, o Instituto de Estatística da Turquia, sucessor da Diretoria de 1926, passou a contar a população pelo registro nacional de endereços, sem ninguém trancado em casa.
A cronologia do que veio depois:
| 1/11/1928: lei 1353, alfabeto latino | | 1/1/1929: Escolas da Nação abrem | | 20/10/1935: segundo censo | | 2000: último censo com recolher | | 2007: censo pelo endereço |
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