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A Turquia que ficou em casa para contar 13,6 milhões

Em 28/10/1927, a República recenseia o país num só dia, com todos em casa, e descobre que só 10,6% sabem ler.

Prancheta com formulário de censo à porta de uma casa.

Turquia, 28 de outubro de 1927

▼
 

Em 28/10/1927, a Diretoria Central de Estatística de Ancara contou 13.648.270 habitantes na República da Turquia, num único dia. Nas tabelas que a própria Diretoria publicou em 1929, só 10,6% desses habitantes sabiam ler.

Um país em que nove de cada dez pessoas não liam uma linha conseguiu, entre o nascer e o pôr do sol de uma sexta-feira, encher um formulário por morador, de Edirne, na fronteira com a Grécia, até Kars, junto à União Soviética.

A conta só fechou por causa de uma ordem do governo. Naquela sexta, valia em todo o território a sokağa çıkma yasağı (proibição de sair à rua): ninguém deixava a casa até a contagem do bairro terminar.

O método resolvia o analfabetismo pelo avesso. Quem não sabia escrever não precisava preencher nada. Respondia sentado à porta, e o recenseador, funcionário público ou professor que sabia escrever, anotava nome, idade, sexo, religião, língua materna e se o morador sabia ler.

Ficar em casa também evitava a contagem dupla. Um viajante pego na estrada podia entrar na lista da aldeia de origem e outra vez na lista da cidade de destino; com o país parado, cada pessoa era anotada onde tinha dormido.

A Turquia vinha de dez anos de guerra quase sem pausa, da Guerra dos Bálcãs, em 1912, ao armistício de Mudanya, em 1922. A troca de populações com a Grécia, assinada em Lausanne em 30/1/1923, tirou cristãos ortodoxos da Anatólia e trouxe muçulmanos da Macedônia e de Creta.

Ninguém em Ancara sabia quantos cidadãos a República tinha. Os registros otomanos contavam sobretudo homens em idade de servir no exército e de pagar imposto, e as mulheres ficavam fora da maioria das listas.

Faltava ao governo o número mais básico de um Estado: quantas pessoas viviam dentro das fronteiras que o Tratado de Lausanne tinha desenhado em julho de 1923.

As páginas abaixo começam pela repartição que montou a contagem e pelo estrangeiro contratado para dirigir os números.

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I  A Primeira Página de Hoje

O belga que ensinou Ancara a contar

O Primeiro Censo Geral da República da Turquia foi preparado pela Merkezi İstatistik Dairesi (Diretoria Central de Estatística), criada em Ancara em 1926, menos de três anos depois da proclamação da República, em 29/10/1923.

Para dirigir a parte técnica, o governo contratou o belga Camille Jacquart, estatístico de carreira do serviço público da Bélgica. Ele chegou a Ancara em 1926 como conselheiro e assumiu a direção da repartição nova.

A Diretoria tinha pouco tempo e quase nenhum arquivo confiável. A saída foi dividir o país em setores pequenos o bastante para um recenseador percorrer cada um a pé, de manhã à noite.

Os recenseadores vieram do funcionalismo: professores, escriturários, oficiais do exército. Num país com 10,6% de alfabetizados, a lista de quem segurava a caneta era curta, e a Diretoria convocou quase todos.

Os formulários foram impressos em alfabeto árabe, a escrita oficial do turco otomano em 1927. Cada folha levava as perguntas que o recenseador lia ao morador e anotava à mão.

Num país em que quase ninguém lia, o censo funcionou porque a leitura ficou concentrada numa pessoa por porta: o recenseador.

A pergunta sobre leitura pedia uma declaração. Não há registro de teste: o recenseador não pedia ao morador que lesse uma frase, e anotava sim ou não conforme a resposta.

O resultado saiu em 1928: 13.648.270 habitantes, sendo 7.084.391 mulheres e 6.563.879 homens. As mulheres eram maioria por mais de 520 mil pessoas, a conta das guerras que tinham levado os homens.

Istambul, que deixara de ser capital em 13/10/1923, seguia como a maior cidade, com cerca de 690 mil moradores. Ancara, a capital nova, tinha perto de 75 mil.

A diferença entre os sexos também aparecia na leitura. Entre os homens, 17,4% declararam saber ler; entre as mulheres, 4,6%, pelas tabelas da Diretoria Central de Estatística publicadas em 1929.

A maior parte da população vivia no campo. Era ali, longe das escolas das cidades, que se concentravam os 89,4% que responderam não à pergunta da leitura.

A cronologia da contagem:

29/10/1923: proclamação da República
1926: criação da Diretoria
28/10/1927: dia do recenseamento
1928: 13.648.270 habitantes
1929: tabelas de alfabetização
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

As letras trocadas 13 meses depois

O número que mais pesou em Ancara foi o da leitura. O governo de Mustafa Kemal, presidente da República desde 1923, passou a citar o atraso na alfabetização como prova de que a escrita árabe atrapalhava o turco.

O argumento era técnico. O turco tem oito vogais, e a escrita árabe registra poucas delas; a mesma sequência de letras podia ser lida de vários modos, e aprender a ler levava anos.

Em junho de 1928, uma comissão de linguistas começou a montar um alfabeto latino adaptado ao turco, com letras como ç, ş, ğ, ı, ö e ü, uma para cada som da língua falada.

Em 9/8/1928, num discurso no parque de Sarayburnu, em Istambul, Mustafa Kemal (que receberia o sobrenome Atatürk em 1934) apresentou as letras ao público: “Nossa língua harmoniosa e rica vai se mostrar com as novas letras turcas”. A frase está na coletânea Atatürk'ün Söylev ve Demeçleri (Discursos e Declarações de Atatürk), da Sociedade de História Turca.

Nas semanas seguintes, o presidente viajou pelo país com um quadro-negro, dando aulas do alfabeto em praças e prédios públicos. As fotos dele de giz na mão viraram cartaz da campanha.

A lei 1353, de 1/11/1928, tornou o alfabeto novo obrigatório. Os jornais trocaram de letra a partir de 1/12/1928, e repartições, placas e livros escolares tiveram prazo curto para seguir.

O censo de 1927 deu ao governo o número; a lei de 1928 trocou a ferramenta que, no diagnóstico de Ancara, travava esse número.

Em 1/1/1929 abriram as Millet Mektepleri (Escolas da Nação), cursos gratuitos para adultos de 16 a 45 anos, em salas de escola, quartéis e cafés, com aulas à noite para quem trabalhava de dia.

O segundo censo, em 20/10/1935, contou 16.158.018 habitantes. A taxa de alfabetização subiu para 19,2%, segundo as tabelas da Diretoria Central de Estatística daquele ano.

A proibição de sair à rua virou regra dos censos turcos seguintes. A contagem em casa, num só dia, se repetiu de cinco em cinco anos até 1990, e outra vez em 2000.

Em 2007, a Turquia abandonou o modelo. O TÜİK, o Instituto de Estatística da Turquia, sucessor da Diretoria de 1926, passou a contar a população pelo registro nacional de endereços, sem ninguém trancado em casa.

A cronologia do que veio depois:

1/11/1928: lei 1353, alfabeto latino
1/1/1929: Escolas da Nação abrem
20/10/1935: segundo censo
2000: último censo com recolher
2007: censo pelo endereço
 

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III  O Anúncio da Página 3

A sexta-feira antes da festa da República

A página: na semana do recenseamento, os jornais de Istambul, entre eles o Cumhuriyet, fundado em 1924 por Yunus Nadi, divulgaram as regras: ficar em casa e responder ao recenseador. A contagem caiu na véspera do quarto aniversário da República, comemorado em 29 de outubro.

A coluna: o assunto político de outubro era o Nutuk (O Discurso), que Mustafa Kemal leu ao congresso do Partido Republicano do Povo, em Ancara, de 15 a 20/10/1927, em cerca de 36 horas distribuídas por seis dias. O texto narrava a guerra de independência pela versão do presidente.

O anúncio: o aparelho novo da época era o rádio. A primeira emissora de Istambul começou a transmitir em 6/5/1927, e o comércio da cidade oferecia receptores a quem pudesse pagar, numa língua impressa em letra árabe.

Todos os textos e anúncios daquela semana saíram no alfabeto que a lei 1353 aposentaria um ano depois. Hoje, quem consulta os jornais turcos de 1927 precisa saber turco otomano, ensinado como disciplina à parte nas universidades do país.

A festa de 29/10/1927 foi a última com a República sem número oficial de cidadãos. Os resultados preliminares saíram nos meses seguintes, e o total de 13,6 milhões entrou nos discursos de Ancara em 1928.

O que não se sabe é quantas pessoas ficaram fora da conta. A Diretoria não publicou estimativa de omissão para 1927, e pastores nômades das montanhas do leste e moradores de aldeias isoladas dependiam de o recenseador chegar até eles antes do anoitecer.

Também não há registro de quantos recenseadores trabalharam naquela sexta. As fontes publicadas falam em milhares de funcionários, sem cifra oficial da Diretoria.

A ficha da última página:

Data: 28/10/1927
População: 13.648.270
Mulheres: 7.084.391
Homens: 6.563.879
Sabiam ler: 10,6%
Órgão: Diretoria de Estatística

“Você ficaria um dia inteiro em casa para o seu país saber quantos vocês são?”

O centenário do censo cai em 28/10/2027, uma quinta-feira. Nessa data, reconfira as tabelas de 1927 na seção de estatísticas históricas do TÜİK, em data.tuik.gov.tr, e o texto da lei 1353 no portal da Grande Assembleia Nacional da Turquia, em tbmm.gov.tr.

 
 
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No censo de 1927, quem a Diretoria Central de Estatística contratou pra dirigir a parte técnica da contagem?

AUm estatístico francês enviado por Paris
BUm general turco aposentado
CUm estatístico belga chamado Camille Jacquart
DUm professor otomano formado em Istambul

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