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A Última Manhã de Giverny

Em 5 de dezembro de 1926, Claude Monet deixa ao Estado francês painéis de ninfeias que a França ainda não tinha montado.

Ateliê de pintor vazio com painéis de grandes dimensões encostados na parede.

Ateliê das grandes telas em Giverny, 1926

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O ato de doação que Claude Monet assinou em 12 de abril de 1922 prometia ao Estado francês a decoração das Nymphéas (ninfeias, as flores de água do tanque que ele mesmo cavou em Giverny), montada hoje em oito composições distribuídas por duas salas ovais, segundo a descrição publicada pelo Musée de l'Orangerie. Em 5 de dezembro de 1926, quando o pintor completou 86 anos de vida e a última manhã na casa de Giverny, nenhuma dessas duas salas existia pronta: a cronologia do próprio museu registra a abertura ao público em 17 de maio de 1927.

Um conjunto pintado ao longo de mais de uma década e uma sala pública que nunca recebeu o autor formam um par difícil de encaixar na mesma ficha. A França tinha o documento assinado, o prédio escolhido ao lado da praça da Concórdia e as telas empilhadas num ateliê da Normandia. Faltava a obra de adaptação do interior, e ela só começou depois que o ateliê ficou vazio.

Claude Oscar Monet nasceu em Paris em 14 de novembro de 1840 e cresceu em Le Havre, no litoral da Normandia. A tela Impression, soleil levant, exposta em 1874 na primeira mostra do grupo que a crítica apelidou de impressionista, saiu do porto daquela cidade. Ele alugou a casa de Giverny em 1883, comprou a propriedade em 1890 e, em 1893, obteve autorização para desviar um braço do rio Epte, o Ru, e formar o tanque de água que virou assunto de quase todo o trabalho dos trinta anos seguintes.

A última década de trabalho foi feita com a visão em queda. O oftalmologista Charles Coutela operou a catarata do olho direito do pintor em 1923, em duas intervenções, e a correção por óculos de lente grossa veio depois de meses de cor alterada. Para as telas de dois metros de altura, um ateliê novo subiu no terreno em 1915, com claraboia e parede livre, e foi ali que os painéis ficaram guardados até o fim.

A primeira página de hoje traz a casa de Giverny em dezembro de 1926, o ateliê com os painéis encostados na parede, a ficha do imóvel e do legado, e o enterro de três dias depois no cemitério da vila.

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I  A Primeira Página de Hoje

O ateliê cheio e a sala vazia

Na manhã de domingo, 5 de dezembro de 1926, a casa de paredes cor-de-rosa e venezianas verdes de Giverny, vila de pouco mais de trezentos habitantes no departamento do Eure, na Normandia, encerrou 43 anos de rotina de trabalho de Claude Monet. Ele tinha 86 anos, sofria de uma doença pulmonar diagnosticada meses antes e passou as últimas semanas no quarto do segundo andar, com janela voltada para o jardim de flores.

Quem cuidava dele era Blanche Hoschedé-Monet, pintora, filha da segunda mulher do artista e viúva de Jean, o filho mais velho. Ela administrava a propriedade, respondia a correspondência e recebia Georges Clemenceau, chefe do governo francês entre 1917 e 1920, amigo do pintor havia mais de trinta anos e centenas de cartas.

O ateliê construído em 1915 no fundo do terreno continuava cheio naquele dezembro. Os painéis prometidos ao Estado quatro anos antes seguiam encostados nas paredes do galpão, apoiados em cavaletes de rodinhas que permitiam girar uma composição inteira de frente para a luz da claraboia. Nenhuma delas tinha saído de Giverny, porque o pintor se recusou a entregar o conjunto enquanto considerasse que havia retoque a fazer.

O atraso tinha motivo declarado em carta. Monet escreveu a Clemenceau que não queria expor trabalho que não o satisfazia, e pediu, em 1924, a suspensão da doação para recomeçar painéis inteiros. O amigo respondeu cobrando o compromisso com o Estado, e a correspondência entre 1924 e 1926 registra a negociação.

A ficha da propriedade e do legado:

Data: domingo, 5 de dezembro de 1926
Local: casa do pintor em Giverny, departamento do Eure, na Normandia
Idade: 86 anos, nascido em Paris em 14 de novembro de 1840
Doação ao Estado francês: ato assinado em 12 de abril de 1922
Destino dos painéis: prédio da Orangerie das Tulherias, em Paris
Ateliê das grandes telas: construído no terreno de Giverny em 1915
Tanque de água: formado em 1893 com desvio do Ru, braço do rio Epte
Herdeiro da propriedade: Michel Monet, o filho mais novo

O enterro aconteceu em 8 de dezembro de 1926, no cemitério da igreja de Sainte-Radegonde, na própria vila, e foi o oposto de um ato de Estado. O pintor tinha pedido cerimônia simples, sem discurso oficial e sem cortejo: compareceram cerca de cinquenta pessoas, entre familiares, vizinhos, marchands e amigos pintores. Clemenceau mandou trocar o pano preto do caixão por um tecido florido de cortina da própria casa, gesto que os presentes contaram depois em memórias.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Da Orangerie fechada ao jardim com bilheteria

A entrega do conjunto virou assunto de gabinete em poucas semanas. Com o ateliê liberado, o Ministério da Instrução Pública e das Belas Artes autorizou o transporte dos painéis para Paris no começo de 1927, e o arquiteto Camille Lefèvre, responsável pelo projeto de adaptação do prédio, coordenou a montagem das duas salas ovais desenhadas para receber as composições em curva contínua.

A técnica de instalação amarrou a obra ao prédio. As telas foram fixadas na parede por marouflage (colagem de tela sobre superfície rígida com adesivo), o que tornou cada sala um ambiente único e qualquer transporte futuro uma operação de restauro. A sequência segue a ordem indicada pelo pintor em planta, com luz de claraboia e sem moldura entre um painel e o seguinte.

A abertura não produziu multidão. O público parisiense do fim da década de 1920 já tratava o impressionismo como capítulo encerrado, e as salas da Orangerie passaram vinte anos com visitação baixa e pouca menção em revista especializada.

A virada de reputação tem autor e data. O pintor e escritor André Masson chamou as duas salas de capela Sistina do impressionismo num artigo da revista Verve em 1952, e a expressão colou: a partir daquela década, a geração de pintores americanos que trabalhava em grande formato passou a citar os painéis como precedente direto, e a visitação subiu.

O que veio depois, ano a ano:

1922: assinatura do ato de doação dos painéis ao Estado francês em 12 de abril
1923: duas cirurgias de catarata no olho direito, conduzidas pelo oftalmologista Charles Coutela
1927: montagem das salas pelo arquiteto Camille Lefèvre e abertura ao público em 17 de maio
1952: artigo de André Masson na revista Verve que recoloca as salas no debate da pintura
1966: Michel Monet deixa a casa e o jardim de Giverny em legado para a Académie des Beaux-Arts
1980: abertura da casa e do jardim de Giverny à visitação, depois da restauração dirigida por Gérald Van der Kemp
1999: início da obra de restauração das salas da Orangerie, com fechamento do edifício
2006: reabertura das salas em 17 de maio, com devolução da claraboia de luz natural

A casa quase desapareceu no intervalo. Michel Monet morava em outra propriedade, o jardim ficou sem jardineiro por décadas, o tanque entupiu e o ateliê das grandes telas serviu de depósito. A recuperação na década de 1970 foi bancada sobretudo por doadores americanos reunidos pelo conservador Gérald Van der Kemp, o mesmo de Versalhes.

Painéis e jardim seguem em endereços e regimes separados. As salas ovais pertencem ao Estado francês, no jardim das Tulherias, abertas o ano inteiro; a casa e o tanque de Giverny pertencem à Académie des Beaux-Arts, são administrados pela Fondation Claude Monet e fecham no inverno.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame das tintas e do trem para Vernon

A página: a imprensa parisiense de dezembro de 1926 registrou o caso em coluna de cultura, não em manchete. Diários como Le Figaro e Le Temps e a revista ilustrada L'Illustration cobriam pintura com espaço fixo, e ao redor da nota vinha a grade de anúncios pagos que sustentava a edição.

O anúncio: os fabricantes de material de pintura disputavam o leitor de coluna de arte. A Lefranc et Cie e a Bourgeois Aîné anunciavam tubo de cor a óleo e tela preparada; a casa Sennelier, instalada no quai Voltaire desde 1887, vendia pigmento e pincel na porta da Escola de Belas Artes. O catálogo dessas marcas é o que permite reconstruir a paleta usada em Giverny, porque o pintor comprava por encomenda.

A coluna: dividiam a página os anunciantes que viviam do deslocamento e do consumo doméstico. A Compagnie des chemins de fer de l'État vendia bilhete de Paris Saint-Lazare a Vernon, estação a poucos quilômetros de Giverny. A Citroën anunciava o modelo B12, da fábrica do quai de Javel. A Michelin vendia pneu e o guia de estrada com o nome da empresa. E os fabricantes de rádio ofereciam receptor doméstico para as transmissões da estação da Torre Eiffel, no ar desde 1921.

A ficha da imprensa e do reclame francês do período, item por item:

Diários e revistas com cobertura de pinturaLe Figaro, Le Temps e L'Illustration
Fabricantes de tinta a óleo anunciantesLefranc et Cie e Bourgeois Aîné
Casa de material de pintura no quai VoltaireSennelier, instalada desde 1887
Companhia ferroviária anuncianteCompagnie des chemins de fer de l'État
Estação de desembarque para GivernyVernon, na linha de Paris Saint-Lazare
Automóvel em campanha nacionalCitroën B12, da fábrica do quai de Javel
Marca de pneu com guia de estrada próprioMichelin
Estação de radiodifusão anunciada com receptor domésticoTorre Eiffel, no ar desde 1921

O ano francês pesava sobre a página. O franco perdeu valor no primeiro semestre de 1926 e o governo de união nacional de Raymond Poincaré assumiu em julho com programa de estabilização da moeda. A nota sobre pintura doada ao Estado dividia papel com propaganda de quem precisava convencer leitor de bolso apertado.

A arte vivia do mercado dos anúncios. O marchand Paul Durand-Ruel construiu a cotação que permitia ao pintor comprar terreno, levantar ateliê e recusar prazo ao Estado. O legado público nasceu de três décadas de venda privada.

O que sobrou daquele dezembro continua acessível e datado. As salas das Nymphéas têm cronologia publicada no site do Musée de l'Orangerie, com as datas da doação e da montagem, e o calendário de visita da casa de Giverny fica no site da Fondation Claude Monet. O centenário cai em 5 de dezembro de 2026. Reconfira as duas fontes na semana anterior, a cronologia das salas no site do museu e a data de reabertura da temporada no site da fundação.

"Uma obra doada em vida pertence ao gesto de quem a entregou ou à sala que a recebeu depois?"

 
 

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AMenos de 1 ano, pintados às pressas antes da doação
BMais de 10 anos, do ateliê pronto até o transporte pós-morte em 1927
CExatos 5 anos, prazo fixado no ato de doação de 1922
DNunca saíram, cópias foram enviadas à Orangerie

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