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A última palavra de Vanzetti diante do juiz Thayer

Em 9/4/1927, em Dedham, Sacco e Vanzetti ouvem a sentença de cadeira elétrica, e Vanzetti diz ao juiz por que sofre.

Martelo de juiz sobre folhas datilografadas de um processo antigo.

Tribunal de Dedham, Massachusetts, 1927

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Em 9/4/1927, no tribunal de Dedham, em Massachusetts, o juiz Webster Thayer condenou Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti à cadeira elétrica, segundo a transcrição dos autos publicada em 1928 pela editora Henry Holt. A mesma transcrição guarda outro papel: desde novembro de 1925, um preso chamado Celestino Madeiros tinha confessado por escrito o crime pelo qual os dois iam pagar com a vida.

Uma confissão de outro homem dentro do processo e uma sentença assinada 17 meses depois dela, pelo mesmo juiz que tinha lido a confissão. Os dois registros convivem nos mesmos autos, e nenhum apagou o outro.

Sacco tinha 35 anos e trabalhava numa fábrica de calçados em Stoughton. Vanzetti tinha 38 e vendia peixe de porta em porta em Plymouth. Os dois nasceram na Itália, chegaram aos Estados Unidos em 1908 e frequentavam os mesmos grupos anarquistas, que pregavam o fim do Estado e de toda autoridade.

Naquela manhã, o escrivão perguntou a cada um se tinha algo a dizer antes da sentença. Sacco falou pouco, num inglês que ele mesmo chamou de fraco. Vanzetti falou longamente, de pé, olhando para o juiz.

Ele não pediu clemência. Disse que era inocente, que nunca tinha roubado nem tirado a vida de ninguém, e que sofria por ser italiano e por ser radical, palavra que nos anos 1920 cobria anarquistas, socialistas e comunistas.

Thayer ouviu até o fim, leu a sentença e marcou a execução para a semana de 10/7/1927. A data ainda mudaria duas vezes. A sentença ficou.

O processo já tinha seis anos e virado assunto em jornais de três continentes. Para a promotoria, era um caso de assalto com dois mortos. Para a defesa, era o julgamento de duas ideias políticas e de um sotaque.

As páginas abaixo começam pelo assalto de 15/4/1920 e pelas provas que levaram dois imigrantes italianos ao banco dos réus.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

Um assalto, duas pistolas, um sotaque

O crime que levou Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti à cadeira elétrica aconteceu em 15/4/1920, em South Braintree, cidade industrial perto de Boston. O pagador Frederick Parmenter e o guarda Alessandro Berardelli levavam pela rua principal o dinheiro dos salários da fábrica de calçados Slater & Morrill.

Dois homens armados atiraram nos dois e fugiram num carro com cerca de US$ 15.700, valor que consta da transcrição dos autos. Parmenter e Berardelli não sobreviveram aos ferimentos.

Testemunhas descreveram os atiradores como estrangeiros morenos. A descrição servia para milhares de imigrantes italianos que trabalhavam nas fábricas da região.

Em 5/5/1920, Sacco e Vanzetti foram presos num bonde em Brockton. A polícia esperava quem fosse buscar um carro suspeito numa oficina, e os dois estavam no grupo que apareceu por lá.

Os dois andavam armados. Sacco levava uma pistola Colt calibre 32 (o diâmetro da bala, em centésimos de polegada), e Vanzetti, um revólver Harrington & Richardson. No interrogatório, mentiram sobre as armas, sobre os amigos e sobre o que faziam naquela noite.

A promotoria chamou as mentiras de consciência de culpa, a tese de que quem mente depois de preso sabe do crime. A defesa respondeu que mentiram por medo: dois dias antes, o anarquista Andrea Salsedo tinha caído do 14º andar de um prédio em Nova York, onde estava detido por agentes federais.

Era o tempo do Red Scare (o Pânico Vermelho), a onda de perseguição a radicais que seguiu a Revolução Russa e as bombas anarquistas de 1919. O Departamento de Justiça prendia e deportava estrangeiros suspeitos aos milhares.

Vanzetti foi julgado antes, sozinho, por uma tentativa de assalto em Bridgewater na véspera do Natal de 1919. Thayer presidiu esse primeiro julgamento, e Vanzetti saiu condenado a uma pena de 12 a 15 anos de prisão.

O julgamento dos dois pelo crime de South Braintree começou em 31/5/1921, em Dedham. Em 14/7/1921, o júri declarou Sacco e Vanzetti culpados de homicídio em primeiro grau, o crime premeditado, o mais grave da lei estadual.

O júri levou poucas horas para decidir; a defesa passou os seis anos seguintes tentando desfazer a decisão.

O centro da acusação era a bala III, um dos projéteis tirados do corpo de Berardelli. Os peritos da promotoria disseram que ela era compatível com a pistola de Sacco.

Um desses peritos, o capitão William Proctor, da polícia estadual, assinou em 1923 uma declaração dizendo que nunca tinha afirmado que a bala saíra daquela arma. A pergunta da promotoria, segundo ele, tinha sido montada para soar como certeza.

A ficha do processo:

Crime: 15/4/1920, South Braintree
Vítimas: Frederick Parmenter e Alessandro Berardelli
Prisão: 5/5/1920, Brockton
Condenação pelo júri: 14/7/1921, Dedham
Sentença de morte: 9/4/1927, juiz Webster Thayer
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A confissão que ficou na gaveta

Entre 1921 e 1927, a defesa apresentou uma série de moções, os pedidos formais de novo julgamento. Pela lei de Massachusetts, quem decidia cada pedido era o mesmo juiz que tinha presidido o caso. Thayer negou todos.

O pedido mais forte nasceu dentro da cadeia de Dedham. Em 18/11/1925, Celestino Madeiros, preso à espera de recurso por outro homicídio, mandou um bilhete a Sacco pelas mãos de um carcereiro:

“Confesso por meio desta que estive no crime da fábrica de sapatos de South Braintree, e Sacco e Vanzetti não estavam no dito crime.”

Celestino Madeiros, bilhete a Nicola Sacco, 1925

Madeiros apontou como autores a quadrilha dos irmãos Morelli, de Providence, que roubava cargas de fábricas de calçados. O advogado William Thompson levantou provas de que o grupo tinha carro, armas e motivo compatíveis com o assalto.

Thayer rejeitou o pedido em outubro de 1926. Escreveu que a confissão de um homem já condenado, sem nada a perder, não merecia crédito.

Em março de 1927, o professor de direito Felix Frankfurter, da Universidade Harvard, publicou na revista The Atlantic Monthly um longo artigo que desmontava a acusação peça por peça. O texto virou livro no mesmo ano e circulou entre advogados do país inteiro.

Depois da sentença, o governador Alvan T. Fuller nomeou uma comissão presidida por A. Lawrence Lowell, reitor de Harvard, para rever o processo. O relatório saiu em 27/7/1927 e concluiu que o julgamento tinha sido justo. Fuller negou clemência em 3/8/1927.

Sacco e Vanzetti foram executados na prisão estadual de Charlestown pouco depois da meia-noite de 23/8/1927. Madeiros foi executado minutos antes, na mesma madrugada, pelo crime que o levara à cadeia.

O homem que confessou o assalto e os dois que ele inocentou entraram na mesma sala, na mesma noite.

Cinquenta anos depois, em 23/8/1977, o governador Michael Dukakis assinou uma proclamação dizendo que os dois não tiveram julgamento justo. O texto não declarou inocência e não concedeu perdão: só retirou o estigma dos nomes.

Testes balísticos refeitos em 1961 e em 1983 indicaram que a bala III saiu, sim, da pistola de Sacco. A dúvida que ficou tem outro endereço.

O que não se sabe, e talvez nunca se saiba, é se a bala examinada em 1983 é a mesma tirada do corpo de Berardelli em 1920. O registro de guarda das provas tem lacunas, e a defesa acusou já nos anos 1920 a troca de projéteis. Não há documento que confirme nem que descarte a troca.

A cronologia depois da sentença:

27/7/1927: relatório da comissão Lowell
3/8/1927: Fuller nega clemência
23/8/1927: execução em Charlestown
1961: primeiro teste balístico moderno
23/8/1977: proclamação de Dukakis
1983: segundo teste balístico
 

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III  O Anúncio da Página 3

A frase que os jornais imprimiram

A página: em abril de 1927, a sentença saiu na primeira página dos jornais de Boston e Nova York. Meses antes, o Boston Herald tinha publicado o editorial “We Submit” (Nós Ponderamos), pedindo novo julgamento, e o texto ganhou o Pulitzer, o prêmio de jornalismo americano, de 1927.

O anúncio: fora dos Estados Unidos, o caso virou causa operária. Houve comícios em Paris, Londres e Roma, e greves e passeatas em Buenos Aires e Montevidéu nas semanas que antecederam a execução.

A coluna: os jornais reproduziram trechos da fala de Vanzetti ao tribunal, a partir da transcrição oficial. O trecho mais citado é este:

“Estou sofrendo porque sou um radical, e de fato sou um radical; sofri porque era italiano, e de fato sou italiano.”

Bartolomeo Vanzetti, declaração ao tribunal de Dedham, 1927

Na mesma fala, Vanzetti disse que não desejaria a um cão ou a uma cobra o que tinha sofrido por crimes de que não era culpado. E acrescentou que, se pudesse nascer duas vezes, viveria de novo para fazer o que fez.

Sacco, mais curto, disse ao juiz que nunca tinha visto, ouvido ou lido em livro nenhum uma crueldade igual à daquele julgamento. Tinha deixado a mulher, Rosina, e dois filhos pequenos fora da prisão.

A fala de Vanzetti entrou em antologias e foi lida em escolas americanas como exemplo de defesa sem advogado. Thayer nunca respondeu a ela publicamente.

A cultura transformou o caso em obra. O romancista Upton Sinclair publicou Boston em 1928. O cantor Woody Guthrie gravou as Baladas de Sacco e Vanzetti, lançadas em disco em 1960. O diretor Giuliano Montaldo filmou Sacco e Vanzetti em 1971, com a canção Here's to You (Um Brinde a Vocês), de Ennio Morricone e Joan Baez.

Thayer seguiu no cargo até morrer, em 1933. Sua casa em Worcester sofreu um atentado a bomba em 1932, sem feridos; os autores nunca foram identificados.

A ficha da última página:

Juiz: Webster Thayer
Tribunal: Dedham, condado de Norfolk, Massachusetts
Sentença: 9/4/1927
Execução: 23/8/1927, Charlestown
Proclamação de Dukakis: 23/8/1977

“Se você tivesse um minuto diante do juiz que acabou de condenar você, gastaria esse minuto pedindo perdão ou explicando quem você é?”

O centenário da sentença cai em 9/4/2027, uma sexta-feira. Nessa data, reconfira a fala de Vanzetti e as datas do processo na coleção Sacco-Vanzetti da Biblioteca Pública de Boston, no site bpl.org.

 
 
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Em novembro de 1925, o preso Celestino Madeiros escreveu um bilhete a Sacco. O que ele confessou nesse bilhete?

AQue Sacco e Vanzetti estavam com ele no assalto da fábrica de sapatos
BQue nunca tinha participado de nenhum assalto a fábrica de calçados
CQue estivera no crime da fábrica de sapatos de South Braintree e que Sacco e Vanzetti não estavam nele
DQue os irmãos Morelli inventaram toda a história do assalto

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