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Alexander Fleming acha o mofo na placa em 3/9/1928

A penicilina passa 13 anos numa revista científica até o policial Albert Alexander receber a primeira dose em Oxford.

Uma placa de Petri com mofo verde sobre uma bancada.

St. Mary's Hospital, Londres, 1928

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Em 1929, Alexander Fleming publicou no British Journal of Experimental Pathology que um mofo desfazia colônias de estafilococos numa placa de vidro. O primeiro paciente tratado com o extrato desse mofo só recebeu a dose em 12/2/1941, em Oxford, e o laboratório de Fleming não teve parte nela.

A descoberta começou com uma bancada desarrumada. Em 3/9/1928, Fleming voltou das férias passadas com a família em Suffolk, no leste da Inglaterra, e foi direto ao laboratório do St. Mary's Hospital, no bairro de Paddington, em Londres.

Antes de viajar, ele tinha empilhado placas de Petri (pratinhos de vidro com gelatina nutritiva onde se cultivam bactérias) com culturas de Staphylococcus aureus, a bactéria das infecções de pele e de feridas. As placas passaram as semanas de ausência fora da estufa.

Ao separar o material para lavar, Fleming recebeu a visita de Merlin Pryce, seu antigo assistente. Mostrou a ele uma placa estranha: perto de uma mancha de mofo esverdeado, as colônias de estafilococo estavam transparentes, desmanchadas, e havia um anel limpo em torno do fungo.

O mofo era um Penicillium (gênero de fungos do bolor de pão e de queijo). Fleming raspou um pedaço, cultivou em caldo e viu que o líquido filtrado também matava bactérias, mesmo bem diluído.

Em 7/3/1929, deu à substância o nome de penicilina. Testou o caldo em coelhos e camundongos sadios, sem dano aparente, e o usou como antisséptico local em poucos pacientes. Não conseguiu isolar a droga pura nem mantê-la ativa por mais de alguns dias.

Os assistentes Stuart Craddock e Frederick Ridley tentaram concentrar o extrato e pararam diante da instabilidade da substância. A penicilina virou ferramenta de bancada: Fleming a usava para separar, nas culturas, as bactérias que ela não atingia.

A descoberta ficou guardada numa revista técnica, conhecida por poucos bacteriologistas, enquanto infecções comuns seguiam sem tratamento nos hospitais de Londres.

A primeira página volta à placa e ao acaso que a produziu, um acaso que dependeu do tempo em Londres naquele verão.

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I  A Primeira Página de Hoje

A placa fora da estufa

Alexander Fleming, médico escocês nascido em 1881 em Lochfield, no condado de Ayrshire, trabalhava desde 1906 no departamento de inoculação do St. Mary's Hospital, chefiado por Almroth Wright.

Fleming já tinha nome na casa. Em 1922, descobrira a lisozima (enzima das lágrimas e da saliva que dissolve algumas bactérias), achada quando uma gota do próprio nariz, durante um resfriado, caiu numa cultura.

Em 1928, ele preparava um capítulo sobre estafilococos para o System of Bacteriology (Sistema de Bacteriologia), obra de referência do Medical Research Council britânico. Por causa desse capítulo, mantinha dezenas de culturas em placas na bancada.

O esporo do fungo provavelmente subiu do andar de baixo. Ali, o micologista (especialista em fungos) irlandês Charles La Touche cultivava bolores para um estudo sobre asma, e a hipótese mais aceita aponta a escada do prédio como caminho.

O acaso tinha uma segunda parte. O bacteriologista Ronald Hare, colega de Fleming no St. Mary's, reconstruiu a cena no livro The Birth of Penicillin (O Nascimento da Penicilina), de 1970.

Hare consultou os registros meteorológicos de Londres e achou um período frio no fim de julho de 1928, seguido de calor. Depois, repetiu o experimento em laboratório até reproduzir a placa.

A sequência explica a mancha: o fungo cresce bem no frio, e o estafilococo, no calor. O mofo se instalou primeiro, soltou penicilina na gelatina, e as bactérias que vieram depois não conseguiram crescer em volta.

A placa só existiu porque o fungo chegou antes da bactéria, e o verão frio de Londres deu essa vantagem a ele.

Fleming nunca escondeu o peso da sorte. O biógrafo André Maurois registrou a frase dele em A Vida de Sir Alexander Fleming, de 1959:

“Às vezes se encontra o que não se procura.”

O artigo saiu em 1929, com o título On the antibacterial action of cultures of a penicillium (Sobre a ação antibacteriana de culturas de um penicillium). Fleming sugeria usar a substância como antisséptico em feridas e não falava em injetá-la no sangue.

O fungo foi classificado na época como Penicillium rubrum e depois como Penicillium notatum. Em 2011, o micologista holandês Jos Houbraken analisou o DNA da cepa guardada e a reclassificou como Penicillium rubens.

A cronologia da descoberta:

1922: Lisozima descoberta
3/9/1928: Placa com mofo
7/3/1929: Nome penicilina
1929: Artigo publicado
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Treze anos até Oxford

Durante uma década, o artigo de 1929 teve poucos leitores. Fleming mantinha o fungo vivo e mandava amostras a outros laboratórios, mas ninguém extraía a substância pura.

O químico Harold Raistrick, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, tentou em 1932. Também parou: a penicilina se desfazia durante a extração.

Em 1935, o alemão Gerhard Domagk, da Bayer, mostrou que o Prontosil, uma sulfa (classe de remédios sintéticos contra bactérias), curava infecções por estreptococo. A ideia de um remédio injetável contra bactérias ganhou crédito entre os médicos.

Em 1939, o australiano Howard Florey, chefe da Sir William Dunn School of Pathology, em Oxford, montou um estudo sobre substâncias antibacterianas. O bioquímico Ernst Chain, judeu alemão refugiado na Inglaterra, achou o artigo de Fleming numa revisão da literatura.

O bioquímico Norman Heatley resolveu a extração. Criou um método de passar a penicilina para um solvente e devolvê-la à água, e cultivou o fungo em comadres de hospital, latões de leite e banheiras.

Em 25/5/1940, a equipe infectou oito camundongos com estreptococos e tratou quatro deles. Os quatro tratados sobreviveram; os outros quatro não passaram da noite. O resultado saiu na revista The Lancet ainda em 1940.

O primeiro paciente humano foi Albert Alexander, policial de Oxford, com uma infecção grave no rosto, atribuída na versão mais contada a um arranhão de espinho de roseira. Em 12/2/1941, recebeu a primeira dose na Radcliffe Infirmary.

Em poucos dias a febre baixou e o rosto desinchou. O estoque, porém, era mínimo: a equipe recuperava penicilina da urina do paciente para aplicar outra vez.

O primeiro paciente melhorou com a penicilina e piorou quando ela acabou.

Sem droga para continuar o tratamento, a infecção voltou. Albert Alexander não resistiu e faleceu em 15/3/1941.

A equipe passou a tratar crianças, que precisavam de doses menores, e os casos seguintes terminaram em cura. Em 1941, Florey e Heatley voaram aos Estados Unidos para buscar fábrica.

Em Peoria, no estado de Illinois, o laboratório do Departamento de Agricultura americano trocou o meio de cultura por água de maceração de milho e aumentou a produção. Em 1943, a técnica Mary Hunt levou ao laboratório um melão mofado da feira, com uma cepa ainda mais produtiva.

Em 1945, Fleming, Florey e Chain dividiram o Prêmio Nobel de Medicina. Heatley, o homem da extração, ficou fora do prêmio.

A cronologia depois da placa:

1932: Raistrick desiste
25/5/1940: Teste em camundongos
12/2/1941: Albert Alexander tratado
1943: Melão de Peoria
1945: Nobel de Medicina
 

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III  O Anúncio da Página 3

A carta ao Times

A página: no fim de agosto de 1942, o jornal londrino The Times publicou um editorial sobre a penicilina sem nomear nenhum cientista. A droga já salvava pacientes, e o texto falava da descoberta como obra anônima.

A coluna: Almroth Wright, chefe de Fleming no St. Mary's, mandou uma carta ao jornal. Pediu o crédito para Fleming com a expressão latina palmam qui meruit ferat (leve a palma quem a mereceu).

O anúncio: o químico Robert Robinson, de Oxford, respondeu na página de cartas em favor de Florey. A imprensa, porém, já corria para o St. Mary's, onde Fleming recebia repórteres; Florey recusava entrevistas.

O resultado se vê até hoje nos livros escolares: a placa de 1928 ficou com a fama, e a equipe de Oxford, com o trabalho dos treze anos seguintes.

Fleming usou a fama para um alerta. Na conferência do Nobel, em 11/12/1945, falou do risco de uso errado da droga, numa frase de Penicillin (Penicilina), o texto da palestra:

“Não é difícil tornar micróbios resistentes à penicilina no laboratório, expondo-os a concentrações insuficientes para matá-los.”

Fleming conservou a placa original seca com vapor de formol. Não há foto colorida dela tirada em 3/9/1928; a aparência do primeiro dia se conhece pelas imagens em preto e branco do artigo de 1929.

Por que Fleming não testou o caldo num animal já infectado continua sem resposta documentada. Ele nunca explicou por escrito, e as anotações de laboratório de 1929 não registram esse experimento.

O laboratório de Paddington foi remontado com os móveis da época e abriu como museu em 1993, no prédio original do St. Mary's.

A ficha da última página:

Descoberta: 3/9/1928
Lugar: St. Mary's, Londres
Fungo: Penicillium rubens
Primeiro paciente: Albert Alexander
Nobel: 1945

“Quantos remédios esperam numa revista científica por alguém que saiba fabricá-los?”

O centenário da placa cai em 3/9/2028, um domingo: nesse dia, reconfira a data e a história no Alexander Fleming Laboratory Museum, no St. Mary's Hospital, em Praed Street, Londres (imperial.nhs.uk).

 
 
Quiz da edição

Quanto tempo passou entre Fleming achar o mofo na placa, em 1928, e a primeira dose de penicilina num paciente, em 1941?

A8 anos
B13 anos
C20 anos
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