|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O Almoço de Thoiry
Em 17 de setembro de 1926, Briand e Stresemann almoçam sozinhos numa estalagem do Ain e esboçam a saída francesa da Renânia.
|
Estalagem em Thoiry, setembro de 1926
|
| ▼ |
| |
|
A Alemanha tomou assento permanente no Conselho da Sociedade das Nações em 10 de setembro de 1926, por voto da Assembleia reunida em Genebra, conforme as atas oficiais do organismo guardadas no arquivo da Sociedade das Nações, hoje sob custódia da Biblioteca das Nações Unidas em Genebra. Uma semana depois daquela votação, soldados franceses e belgas continuavam aquartelados nas zonas de Coblença e de Mainz, na margem esquerda do Reno, ocupação escrita no artigo 428 do Tratado de Versalhes e prevista para durar até 1935 pelo próprio texto assinado em 1919.
Um país recém-admitido à mesa principal da diplomacia europeia e um exército estrangeiro instalado em duas províncias desse mesmo país cabem no mesmo mês do calendário. Os dois registros estão documentados, datados e nenhum deles anula o outro.
Aristide Briand, ministro francês dos Negócios Estrangeiros e onze vezes chefe de governo, tinha 64 anos e vinha de assinar os tratados de Locarno em outubro de 1925. Gustav Stresemann, ministro alemão do Exterior desde novembro de 1923 e chanceler por cem dias naquele mesmo ano, tinha 48 e carregava uma bancada nacionalista em casa que chamava Locarno de rendição. Os dois haviam acabado de discursar na Assembleia de Genebra e cada um precisava levar para casa algo que a própria Assembleia não entregava.
Thoiry, aldeia do departamento do Ain, em território francês, fica a cerca de quinze quilômetros de Genebra, do outro lado da fronteira, no sopé do Jura. Uma estalagem de província servia almoço a viajantes e a caçadores da região. Nenhum dos dois ministros levou secretário, estenógrafo ou intérprete para a sala, e a conversa entre eles correu em francês, sem tradução e sem testemunha de governo.
A primeira página de hoje traz as três horas de mesa, o que Briand ofereceu, o que Stresemann propôs pagar e o único papel que sobrou do encontro.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Primeira Página de Hoje
Três horas de mesa a portas fechadas
|
|
Na sexta-feira, 17 de setembro de 1926, os dois ministros deixaram Genebra em automóveis separados, cruzaram a fronteira francesa e almoçaram sozinhos numa estalagem de Thoiry por cerca de três horas. A escolha da aldeia resolvia um problema prático: uma conversa em solo francês, longe dos corredores da Sociedade das Nações e dos jornalistas que cobriam a Assembleia.
Briand pôs na mesa a antecipação do calendário de Versalhes. A França retiraria as tropas das zonas de Coblença e de Mainz antes do prazo de 1935, devolveria a bacia do Sarre com as minas de carvão antes do plebiscito marcado para o mesmo ano e encerraria a comissão militar aliada que inspecionava o desarmamento alemão.
Stresemann respondeu com dinheiro. A Alemanha anteciparia receita de reparações vendendo no mercado os títulos da Reichsbahn, a ferrovia estatal alemã, criados pelo Plano Dawes de 1924, operação estimada por ele em cerca de 1,5 bilhão de marcos, e pagaria à França algo próximo de 300 milhões de marcos pelas minas do Sarre. Os números aparecem no memorando que o próprio ministro ditou depois do almoço, publicado nos papéis dele sob o título Vermächtnis (Legado), organizado por Henry Bernhard em Berlim, entre 1932 e 1933. |
O desenho servia aos dois governos por motivos opostos. Paris precisava de divisas com urgência, porque o franco despencava desde 1925 e Raymond Poincaré assumira a chefia do governo em 23 de julho de 1926 prometendo salvar a moeda. Berlim precisava de território livre de tropas para mostrar ao eleitor que a política de acordo com a França rendia resultado.
| | “Arrière les canons, arrière les mitrailleuses, arrière les voiles de deuil.” (Para trás os canhões, para trás as metralhadoras, para trás os véus de luto.) Aristide Briand, discurso na Assembleia da Sociedade das Nações, Genebra, 10 de setembro de 1926 |
A ficha do encontro:
| Dia: sexta-feira, 17 de setembro de 1926 | | Lugar: estalagem na aldeia de Thoiry, departamento do Ain, França | | Distância até Genebra: cerca de quinze quilômetros | | Presentes na sala: dois, sem secretário e sem intérprete | | Idioma da conversa: francês | | Duração aproximada: três horas | | Oferta francesa: saída antecipada das zonas de Coblença e Mainz, devolução do Sarre, fim da comissão militar de controle | | Contrapartida alemã: venda antecipada dos títulos da Reichsbahn, cerca de 1,5 bilhão de marcos, mais cerca de 300 milhões pelas minas do Sarre | | Documento produzido: nenhum texto assinado, apenas o memorando particular de Stresemann |
|
Os dois voltaram a Genebra na mesma tarde. Nenhum deles havia submetido a proposta ao próprio conselho de ministros antes de negociá-la, e a ordem invertida cobrou o preço nas semanas seguintes.
|
|
|
|
|
II O Que Aconteceu Depois
O franco se recupera e o acerto sai da mesa
|
O franco francês parou de cair antes do fim do ano. O governo Poincaré cortou despesa, criou impostos novos e devolveu confiança ao mercado de Paris, e a cotação da moeda se firmou em dezembro de 1926 sem precisar de um só marco alemão. Com a moeda de pé, a pressa francesa por divisas alemãs evaporou, e com ela o argumento que sustentava o acerto da estalagem. |
A operação financeira também esbarrou em Nova York. Seymour Parker Gilbert, americano nomeado agente-geral para as reparações pelo Plano Dawes, considerava prematuro jogar no mercado os títulos da ferrovia alemã. Sem o aval dele e sem banco americano disposto a subscrever, o dinheiro prometido por Stresemann não tinha de onde sair.
A oposição interna trabalhou nos dois países. Em Paris, L'Écho de Paris e L'Action française acusaram Briand de vender a segurança do Reno a prestação. Em Berlim, a imprensa de Alfred Hugenberg, dono do grupo editorial Scherl e da agência Telegraphen-Union, atacou Stresemann por reconhecer dívida de guerra em troca de promessa francesa.
Briand e Stresemann voltaram a se encontrar em Genebra em 3 de dezembro de 1926, e o francês avisou que a parte financeira não passaria. O que sobrou foi consolo administrativo: a redução dos efetivos de ocupação anunciada em novembro de 1926 e a dissolução da Comissão Militar Interaliada de Controle em 31 de janeiro de 1927.
O que veio depois, ano a ano:
| 1926: almoço de Thoiry em setembro, reencontro de Genebra em dezembro, acerto financeiro descartado | | 1927: a comissão militar aliada de controle fecha as portas em 31 de janeiro | | 1927: o Comitê Nobel norueguês anuncia o prêmio da paz de 1926 para Briand e Stresemann | | 1928: Briand e o secretário de Estado americano Frank Kellogg assinam em Paris, em 27 de agosto, o pacto de renúncia à guerra | | 1929: o Plano Young substitui o Dawes e fixa novo calendário de reparações | | 1929: Stresemann deixa a cena política em 3 de outubro, aos 51 anos, três semanas antes da quebra da bolsa de Nova York | | 1930: a última tropa francesa deixa a margem esquerda do Reno em 30 de junho, cinco anos antes do prazo de Versalhes | | 1935: o plebiscito do Sarre, em 13 de janeiro, devolve o território à Alemanha por 90,7% dos votos apurados pela comissão da Sociedade das Nações |
|
Convém dizer com todas as letras o que não se sabe. Não existe ata, tratado nem minuta assinada em Thoiry, e o relato detalhado do que Briand prometeu vem de uma fonte só, o memorando particular de Stresemann. Historiadores dos arquivos franceses apontam que Briand nunca registrou por escrito concessão equivalente, e quanto o francês de fato se comprometeu segue em aberto porque a outra metade da conversa nunca foi anotada.
A saída antecipada da Renânia acabou acontecendo quatro anos depois, por outro caminho: as conferências de Haia de 1929 e 1930, em torno do Plano Young, com muitos governos na sala e texto assinado. O Sarre voltou pelo plebiscito previsto no tratado, no prazo original.
|
| |
|