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ED 009

As 2h40 no Número 17 de Bruton Street

Em 21 de abril de 1926, um ministro do governo britânico atravessa a madrugada numa casa de Mayfair para certificar um nascimento por costume.

Um relógio de mesa de latão marcando duas e quarenta sobre um console de madeira escura, com o papel de um boletim datilografado dobrado ao lado.

O relógio de sala e o boletim assinado, 1926

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Na manhã de 10 de junho de 1688, no Palácio de St. James, nasceu um menino que metade de Londres se recusou a aceitar como filho do rei. Jaime II era católico, o herdeiro seria criado na mesma fé, e a corte protestante preferiu outra versão do que tinha acontecido no quarto.

A versão dizia que o bebê entrou escondido dentro de um aquecedor de cama, o cilindro de metal com brasas que se passava entre os lençóis antes de deitar. Não havia prova de nada. A boataria bastou, e em dezembro daquele ano o rei estava fora do trono e fora do país.

A monarquia britânica tirou dali uma regra prática. Nascimento na linha de sucessão passou a acontecer com testemunha de Estado dentro da casa, alguém com cargo público capaz de assinar depois que a criança apresentada à corte era a mesma criança que tinha nascido ali.

O costume nunca virou lei. Nenhum ato do Parlamento obrigava ninguém a nada, e mesmo assim, por mais de dois séculos, um Secretário de Estado atravessou noites inteiras em sala de espera, sem entrar no quarto, apenas para poder dizer no dia seguinte que estava presente.

Em abril de 1926 quem carregava o encargo era William Joynson-Hicks, Secretário do Interior do governo conservador, 60 anos, conhecido em Londres pelas batidas policiais em clubes noturnos e pela apreensão de livros que ele considerava indecentes.

Nas contas daquela semana, a vigília valia pouco. A criança a caminho era neta do rei e entrava na fila de sucessão em terceiro lugar, atrás de um tio solteiro de 31 anos e do próprio pai. Ninguém no corredor apostava uma libra numa coroa.

A primeira página de hoje começa na noite em que esse costume levou um ministro do governo britânico a uma casa particular de Mayfair, onde ele esperou sentado até as duas e quarenta da madrugada.

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I  A Primeira Página de Hoje

A casa emprestada do conde de Strathmore

A casa não era dos pais. O duque e a duquesa de York moravam em White Lodge, no Richmond Park, longe do centro, e ainda não tinham endereço próprio em Londres.

A duquesa passou as últimas semanas na casa do pai dela, o conde de Strathmore, no número 17 da Bruton Street. A rua fica em Mayfair, a poucos passos da Berkeley Square, entre residências de família, alfaiates e salões de costura.

O trabalho de parto atravessou a noite de 20 para 21 de abril. Estavam na casa o duque de York, o obstetra Sir Henry Simson e o Secretário do Interior, avisado com antecedência e a postos para cumprir o costume.

Às 2h40 da madrugada de 21 de abril de 1926 nasceu uma menina, por cesariana. O boletim que saiu da casa naquela manhã, assinado por Simson, tinha duas frases e não usava a palavra cirurgia.

Sua Alteza Real a Duquesa de York deu à luz uma princesa às 2h40 desta manhã. Previamente, uma certa linha de tratamento foi adotada com êxito.

A certa linha de tratamento era a cesariana, cercada de pudor na comunicação oficial da época. A fórmula protegia a família do comentário público e avisava, para quem soubesse ler, que a operação tinha sido feita.

Em Windsor, o rei e a rainha foram acordados às quatro da manhã pelo escudeiro Reginald Seymour. Jorge V e Maria de Teck ouviram o recado, voltaram a dormir e à tarde pegaram o carro para Londres.

O diário da rainha registrou a hora e o alívio. A biografia Queen Mary, escrita por James Pope-Hennessy em 1959, transcreveu a linha: acordados às quatro da manhã por Reggie Seymour, que informou que a querida Elizabeth tinha tido uma filha às 2h40.

Do lado de fora, uma pequena multidão se formou na calçada ao longo do dia. Policiais organizaram a fila de carros que parava na frente da porta para deixar cartão de visita.

No dia seguinte os jornais de Londres deram o nascimento em espaço curto. O The Times publicou a nota e o Court Circular, e o assunto que ocupava as colunas grandes naquela semana era o carvão.

O subsídio do governo às minas terminava em 30 de abril. A comissão presidida por Herbert Samuel tinha recomendado corte de salário, os mineiros recusaram, e doze dias depois daquela madrugada a Grã-Bretanha parou na greve geral de 3 de maio de 1926.

A menina foi batizada em 29 de maio, na capela particular do Palácio de Buckingham, com o nome de Elizabeth Alexandra Mary. Cosmo Lang, então arcebispo de York, conduziu a cerimônia.

Um ministro do Interior atravessou a madrugada numa casa emprestada de Mayfair para certificar, por costume herdado de um boato de 1688, o nascimento da terceira pessoa numa fila que ninguém esperava ver andar.

A previsão de todo mundo naquela semana era simples. O príncipe de Gales tinha 31 anos, era solteiro e devia casar; os filhos dele empurrariam a menina para o quarto, o quinto, o sexto lugar da fila.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O rádio ligado em 11 de dezembro de 1936

A primeira página daqueles dias registrou uma neta do rei em terceiro lugar na sucessão. O que ela não podia registrar é que a fila mudaria de ordem por uma assinatura dada dez anos depois, e que aquela menina passaria setenta anos e 214 dias no trono.

O tio não casou com quem a corte esperava. Em 20 de janeiro de 1936 o reinado de Jorge V terminou em Sandringham, e o príncipe de Gales virou Eduardo VIII com a intenção declarada de se casar com Wallis Simpson, americana em processo de segundo divórcio.

O governo de Stanley Baldwin recusou o casamento, e a Igreja da Inglaterra recusou junto. Em 10 de dezembro de 1936 Eduardo assinou o instrumento de abdicação diante dos três irmãos e, no dia seguinte, leu no rádio a explicação para o país.

O irmão do meio virou Jorge VI. A menina de dez anos que dormia no número 145 da Piccadilly passou a herdeira presuntiva, e a família mudou para o Palácio de Buckingham em fevereiro de 1937.

O título nunca virou princesa de Gales. A regra de sucessão da época dava preferência a filho homem, e enquanto o pai reinasse restava a hipótese de um irmão nascer e devolvê-la ao segundo lugar.

A guerra deu a ela o primeiro cargo público. Em 1945, aos 19 anos, entrou no Serviço Territorial Auxiliar como número 230873, aprendeu mecânica em Aldershot e dirigiu caminhão de transporte.

Em 20 de novembro de 1947 casou na Abadia de Westminster com Philip Mountbatten, oficial da Marinha nascido príncipe da Grécia e da Dinamarca.

Em 6 de fevereiro de 1952 o reinado de Jorge VI terminou durante o sono, em Sandringham. A filha estava no Quênia, em viagem oficial, e recebeu o recado no Sagana Lodge, depois de uma noite passada num hotel construído em cima de uma figueira.

Ela voltou de avião como rainha, aos 25 anos. A coroação aconteceu em 2 de junho de 1953, e a BBC transmitiu a cerimônia ao vivo pela televisão contra a recomendação inicial do gabinete e do arcebispo de Cantuária.

O costume de 1688 não chegou até lá. Em novembro de 1948, dias antes do nascimento do primeiro filho dela, o Palácio informou que o Secretário do Interior não estaria presente e lembrou que a prática nunca teve amparo em lei.

Quinze primeiros-ministros despacharam com ela, do primeiro, Winston Churchill, nascido em 1874, à última, empossada dois dias antes do fim do reinado.

A conta de tempo virou recorde em setembro de 2015, quando o reinado ultrapassou os 63 anos e 216 dias de Vitória. Terminou em 8 de setembro de 2022, com 70 anos e 214 dias, o mais longo da história britânica.

O número 17 da Bruton Street não sobreviveu ao século. A casa foi atingida nos bombardeios de Londres durante a Segunda Guerra e o terreno recebeu prédio novo; na fachada, uma placa registra o que aconteceu ali às 2h40.

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III  O Anúncio da Página 3

O costureiro do número 10

A rua: a Bruton Street sai da Berkeley Square e atravessa Mayfair em duas quadras curtas. Em 1926 era endereço comercial de casa de costura, ourives e showroom de automóvel, com placa discreta na porta e vitrine pequena.

O costureiro: em 1923, aos 22 anos, Norman Hartnell abriu ateliê no número 10 da mesma rua. Em 1934 mudou para o número 26, a poucos metros da porta onde a menina tinha nascido oito anos antes.

A conta: em 1947 Hartnell assinou o vestido de noiva, e em 1953 o vestido da coroação, bordado com os emblemas florais dos países da Commonwealth. Vinte e sete anos separaram a vitrine da rua do altar da abadia.

A primeira página daquele 22 de abril não trazia manchete nenhuma. O The Times vendia a capa inteira em classificado, coluna por coluna, e só abandonou o hábito em maio de 1966.

Quem procurasse a notícia do nascimento tinha que virar a página. Ela saiu no miolo, ao lado do Court Circular, no espaço reservado à agenda da corte.

O comércio levou menos tempo que a imprensa para entender o tamanho do assunto. Em 1928 o museu de cera de Madame Tussaud pôs em exposição uma figura da princesa aos dois anos, montada num pônei, a pessoa mais nova já modelada na casa.

Em 1932 a Terra Nova, então domínio britânico ainda separado do Canadá, imprimiu o retrato dela num selo de seis centavos. A menina tinha seis anos e virou papel de correspondência antes de virar chefe de Estado.

A coroação de 1953 vendeu aparelho. As licenças de televisão no Reino Unido eram cerca de 1,4 milhão em 1952 e passaram de três milhões em 1954, e mais de vinte milhões de pessoas acompanharam a cerimônia pela tela.

A conta de quem pagou o quê inverte a ordem que a corte anunciava. O Estado mandou um ministro e não gastou nada além do sono dele naquela noite.

O comércio da rua, o museu de cera e a fábrica de aparelhos tiraram décadas de catálogo de uma criança que a imprensa da semana tinha colocado em terceiro lugar numa fila.

O boletim de 1926 cabia em duas frases e não dizia nome. O selo de 1932 já trazia o rosto. A coroação de 1953 mudou o que existia dentro da sala de estar de milhões de casas, e tudo começou numa nota curta entre a agenda da corte e a crise do carvão.

"Quem decide o tamanho de uma notícia, a página que a imprime ou o século que vem depois dela?"

 
 
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No boletim oficial assinado pelo obstetra Sir Henry Simson sobre o nascimento, qual expressão substituiu a palavra cesariana?

Aintervenção médica necessária
Buma certa linha de tratamento
Cprocedimento especial recomendado
Dmedida extraordinária adotada

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