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As Catorze Horas de Trudy Ederle
Coberta de banha de carneiro, ela entra no mar em Cap Gris-Nez às 7h08 e sai em Kingsdown com o recorde dos homens quebrado.
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A primeira página de 7 de agosto de 1926
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Em 1875, um capitão inglês chamado Matthew Webb atravessou o Canal da Mancha a nado e virou lenda de escola. Cinquenta e um anos depois, apenas cinco pessoas tinham repetido a travessia, e as cinco eram homens.
O recorde pertencia a Enrico Tiraboschi, com 16 horas e 33 minutos, cravados em 1923. A linha reta entre a França e a Inglaterra tem 34 quilômetros, e ninguém nada em linha reta no Canal: a maré empurra o corpo de lado e obriga a atravessar em zigue-zague.
A água fica em torno de 15 graus em agosto, fria o bastante pra tirar calor do corpo mais rápido do que o esforço repõe. Some a água-viva, o sal que fecha os olhos e o tráfego de cargueiros cruzando a mesma rota.
O que se imprimia sobre mulher e água fria naquela época era curto e categórico. Faltava-lhe estrutura pro esforço, e o Canal seguiria fora do alcance dela. Médicos assinavam a conclusão, e as redações repetiam a assinatura.
Gertrude Ederle tinha 20 anos e três medalhas olímpicas de Paris, ganhas em 1924. Em 18 de agosto de 1925 ela entrou no Canal pela primeira vez, treinada por Jabez Wolffe, que havia falhado na própria travessia 22 vezes.
Depois de 8 horas e 43 minutos de água, Wolffe mandou tirá-la. Alguém a tocou, e o toque anula a travessia pelo regulamento. Ela sustentou pelo resto da vida que aguentaria o trecho que faltava.
Wolffe alegou que ela não tinha mais condição de seguir. Ela negou a versão dele pelo resto da vida, e trocou de treinador antes de pensar em voltar ao Canal.
Uma segunda tentativa custava caro: rebocador fretado, tripulação, treinador e semanas de espera em Cap Gris-Nez até maré e vento fecharem no mesmo dia. O New York Daily News e o Chicago Tribune pagaram a conta.
Em troca, ficaram com a exclusividade do relato, assinado pela própria nadadora, pra sair na primeira página assim que houvesse desfecho.
A primeira página de hoje é a manhã seguinte a essa segunda tentativa.
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I A Primeira Página de Hoje
Sete e oito da manhã em Cap Gris-Nez
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A manchete de cinco colunas do dia seguinte não abre pelo recorde. Abre pelo que ela declarou ao acordar. Aqui está a manhã inteira, do primeiro passo na areia francesa às fogueiras acesas na praia inglesa.
"CONQUEROR OF ENGLISH CHANNEL DECLARES TODAY THAT SHE IS READY FOR ANOTHER SWIM", Taunton Daily Gazette, Taunton, Massachusetts, 7 de agosto de 1926, primeira página, manchete de cinco colunas.
Em português: a conquistadora do Canal da Mancha declara hoje que está pronta pra outra travessia. Quem assinava a declaração tinha 20 anos, chamava-se Gertrude Ederle e era filha de um açougueiro alemão de Amsterdam Avenue, em Nova York. Em casa a chamavam de Trudy.
Na véspera, às 7h08, ela desceu a praia de Cap Gris-Nez, na costa francesa, e entrou na água.
O corpo ia coberto por uma camada de banha de carneiro, vaselina e óleo de oliva, passada à mão pela irmã Margaret. A gordura segurava o calor e amortecia a queimadura das águas-vivas.
Nos olhos, óculos de motociclista vedados nas bordas pro sal não entrar. Na cabeça, uma touca de borracha. No corpo, um maiô de duas peças cortado pela irmã, mais leve na água do que os modelos inteiriços vendidos naquela temporada.
Ao lado seguia um rebocador com o pai, Henry, a irmã Margaret, o treinador Bill Burgess e os repórteres que tinham comprado a exclusividade. Burgess havia atravessado o Canal em 1911 e sabia a rota de cor.
No convés tocava fonógrafo, e a tripulação cantava pra ela manter o compasso da braçada. "Let Me Call You Sweetheart" entrou na conta mais de uma vez.
O pai tinha prometido um conversível vermelho se ela chegasse do outro lado. Ao longo do dia a tripulação erguia placas com o desenho de uma roda, depois duas, depois três, marcando o quanto do carro já estava garantido.
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Na décima segunda hora, com o mar quebrando por cima dela, Burgess gritou que era hora de sair. Ela levantou a cabeça e devolveu: pra quê?
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Depois do meio da tarde o vento virou pro sudoeste e o mar subiu. A maré passou a empurrá-la de lado, e a linha reta de 34 quilômetros virou um traçado de cerca de 56.
Do lado inglês, a notícia de que ela continuava na água correu pelas casas de Kingsdown. Quando escureceu, a multidão desceu pra praia e acendeu fogueiras na areia, pra ela enxergar onde ficava a Inglaterra.
Às 21h40 ela encostou o pé no cascalho de Kingsdown e ficou de pé sozinha. A primeira pessoa a falar com ela foi um oficial de imigração britânico, que sorriu e pediu o passaporte.
Os jornais da manhã seguinte imprimiram 14 horas e 31 minutos, quase duas horas abaixo da marca de Tiraboschi. Ela era a sexta pessoa a atravessar o Canal a nado, e a primeira mulher.
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II O Que Aconteceu Depois
O ouvido que o Canal levou
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A página daquela manhã trouxe o tempo, a distância e o recorde. O que ela não podia trazer é que 14 horas de água fria e de pressão tinham acelerado uma surdez que já vinha da infância.
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Trudy pegou sarampo aos cinco anos, e a doença deixou uma perda de audição que os médicos consideravam permanente. Antes da travessia, eles avisaram que nadar pioraria a perda.
Ela nadou assim mesmo, e a queda veio rápido. Em 1928, aos 22 anos, parou de competir. Por volta de 1940 estava praticamente surda.
A água do Canal não causa surdez sozinha. O que ela faz é somar horas de frio e de pressão sobre um ouvido já danificado, e a conta de 6 de agosto de 1926 tinha 14 horas dentro dela.
Antes da fatura chegar, houve o mês da festa. Em 27 de agosto de 1926 ela desembarcou em Nova York, e a cidade fechou a Broadway pra ela.
O prefeito Jimmy Walker mandou preparar o desfile, e cerca de dois milhões de pessoas assistiram à chuva de papel picado descer sobre o carro aberto.
O presidente Calvin Coolidge mandou um telegrama, e a frase virou notícia: "I am amazed that a woman of your small stature should be able to swim the English Channel." Calvin Coolidge, telegrama a Gertrude Ederle, 1926.
Em português: espanta-me que uma mulher de estatura tão pequena consiga atravessar o Canal da Mancha a nado. O elogio do presidente carregava a régua da época dentro dele, e saiu impresso exatamente assim.
Nova York vendeu jornal, chapéu e ingresso em cima da travessia por quase um mês. Em outubro a manchete já era outra, e o nome dela tinha descido pra dentro do caderno de esportes.
Em 1933, uma queda de escada torceu a coluna dela, e os médicos avisaram que ela não voltaria a andar.
Ela voltou. Andou de novo, nadou de novo e, em 1939, fez exibição no Aquacade da Feira Mundial de Nova York, diante de plateia paga.
A surdez, essa, não recuou. E foi ela que desenhou o resto da vida de Trudy Ederle.
A partir dali ela passou décadas ensinando crianças surdas a nadar na Lexington School for the Deaf, em Nova York. Não sabia língua de sinais e ensinava pelo corpo, dentro da água, onde ninguém precisa ouvir pra entender o comando.
Nunca se casou, deu aula enquanto teve pernas pra entrar na piscina e chegou aos 98 anos, em Wyckoff, Nova Jersey, em 2003. As notas de despedida citavam o Canal na primeira linha e a piscina do colégio na segunda.
Há ainda uma correção que só o tempo trouxe. Os jornais de 7 de agosto imprimiram 14 horas e 31 minutos. O registro da Channel Swimming Association, entidade que homologa as travessias, marca 14 horas e 39.
Nenhuma das duas contas mexe no essencial: a marca dos homens caiu por quase duas horas, e caiu diante de uma nadadora de 20 anos.
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III O Anúncio da Página 3
O maiô Trudy por US$ 6,95
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O maiô: poucos dias depois da travessia, os anúncios americanos ofereciam o "new Trudy swimsuit" por US$ 6,95. O modelo de duas peças que a irmã cortou pra reduzir o arrasto na água virou item de loja, com o nome dela na etiqueta.
O relógio: ela apareceu em anúncio como "world's greatest sportswoman", a maior esportista do mundo, com um Benrus modelo Princeton no pulso. O relógio não tinha entrado na água em momento nenhum, e a peça publicitária não precisava explicar a diferença.
O palco: o número de vaudevile pagava US$ 2 mil por semana pra ela nadar dentro de um tanque portátil de vidro, de cidade em cidade. A travessia cabia num palco de teatro, e o ingresso vendia bem.
Um maiô de duas peças em 1926 era assunto de polícia de praia em boa parte dos Estados Unidos, com fiscal medindo a barra da saia na areia. A mesma peça que rendia multa em julho estava anunciada como novidade de fábrica em agosto.
Dudley Field Malone, o empresário que cuidava dos contratos, anunciava quase um milhão de dólares em propostas. Boa parte nunca virou assinatura, e as que viraram chegaram tarde, quando a próxima manchete já tinha empurrado o nome dela pra dentro do jornal.
O acervo guarda essa parte melhor do que a memória. A manchete registra o feito e some da conversa em uma semana, e o anúncio fica, porque quem paga por espaço paga pra repetir.
Vale reparar no que a página comercial escolheu não vender. Faltava anúncio de óculos vedados, de banha de carneiro e de rebocador fretado, que foram as três coisas sem as quais a travessia não teria acontecido.
Em 1926 o Canal já tinha sido vencido cinco vezes por homens, e nenhum deles virou maiô de loja. O que a página comercial vendia era o espanto de a travessia ter sido feita por uma mulher de 20 anos.
O conversível vermelho, esse, chegou. Quando ela voltou do desfile e passou no açougue do pai, o carro prometido estava estacionado na porta, com as quatro rodas que a tripulação tinha desenhado nas placas.
O relógio, o maiô e o tanque de vidro duraram uma temporada. A piscina do colégio de surdos durou décadas, e nenhuma delas comprou espaço em página de jornal.
A página 3 vendia o maiô da travessia. O preço real da travessia estava sendo cobrado no ouvido dela, e não vinha em dólar.
"Quanto de um dia só aparece na página cem anos depois?"
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Quiz da edição
Qual recorde Trudy Ederle quebrou ao atravessar o Canal da Mancha em 14 horas e 31 minutos?
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