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ED 014

As Dezesseis Horas do Norge Sobre o Gelo

Em 12 de maio de 1926, o dirigível Norge cruza o Polo Norte vindo de Spitsbergen rumo ao Alasca.

Um dirigível semirrígido preso pela proa a um mastro de amarração de treliça, sobre campo de neve, com luz âmbar rasante.

A proa do Norge presa ao mastro de amarração

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Em 1925, num galpão da periferia de Roma, um engenheiro militar chamado Umberto Nobile terminava a montagem de um dirigível semirrígido registrado como N-1. Era uma aeronave de porte médio para a época, projetada para voo de patrulha sobre o Mediterrâneo, não para atravessar oceano gelado.

A estrutura era o oposto do zepelim alemão. Em vez de esqueleto rígido inteiro, o N-1 tinha uma quilha de treliça correndo por baixo do envelope de tecido emborrachado, e era o gás sob pressão que dava forma ao casco.

O comprador apareceu do outro lado da Europa. Roald Amundsen tinha voltado do Ártico em 1925 com duas máquinas quebradas e nenhum recorde: os hidroaviões N24 e N25 chegaram a 87 graus e 44 minutos de latitude norte, pousaram no gelo e passaram semanas cavando uma pista para trazer de volta os seis homens num aparelho só.

A lição que ele tirou do episódio foi de projeto, não de coragem. Avião daquela geração precisava de pista para pousar, e o Ártico não tem pista; uma aeronave mais leve que o ar podia flutuar por dias, parar no ar sobre um ponto e seguir sem depender de encontrar gelo plano.

O dinheiro veio de Lincoln Ellsworth, americano herdeiro de fortuna de mineração, que bancou a compra. O Aeroclube da Noruega comprou o N-1 do governo italiano, rebatizou a aeronave de Norge, e Nobile veio junto no contrato como projetista e piloto.

A viagem até a linha de partida já era uma expedição. O Norge deixou Roma em 10 de abril de 1926 e foi ganhando o norte em etapas, com escalas na Inglaterra, em Oslo, perto de Leningrado e no extremo norte da Noruega, até um mastro de amarração levantado em Ny-Ålesund, na baía de Kings Bay, em Spitsbergen.

Ali, no mesmo fiorde, uma expedição americana montava seu próprio acampamento com um trimotor Fokker, e os dois grupos passaram dias trabalhando a poucas centenas de metros um do outro, cada um com pressa de sair primeiro.

A primeira página de hoje começa com a proa do Norge sendo solta daquele mastro, com dezesseis homens a bordo e três bandeiras dobradas numa caixa.

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I  A Primeira Página de Hoje

O leme, a névoa e as três bandeiras

Às 9h55 do dia 11 de maio de 1926, a equipe de terra soltou os cabos e o Norge subiu de Ny-Ålesund apontado para o norte. A rota traçada não era ida e volta: a aeronave ia atravessar o oceano Ártico inteiro e descer do outro lado, no Alasca.

A navegação era feita à moda antiga, com sextante, compasso solar e cronômetro. Perto do polo a bússola magnética perde valor prático, e o navegador Hjalmar Riiser-Larsen precisava do sol visível para fixar a posição.

O céu colaborou nas primeiras horas. A aeronave cruzou o gelo compacto a algumas centenas de metros de altura, com visibilidade boa, e a tripulação revezava turnos de leme e de motor em compartimentos separados por uma passarela estreita.

Comprimento do dirigível106 metros
Volume de gás19 mil metros cúbicos
Motores Maybach3 de 250 cavalos
Homens a bordo16
Distância da travessia5.456 quilômetros
Tempo de voo72 horas

Na madrugada de 12 de maio, Riiser-Larsen fez as medições que confirmavam a posição e mandou parar sobre o ponto. Eram cerca de 1h25 quando o Norge chegou ao Polo Norte geográfico.

A aeronave baixou até poucas centenas de metros do gelo e reduziu a marcha. Foi então que saíram da caixa as três bandeiras, uma norueguesa, uma americana e uma italiana, cada uma presa a uma haste com ponta de metal para fincar na superfície.

Amundsen jogou a norueguesa primeiro, Ellsworth a americana em seguida, Nobile a italiana por último. A cena durou poucos minutos e virou o retrato oficial do voo.

A bandeira italiana que Nobile levou era visivelmente maior que as outras duas, detalhe que a tripulação norueguesa notou no ar e que a imprensa dos dois países repetiria por anos.

Passado o polo, a expedição entrou na parte que ninguém tinha visto. Entre o Polo Norte e o Alasca havia mais de dois mil quilômetros de oceano nunca sobrevoado, e a hipótese de existir terra firme escondida ali só podia ser resolvida olhando.

Não havia terra nenhuma. O que passava embaixo era gelo sem acidente, sem costa, sem montanha, hora após hora, e a ausência de qualquer ponto de referência tirava do navegador metade das ferramentas.

A aventura é apenas má organização.

Roald Amundsen, My Life as an Explorer, 1927

A névoa fechou depois e virou o problema real da viagem. Sem sol, a posição passou a ser estimada por rumo e tempo, e a umidade começou a se depositar em camada de gelo sobre o envelope e sobre as antenas.

O gelo acumulado pesa e o peso desce a aeronave. Pior que o peso era o que as hélices faziam com as lascas: cada pedaço arrancado do casco era lançado pelo giro contra o tecido do envelope, abrindo furos.

A tripulação passou horas circulando pela quilha com cola e remendo, tapando cada rasgo à medida que aparecia, enquanto o rádio ficava mudo com a antena congelada.

Na manhã de 13 de maio a costa do Alasca apareceu debaixo da névoa. O plano era descer em Nome, mas o vento e o estado do casco tiraram a escolha da mão da tripulação, e o Norge desceu em Teller, um povoado de algumas dezenas de casas, no dia 14.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A rota que virou disputa entre dois nomes

Setenta e duas horas depois de largar o mastro em Spitsbergen, o Norge foi desmontado na praia de Teller e nunca mais voou, e a briga sobre quem tinha comandado a travessia durou mais que a aeronave.

O crédito começou a ser disputado antes da desmontagem. Para os noruegueses, o Norge era um veículo alugado e a expedição era de Amundsen e Ellsworth; para os italianos, a travessia era obra do projetista que conduziu a aeronave do leme.

Amundsen tratou Nobile publicamente como piloto contratado. Nobile respondeu com a prancha de projeto na mão, lembrando que o casco, os cálculos de sustentação e a condução no ar eram dele.

O governo italiano entrou na conta. Roma promoveu Nobile a general e recebeu o voo como feito nacional, o que azedou de vez a relação entre os dois e transformou uma discussão de expedição em atrito entre países.

A vitória espera aquele que tem tudo em ordem, e as pessoas chamam isso de sorte.

Roald Amundsen, The South Pole, 1912

Havia ainda a questão anterior, do outro acampamento em Kings Bay. Três dias antes, em 9 de maio, o trimotor Fokker americano tinha decolado do mesmo fiorde e voltado anunciando ter alcançado o polo e retornado no mesmo dia.

O anúncio foi aceito na época e rendeu honrarias. Décadas depois, o diário de bordo original apareceu num arquivo universitário com anotações de posição riscadas, e o cálculo de velocidade do aparelho passou a ser considerado incompatível com o tempo declarado.

A consequência é direta para o registro histórico. Se aquele voo anterior não chegou onde disse que chegou, a tripulação do Norge foi a primeira que se sabe ter estado sobre o Polo Norte, e a primeira, sem discussão, a atravessar o oceano Ártico de costa a costa.

Nobile voltou ao mesmo céu dois anos depois com aeronave própria. O Italia, construído no mesmo padrão semirrígido, partiu de Spitsbergen em 1928, sobrevoou o polo e caiu no gelo na volta, deixando sobreviventes numa placa à deriva.

O resgate mobilizou meia dúzia de países e virou uma das maiores operações do gênero até então. Amundsen decolou de Tromsø num hidroavião francês para procurar a tripulação do rival e desapareceu no mar de Barents; nunca acharam o aparelho.

A travessia de 1926 fechou uma era em vez de abrir uma. O dirigível de longo curso saiu de cena junto com os desastres da década seguinte, e a rota polar que o Norge desenhou passou a ser cumprida por avião de metal com autonomia para voar sem parar.

O que ficou de pé foi o mapa. A faixa de oceano entre o polo e o Alasca deixou de ser hipótese e virou dado medido, e o resultado é o mesmo que a tripulação anotou olhando pela janela: gelo, e nenhuma terra.

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame do voo vendido antes de sair do chão

A página: em maio de 1926, o jornal grande já não vendia só a notícia da expedição; vendia o direito exclusivo de contá-la, e a página de anúncio informava a exclusividade ao leitor com todas as letras.

O anúncio: o contrato de exclusividade da travessia foi fechado com um jornal americano antes da decolagem, e parte do financiamento saiu daí, ao lado do dinheiro particular de Ellsworth e das doações recolhidas na Noruega.

A coluna: o reclame prometia o relato assinado pelos homens que estavam a bordo, entregue por rádio direto da aeronave em voo, e não a versão remontada por um repórter em terra dias depois.

A promessa do rádio era o produto. Expedição polar do século anterior sumia por meses e voltava com o relato pronto; o Norge levava operador e transmissor a bordo para despachar boletins em pleno voo.

Foi por isso que a antena congelada doeu tanto. Com o gelo cobrindo os fios, o transmissor calou justamente no trecho de maior interesse comercial, e as redações ficaram horas sem saber se a aeronave existia ainda.

O anúncio vendia outra coisa junto com a notícia. A expedição levou correspondência a bordo e carimbou envelopes na rota, e havia leitor pagando para receber em casa uma carta que tinha atravessado o Polo Norte pendurada numa quilha de treliça.

A conta explica a pressa dos dois acampamentos em Kings Bay. Chegar segundo não valia metade: valia quase nada, porque o contrato de exclusividade, o valor do selo e o preço da palestra dependiam de ser o primeiro.

O caso do voo americano anterior mostra o custo. A versão publicada em maio de 1926 rodou o mundo com base no que a tripulação declarou, e a auditoria do diário de bordo só veio quando os envolvidos já não estavam vivos para responder.

A página de jornal daquele mês trazia três nomes em corpo grande e treze em corpo miúdo, quando os trazia. A hierarquia da manchete não é a hierarquia do trabalho, e o leitor de 1926 lia a primeira sem ter como conferir a segunda.

O Norge atravessou o Ártico com dezesseis homens a bordo, foi vendido como feito de três nomes e desmontado numa praia do Alasca quatro dias depois de decolar.

"Quando o jornal paga pela história antes de ela acontecer, quem fica encarregado de conferir o que foi anunciado?"

 
 
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No sobrevoo do Polo Norte pelo Norge em 12 de maio de 1926, qual das três bandeiras lançadas sobre o gelo era visivelmente maior que as outras duas?

AA americana, jogada por Ellsworth
BA norueguesa, jogada por Amundsen
CA italiana, jogada por Nobile
DNenhuma, as três tinham o mesmo tamanho

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