Sponsored by

Jornal de Cem Anos   Jornal de Cem Anos
ED 033
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

As Igrejas Mudas do México

Em 31 de julho de 1926, véspera da lei Calles, os bispos mexicanos suspendem o culto público em todo o país.

Um sino de bronze parado numa torre de pedra, com a corda do badalo amarrada.

Sino amarrado em torre de pedra, 1926

▼
 

Em 5 de fevereiro de 1917, a Constituição mexicana promulgada em Querétaro garantia, no artigo 24, que todo habitante do país era livre para professar a crença que quisesse. Em 2 de julho de 1926, o Diário Oficial da Federação publicou uma reforma do Código Penal assinada pelo presidente Plutarco Elías Calles que fixava pena de prisão para o sacerdote que criticasse as leis do país e multa para quem celebrasse culto fora do interior de um templo.

Os dois textos valiam ao mesmo tempo e vinham do mesmo Estado. Um prometia liberdade de crença como direito individual. O outro tratava o exercício público dessa crença como conduta a ser punida, com número de artigo, valor de multa e tempo de cadeia.

A distância entre as duas peças legais não era invenção de 1926. A Constituição de Querétaro já trazia dispositivos que retiravam da Igreja o que ela tinha de estrutura: o artigo 3 proibia o ensino religioso nas escolas, o artigo 27 entregava à nação a propriedade dos templos e o artigo 130 negava personalidade jurídica às igrejas.

Por quase uma década, boa parte desses artigos ficou no papel, aplicada com intensidade variável conforme o governador e a região. A reforma penal de julho de 1926, apelidada na imprensa de lei Calles, mudou o estatuto da questão: o que era programa constitucional virou tipo penal com sanção definida, e a data de vigência ficou marcada para 31 de julho.

O episcopado mexicano respondeu antes do prazo vencer. Em carta pastoral coletiva assinada em 25 de julho de 1926 e lida nas paróquias nos dias seguintes, os bispos comunicaram que o culto público ficaria suspenso em todo o território nacional a partir de 1º de agosto, enquanto a lei estivesse em vigor. Os templos não seriam entregues nem trancados pelo clero: ficariam de pé, sem missa, sem batismo e sem sino.

A primeira página de hoje é a véspera daquele 31 de julho, o que aconteceu nas igrejas mexicanas nas últimas horas antes do silêncio e o levante camponês que começou nos meses seguintes.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

A última missa antes do silêncio

As filas começaram cedo. Nos últimos dias de julho de 1926, com a suspensão do culto já anunciada pelo comunicado dos bispos, paróquias da Cidade do México, de Guadalajara e do Bajío registraram movimento de batizados, casamentos e confissões em ritmo que o clero local não conseguia atender, e a imprensa mexicana da semana descreveu templos abertos madrugada adentro.

O quadro jurídico que produzia a corrida tinha endereço preciso. A reforma do Código Penal publicada em 2 de julho de 1926 previa multa e prisão para o sacerdote que criticasse as leis fundamentais do país, punia o uso de traje religioso fora do templo, fechava escolas paroquiais e obrigava todo ministro de culto a se registrar perante a autoridade civil para poder exercer o ofício.

Nos vemos obligados a suspender el culto público en todos los templos de la República.

Episcopado mexicano, Carta Pastoral Colectiva, 25 de julho de 1926

Em 31 de julho de 1926, véspera da entrada em vigor da lei Calles, os sacerdotes mexicanos celebraram a última missa pública autorizada pela hierarquia, e a partir do dia seguinte os templos do país permaneceram de pé, sem culto, por quase três anos.

A decisão do episcopado tinha uma aritmética própria. Suspender o culto significava tirar do governo o objeto que ele passaria a regular: sem missa pública, não havia sacerdote registrado a fiscalizar, nem cerimônia fora do templo a multar. A greve religiosa transferia o custo político da lei para quem a tinha escrito.

A resposta do Estado veio pelo inventário. Templos foram entregues a juntas de vizinhos designadas pela autoridade civil, e o governo passou a tratar os edifícios pelo que o artigo 27 da Constituição de 1917 dizia deles: propriedade da nação. Em paralelo, a Liga Nacional Defensora de la Libertad Religiosa, fundada em março de 1925, lançou em julho de 1926 um boicote econômico que pedia aos católicos que cortassem consumo não essencial, transporte e loteria, para atingir a arrecadação federal.

A ficha da lei, item por item:

Publicação no Diário Oficial: 2 de julho de 1926
Nome corrente na imprensa: lei Calles
Entrada em vigor: 31 de julho de 1926
Presidente signatário: Plutarco Elías Calles
Natureza: reforma do Código Penal Federal, com sanção de multa e prisão
Base constitucional invocada: artigos 3, 5, 24, 27 e 130 da Constituição de 1917
Resposta do episcopado: carta pastoral coletiva de 25 de julho, suspensão do culto público desde 1º de agosto

O boicote fracassou em poucos meses. A classe média urbana católica, que sustentava a Liga nas cidades, não conseguiu manter a retração de consumo, e o governo não recuou. A frente que restou de pé ficou no campo, entre pequenos proprietários e camponeses do centro-oeste mexicano, e ali a disputa deixou o terreno da lei.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Três anos de guerra e um acordo em junho de 1929

A suspensão do culto durou de 1º de agosto de 1926 a 27 de junho de 1929. No intervalo, o campo mexicano travou uma guerra civil de escala nacional, e o acerto que reabriu as igrejas foi negociado sem que um único artigo da Constituição de 1917 fosse alterado.

O levante começou disperso no fim de 1926 e ganhou forma no ano seguinte. Os estados de Jalisco, Colima, Michoacán, Guanajuato, Zacatecas e Nayarit concentraram os focos, com colunas camponesas que se identificavam pelo grito de Viva Cristo Rey, origem do apelido cristero que a imprensa da capital adotou.

A guerra teve dois traços que a separam de um motim rural. O primeiro foi a organização militar: em 1927 a Liga contratou o general Enrique Gorostieta Velarde, veterano formado no Colégio Militar, para comandar as forças cristeras, e ele impôs estrutura de exército regular a bandos até então autônomos. O segundo foi a presença feminina, com as Brigadas Femeninas de Santa Juana de Arco encarregadas do transporte de munição e informação, organização documentada por Jean Meyer em La Cristiada, publicada em 1973.

O governo respondeu com concentração forçada de população rural, deslocando aldeias inteiras para privar as colunas de abastecimento, e com julgamentos sumários. O caso de maior repercussão internacional foi o do padre Miguel Agustín Pro, fuzilado na Cidade do México em 23 de novembro de 1927 sem processo regular, acusado de participação num atentado contra Álvaro Obregón. As fotografias oficiais do fuzilamento, encomendadas pelo governo para servir de escarmento, circularam pelo mundo com o efeito contrário.

O que veio depois, ano a ano:

1926: lei Calles em vigor, suspensão do culto público e primeiros levantes
1927: Gorostieta assume o comando militar cristero e o padre Pro é fuzilado
1928: Álvaro Obregón, presidente eleito, é assassinado em San Ángel em 17 de julho
1929: mediação do embaixador americano Dwight Morrow e negociação com o governo Portes Gil
1929: os arranjos de 21 de junho encerram o conflito e o culto retorna em 27 de junho
1932: a encíclica Acerba animi, de Pio XI, denuncia o descumprimento do acordo
1992: reforma constitucional devolve personalidade jurídica às igrejas no México

O acerto de 1929 foi mais frágil que o alívio sugeria. As igrejas reabriram e o clero voltou ao altar, mas os artigos anticlericais permaneceram na Constituição, aplicados com menos rigor por decisão política, sem revogação. Antigos combatentes cristeros desarmados foram perseguidos e mortos nos anos seguintes, e um segundo surto armado, chamado de La Segunda, voltou a ocupar o campo entre 1934 e 1938.

O total de mortos continua em disputa entre historiadores. Jean Meyer, em La Cristiada, trabalha com cifra próxima de 250 mil entre combatentes dos dois lados e população civil atingida pelos deslocamentos forçados, e outros autores consideram o número alto.

 

Quem banca a edição de hoje

Smarter CRM. Less Busywork.

Disconnected data and tools make it harder to understand your customers. HubSpot's Agentic Customer Platform brings your data, teams, and tech stack together with AI built in to help your business work faster and create more personalized customer experiences.

Why HubSpot and what's new

  • Use AI powered tools to take action faster

  • Unify your data, teams, and tech stack in one place

  • Create one shared view of customer data

  • Connect teams around the same customer context

  • Bring your business tools into one place

Connect more of your business in one place and give every team a smarter way to work. Get set up quickly and start checking off your hardest tasks.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Anúncio da Página 3

O reclame que rodava ao lado da notícia

A página: os grandes diários mexicanos de 1926, El Universal, fundado em 1916, e Excélsior, fundado em 1917, davam a lei Calles e a carta dos bispos na primeira página, e nas páginas seguintes vinha a economia urbana que sustentava o jornal. Notícia de fechamento de templo e reclame de loja dividiam o mesmo papel.

O anúncio: o anunciante mais constante da imprensa mexicana daquela década era a cigarreira El Buen Tono, fundada em 1875 na Cidade do México, que comprava espaço fixo e publicava tiras em quadrinhos de propaganda, com personagens recorrentes e enredo continuado, formato que a empresa mantinha desde os anos 1910 e que fazia do reclame uma seção esperada pelo leitor.

A coluna: ao redor vinha o comércio da capital, o Palacio de Hierro e o Puerto de Liverpool com tabela de tecidos, a Casa Boker anunciando ferragens importadas, o horário dos Ferrocarriles Nacionales de México e a programação dos cinemas do centro.

A ficha do reclame e da imprensa do período, item por item:

Diário fundado em 1916El Universal, por Félix Palavicini
Diário fundado em 1917Excélsior, por Rafael Alducin
Anunciante fixo em quadrinhoscigarreira El Buen Tono, fundada em 1875
Lojas de departamento anunciantesPalacio de Hierro e Puerto de Liverpool
Comércio importadorCasa Boker, estabelecida na capital desde 1865
Transporte anunciado por tabela de horárioFerrocarriles Nacionales de México
Boicote de consumo da Ligainiciado em julho de 1926

O boicote da Liga mirava exatamente essa página. Pedir ao católico urbano que deixasse de comprar cigarro, de andar de bonde, de ir ao cinema e de jogar na loteria era atacar a receita federal pelo imposto de consumo e, de quebra, a receita do próprio jornal que publicava a campanha. A imprensa da capital ficou entre a notícia que vendia exemplar e o anunciante que pagava a folha de pagamento.

A censura resolveu parte do dilema pelo lado do governo. Publicações católicas foram fechadas, e os diários comerciais ajustaram a cobertura para não perder a licença de circulação nem o anúncio oficial. Ler a versão da hierarquia passou a depender de folheto clandestino.

Os documentos centrais continuam acessíveis e datados. O decreto de reforma do Código Penal está na edição do Diário Oficial da Federação de 2 de julho de 1926, digitalizada no acervo do próprio Diário Oficial, e a posição da Santa Sé sobre o conflito está na encíclica Iniquis afflictisque, de Pio XI, promulgada em 18 de novembro de 1926 e publicada no site do Vaticano. O centenário da suspensão do culto cai em 31 de julho de 2026. Reconfira as duas fontes na semana do centenário, uma no acervo do Diário Oficial da Federação e a outra no arquivo de encíclicas do Vaticano.

"Fechar as igrejas foi resistência calculada do episcopado ou o empurrão que levou o camponês mexicano para a guerra?"

 
 

Ebook + app · 8 dias

Capa do ebook
+
O app no celular
1
2
3
4
5
6
7
8

o plano de 8 dias, dentro do app

Em 8 dias, 1 etapa por dia. O ebook ensina, o app cobra.

📖O ebook ensina: O protocolo de 40 minutos que transforma o jornal daquele dia no presente que ninguém compra pronto.
📱O app treina: 1 etapa por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que data a lei Calles entrou em vigor no México?

A2 de julho de 1926
B25 de julho de 1926
C31 de julho de 1926
D1 de agosto de 1926

Resultado da última edição: 0% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🕰️🕰️🕰️🕰️🕰️  ótima 🕰️🕰️🕰️🕰️  boa 🕰️🕰️🕰️  ok 🕰️🕰️  ruim 🕰️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Queda e Triunfo

Queda e Triunfo

Às 09:09 na sua caixa: uma história real de queda brutal e volta improvável, contada do jeito que merecia ser contada.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um leitor pra banca

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook A Página do Seu Nascimento
ebook A Página do Seu Nascimento

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
 
 

Amanhã tem outra primeira página.

Jornal de Cem Anos

JORNAL DE CEM ANOS

A primeira página de hoje, de cem anos atrás

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter