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As Quatro Horas no Salão do Waldorf-Astoria

Em 15 de novembro de 1926, a NBC entra no ar com quatro horas de programa transmitidas do Waldorf-Astoria para vinte e cinco estações.

Um microfone de mesa antigo, de disco metálico e haste curta, sozinho sobre pano escuro no centro de um salão vazio, sob luz âmbar rasante.

O microfone que ligou o país numa noite

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Uma estação de rádio dos anos 1920 tinha um alcance físico e um alcance comercial, e a distância entre os dois explica quase tudo o que aconteceu na indústria americana naquela década. O transmissor cobria um raio de algumas centenas de quilômetros em noite boa. O anunciante que pagava a conta queria falar com um país inteiro.

A solução técnica não estava no ar, estava no chão. Para duas estações tocarem o mesmo programa ao mesmo tempo, era preciso ligar uma à outra por linha telefônica de longa distância alugada, com qualidade de áudio suficiente para carregar música e não apenas voz. Quem tinha essa linha era a companhia telefônica, e não os donos de estação.

A American Telephone and Telegraph operava desde 1922 uma emissora própria em Nova York, a WEAF, e fez dela o laboratório da ideia. Em 1923 e 1924, a companhia começou a encadear estações por seus próprios cabos e a vender tempo de antena para anunciantes, cobrando por programa transmitido em rede. O termo da época era encadeamento, e a conta do aluguel de linha era o item mais pesado da operação.

Do outro lado da mesa estava a Radio Corporation of America, fabricante de aparelhos receptores, que mantinha a estação WJZ e queria a mesma capacidade sem depender de um concorrente para carregar o sinal. A disputa entre as duas empresas correu em arbitragem privada durante anos, girando em torno de quem tinha direito a vender publicidade por rádio e quem tinha direito a usar os cabos.

O acordo saiu em julho de 1926. A companhia telefônica vendeu a WEAF por um milhão de dólares, saiu do negócio de programação e ficou com o papel de fornecer as linhas alugadas, que era onde estava a receita recorrente. Em setembro, um anúncio de página inteira nos jornais americanos apresentou a empresa criada para operar o conjunto, com nome que dizia a ambição sem meias palavras.

A primeira página de hoje é a noite em que essa empresa entrou no ar pela primeira vez, o salão de baile que ela alugou para a ocasião e a conta que a nova operação apresentou ao país.

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I  A Primeira Página de Hoje

A noite em que um salão de baile virou o país inteiro

Na noite de segunda-feira, 15 de novembro de 1926, às oito horas, a National Broadcasting Company iniciou a transmissão de seu programa inaugural a partir do salão de baile do hotel Waldorf-Astoria, em Nova York. O programa durou quatro horas e foi levado ao ar simultaneamente por vinte e cinco estações espalhadas pelo território americano.

O salão recebeu cerca de mil convidados em traje de gala, e o custo da produção foi estimado em cinquenta mil dólares, valor sem paralelo para uma única noite de rádio até então. A audiência calculada pela empresa passava de doze milhões de pessoas, número que nenhuma sala de espetáculo do mundo era capaz de comportar.

A finalidade da National Broadcasting Company é fornecer os melhores programas disponíveis para transmissão nos Estados Unidos.

Radio Corporation of America, anúncio de lançamento da National Broadcasting Company, 1926

O cardápio da noite misturou registros deliberadamente. A Orquestra Sinfônica de Nova York tocou sob a regência de Walter Damrosch, o barítono Titta Ruffo cantou trechos de ópera, a banda de Edwin Franko Goldman executou marchas e três orquestras de dança se revezaram nos intervalos, entre elas as de Vincent Lopez e Ben Bernie.

A parte tecnicamente mais ousada da noite não aconteceu no Waldorf-Astoria. A soprano Mary Garden cantou de um estúdio em Chicago e o humorista Will Rogers falou de Kansas City, e as duas participações entraram no mesmo programa pelas linhas alugadas, provando na prática que a rede carregava som de qualidade de ponta a ponta do continente.

A ficha da transmissão, como a imprensa da semana a registrou:

Datasegunda-feira, 15 de novembro de 1926
Iníciooito horas da noite, em Nova York
Localsalão do hotel Waldorf-Astoria
Duraçãoquatro horas
Estações encadeadasvinte e cinco
Audiência estimadamais de doze milhões de ouvintes
Custo estimado da produçãocinquenta mil dólares

A dupla cômica Weber and Fields, veterana dos palcos de vaudeville, entrou no meio da programação e deu à noite o contraponto popular que a sinfônica não daria sozinha. A escolha era estratégica: a empresa precisava mostrar ao anunciante que a rede servia tanto para o assinante de ópera quanto para a família que ligava o aparelho depois do jantar.

O que ficou daquela noite não foi o repertório. Ficou a demonstração de que um programa único podia ser produzido num lugar só e consumido ao mesmo tempo em dezenas de cidades, o que transformava o rádio de curiosidade local em veículo nacional e criava, de uma vez, um mercado de anúncio que não existia na segunda-feira anterior.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Da estreia às três redes e à lei que veio depois

A rede inaugurada em novembro de 1926 se dividiu em duas antes de completar dois meses. Em janeiro de 1927, a empresa passou a operar dois encadeamentos separados, chamados internamente de Vermelho e Azul pela cor do lápis com que os engenheiros marcavam as rotas no mapa, com repertórios e listas de anunciantes distintas.

A separação tinha razão comercial simples. Duas redes vendiam dois horários nobres no mesmo minuto, e o anunciante que não cabia numa cabia na outra, com o mesmo parque de linhas alugadas sustentando as duas operações.

O sucesso da noite de novembro criou concorrência quase imediata. Em 1927 nasceu a United Independent Broadcasters, comprada no ano seguinte por William Paley e rebatizada como Columbia Broadcasting System, e o país passou a ter duas empresas disputando as mesmas estações afiliadas e os mesmos patrocinadores.

O Congresso americano reagiu ao adensamento do espectro. A Lei do Rádio de 1927 criou a Comissão Federal do Rádio, com poder de conceder e revogar licenças e de arbitrar frequências, encerrando o período em que estações se instalavam onde queriam e se sobrepunham no dial das cidades grandes.

A década seguinte consolidou o modelo. O programa patrocinado por uma marca única virou padrão, a agência de publicidade passou a produzir o conteúdo em vez de apenas comprar o espaço, e o horário nobre da noite se organizou em blocos de quinze e trinta minutos que sobreviveriam intactos à chegada da televisão.

A concentração acabou revertida por decisão do governo. Em 1941, a comissão reguladora publicou regras sobre encadeamento que proibiam uma mesma empresa de operar duas redes nacionais, a decisão foi confirmada pela Suprema Corte em 1943, e a rede Azul foi vendida naquele ano ao empresário Edward Noble por oito milhões de dólares, passando a se chamar American Broadcasting Company em 1945.

Tenho em mente um plano de desenvolvimento que faria do rádio um utensílio doméstico, no mesmo sentido em que o piano e o fonógrafo são.

David Sarnoff, memorando interno da Radio Corporation of America, 1920

A previsão do memorando se cumpriu por um caminho que ele não descrevia. O aparelho virou móvel de sala, como estava escrito, mas a receita não veio da venda do receptor e sim da venda do tempo entre as músicas, e a empresa que fabricava rádios acabou ganhando mais dinheiro com a programação que os enchia.

O salão do Waldorf-Astoria, cenário da estreia, foi demolido em 1929 para dar lugar ao edifício Empire State. O hotel reabriu em outro endereço dois anos depois, e a rede que nasceu naquele salão continuou no ar por décadas, com a transmissão de novembro de 1926 tratada desde cedo como marco zero do rádio comercial em rede.

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame do receptor, da válvula e do alto-falante

A página: enquanto Nova York enchia um salão de baile, os jornais brasileiros de novembro de 1926 vendiam nas páginas de anúncios exatamente o equipamento necessário para participar de uma noite dessas. Casas importadoras do Rio e de São Paulo anunciavam receptores de válvula, antenas de fio e baterias de acumulador.

O anúncio: o produto em ascensão era o alto-falante. Até ali, ouvir rádio significava dividir dois fones de cabeça entre duas pessoas, e o reclame das casas do ramo passou a destacar o cone que enchia a sala inteira, com a promessa implícita de que a família ouvia junto em vez de revezar o aparelho.

A coluna: ao redor vinham os anúncios do mesmo bolso, a vitrola de manivela com discos importados, o piano em prestações, a assinatura da revista ilustrada, o curso de eletricidade por correspondência e o serviço de instalação de antena no telhado, oferecido por técnico que ia até a residência.

A conta de um ouvinte brasileiro de cidade grande, em novembro de 1926, cabia em poucas linhas:

Exemplar avulso de jornal diáriocerca de 200 réis
Receptor de galena com fonedezenas de mil réis
Receptor de válvula com alto-falantecentenas de mil réis
Válvula de reposição, unidadealguns mil réis
Bateria de acumuladordezenas de mil réis
Mensalidade da Rádio Sociedadealguns mil réis

O Brasil ouvia rádio por outro arranjo. As emissoras nacionais eram sociedades de sócios contribuintes, herdeiras do modelo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro fundada em 1923, e se sustentavam por mensalidade de associado e doação, porque a publicidade em antena só seria regulamentada no país no fim da década.

A diferença aparecia no repertório. Uma emissora mantida por sócios tocava conferência científica, ópera e música erudita, porque respondia a quem pagava a mensalidade. Uma rede mantida por anunciante precisava do maior número possível de ouvintes por minuto, e por isso colocava vaudeville entre a sinfônica e a ópera na noite de estreia.

O reclame do alto-falante, lido assim, é o retrato mais honesto da virada. O aparelho deixou de ser instrumento de escuta individual e virou móvel de sala coletiva, e a partir do momento em que a família inteira ficava sentada diante do cone, ficou claro para quem vendia sabonete que ali havia uma plateia esperando sem sair de casa.

O que a noite de novembro provou não foi que o rádio alcançava longe. Provou que o mesmo minuto podia ser vendido para o país inteiro de uma vez, e todo o negócio de comunicação de massa do século seguinte foi construído em cima dessa conta.

"Vale mais um veículo sustentado por quem escuta ou um veículo sustentado por quem anuncia?"

 
 
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Na noite de estreia da NBC, em 15 de novembro de 1926, quantas estações transmitiram o programa do Waldorf-Astoria ao mesmo tempo?

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B25 estações
C40 estações
D60 estações

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