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Black Bottom Stomp

Em 15 de setembro de 1926, Jelly Roll Morton reúne os Red Hot Peppers num estúdio de Chicago e grava um disco de três minutos para a Victor.

Disco de 78 rotações no prato de um fonógrafo de madeira em estúdio vazio.

Estúdio de gravação em Chicago, setembro de 1926

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A Victor Talking Machine Company contratou o pianista Ferdinand Joseph LaMothe, conhecido como Jelly Roll Morton, e abriu o próprio estúdio de Chicago para ele em setembro de 1926, segundo os livros de matrizes da gravadora reproduzidos no Discography of American Historical Recordings, projeto da Universidade da Califórnia em Santa Barbara. Doze anos mais tarde, o mesmo músico escrevia à revista Down Beat, em agosto de 1938, cobrando o crédito de ter criado o jazz e reclamando de direitos autorais que não chegavam à conta dele, nas cartas hoje guardadas junto às gravações que Alan Lomax fez com ele para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

Um contrato com a maior fabricante de discos do país e um autor que aos 47 anos precisa escrever para uma revista pedindo o próprio nome de volta descrevem a mesma carreira. Os dois registros existem, estão datados e nenhum dos dois cancela o outro.

Ferdinand Joseph LaMothe nasceu em Nova Orleans em 20 de outubro de 1890, tocou piano nos salões de Storyville ainda adolescente, rodou o país no vaudeville e registrou a partitura de Jelly Roll Blues no escritório de direitos autorais americano em 1915. Em 1923 e 1924 já tinha gravado em Richmond, Indiana, para a pequena Gennett.

Chicago mudou a escala do trabalho. A cidade concentrava os músicos de Nova Orleans que subiram o rio depois do fechamento de Storyville em 1917, e a Victor mantinha estúdio montado no Webster Hotel, na Lincoln Park West, para gravar as orquestras da região sem mandá-las a Camden, em Nova Jérsei. Morton chegou com o contrato assinado, com os arranjos escritos e com uma exigência pouco comum na indústria: ensaio pago antes de queimar cera.

A primeira página de hoje traz a tarde de trabalho no estúdio, os sete nomes na sala, as peças gravadas e o que a Victor imprimiu na etiqueta do disco.

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I  A Primeira Página de Hoje

Sete músicos e a matriz 36239

A sessão aconteceu na quarta-feira, 15 de setembro de 1926, no estúdio que a Victor operava dentro do Webster Hotel, em Chicago, e produziu três matrizes de cera numa tarde: Black Bottom Stomp, Smoke House Blues e The Chant, conforme as fichas de matriz catalogadas no Discography of American Historical Recordings. Era a estreia do grupo que Morton batizou de Red Hot Peppers, montado peça por peça para aquele contrato.

O pianista escolheu conterrâneos de Nova Orleans radicados em Chicago. George Mitchell no cornetim, Edward Kid Ory no trombone, Omer Simeon no clarinete, Johnny St. Cyr no banjo, John Lindsay no contrabaixo de cordas, Andrew Hilaire na bateria e Morton ao piano formavam sete instrumentos, número pequeno o bastante para caber num único microfone e grande o bastante para sustentar três naipes.

O método de Morton contrariava o costume das gravadoras. Ele pagava os ensaios do próprio bolso, levava as partes escritas, marcava quantos compassos cada solista teria e deixava a improvisação apenas nos trechos que tinha reservado para ela. Johnny St. Cyr contou a Alan Lomax que o pianista permitia liberdade ao músico desde que a liberdade coubesse no lugar combinado.

A peça gravada naquela tarde tinha estrutura de rag (música escrita em partes contrastantes, como as marchas), com dois temas em tonalidades diferentes e sete variações sobre o segundo, cada uma entregue a um instrumento. O nome vinha da dança black bottom, popular nos palcos americanos em 1926, e Morton já registrara a música em 1925 com outro título, Queen of Spades. O lado do disco ficou em pouco mais de três minutos, limite físico do 78 rotações de dez polegadas.

A ficha da sessão e do disco:

Data da gravação: quarta-feira, 15 de setembro de 1926
Local: estúdio da Victor no Webster Hotel, em Chicago
Grupo creditado na etiqueta: Jelly Roll Morton's Red Hot Peppers
Músicos na sala: sete, incluindo o pianista
Peças gravadas na tarde: Black Bottom Stomp, Smoke House Blues e The Chant
Matriz de Black Bottom Stomp: 36239
Disco lançado pela Victor: 20221, com The Chant no outro lado
Duração do lado gravado: cerca de três minutos

A técnica do dia também era nova. A Victor tinha licenciado da Western Electric o processo de gravação elétrica em 1925, e o microfone substituiu a corneta acústica. O contrabaixo de cordas de John Lindsay aparece audível no disco por causa da mudança: no sistema antigo, a tuba fazia o baixo porque o sopro marcava a cera e a corda não marcava.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do contrato da Victor ao arquivo da Biblioteca do Congresso

Morton voltou ao mesmo estúdio de Chicago em 21 de setembro de 1926 e gravou mais três peças com a mesma formação, entre elas Grandpa's Spells e Original Jelly Roll Blues. A Victor manteve o contrato por quatro anos e registrou cerca de cinco dezenas de faces com os Red Hot Peppers, em Chicago, Camden e Nova York.

A mudança para Nova York, em 1928, tirou o pianista do banco de músicos que ele conhecia. Os conterrâneos de Nova Orleans ficaram em Chicago, as orquestras grandes de Fletcher Henderson e Duke Ellington redefiniram o gosto do público de dança, e o arranjo de sete instrumentos com partes escritas passou a soar antiquado.

A queda da bolsa de Nova York, em outubro de 1929, fechou a torneira do negócio. A Radio Corporation of America comprou a fabricante em 1929, a Victor encerrou o contrato de Morton em 1930 e a venda de discos nos Estados Unidos despencou, com as gravadoras cortando catálogo e dispensando artistas de vendas médias.

O que veio depois, ano a ano:

1926: sessões de setembro e dezembro em Chicago, com os Red Hot Peppers no contrato da Victor
1928: Morton transfere a base de trabalho para Nova York
1930: última sessão do contrato com a Victor
1935: o pianista passa a administrar e tocar no clube Jungle Inn, em Washington
1938: gravações com Alan Lomax na Biblioteca do Congresso, entre maio e dezembro, com relato falado e tocado da história do jazz
1938: cartas à revista Down Beat reivindicando a autoria de peças e a criação do estilo
1939: sessões finais em Nova York para a Bluebird e para o selo General
1941: fim da vida do músico em Los Angeles, em 10 de julho, aos 50 anos
1948: a Circle Records publica em disco o material gravado por Lomax

A briga por dinheiro tem origem documentada. Morton publicou boa parte do catálogo pela Melrose Brothers Music Company, de Chicago, e sustentou até o fim que os royalties não chegavam inteiros a ele. A ASCAP, entidade americana que arrecada direitos de execução, só aceitou o nome dele no quadro de compositores em 1939, com a carreira comercial já encerrada.

Convém separar o que ficou certo do que ficou em aberto. Matrizes, contratos e créditos de etiqueta estão nos arquivos da Victor e no catálogo da Biblioteca do Congresso, e por eles se sabe quem tocou, quando e o que foi pago de cachê. Quanto Morton deixou de receber em royalties nunca foi apurado por levantamento público: quem afirma um número para essa perda está estimando.

 

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III  O Anúncio da Página 3

A vitrola ortofônica e o disco de 75 centavos

A página: os diários de Chicago de setembro de 1926 vendiam colunas inteiras para o comércio de música. O Chicago Daily Tribune e o Chicago Daily News cobriam a cidade branca do Loop, e o Chicago Defender, semanário fundado por Robert Sengstacke Abbott em 1905 e lido pela população negra da cidade e do sul do país, trazia a agenda dos cabarés da Stroll, o trecho da State Street onde tocavam Louis Armstrong, King Oliver e os músicos da sessão da Victor.

O anúncio: o aparelho de som doméstico ocupava o espaço nobre. A Victor lançara em novembro de 1925 a Orthophonic Victrola, gabinete de madeira com corneta dobrada projetada para o novo processo elétrico, e anunciava o modelo em página inteira. A Brunswick respondia com o Panatrope, primeiro fonógrafo elétrico de amplificação a válvula, e a Columbia vendia o processo Viva-tonal. A troca de vitrola em casa movia mais dinheiro que a venda de disco avulso.

A coluna: o resto da página pertencia a quem fabricava o que se ouvia. Lyon and Healy vendia piano e instrumento de sopro na Wabash Avenue, a Ludwig and Ludwig anunciava bateria fabricada em Chicago, a Conn e a Buescher ofereciam saxofone pelo correio com lição por correspondência, e a Melrose Brothers Music Company, na West Madison, anunciava a partitura dos stomps que as orquestras de dança queriam tocar. As gravadoras dividiam o leitor com os fabricantes de receptor de rádio, concorrente que entregava música sem cobrar por disco.

A ficha da imprensa e do reclame de Chicago no período, item por item:

Diários de circulação geral na cidadeChicago Daily Tribune e Chicago Daily News
Semanário da população negra, fundado por Robert Sengstacke AbbottChicago Defender
Gabinete de som anunciado pela VictorOrthophonic Victrola, no mercado desde novembro de 1925
Resposta elétrica da concorrênciaPanatrope, da Brunswick, e o processo Viva-tonal, da Columbia
Casa de instrumentos na Wabash AvenueLyon and Healy
Bateria fabricada na cidadeLudwig and Ludwig
Sopros vendidos pelo correioConn e Buescher, com lição por correspondência
Editora das partituras de MortonMelrose Brothers Music Company, na West Madison
Preço de etiqueta do disco popular da Victor no catálogo de 192675 centavos de dólar

O comércio de disco era segmentado por cor do comprador. As gravadoras mantinham séries chamadas race records, discos de artistas negros vendidos à clientela negra, com numeração própria e anúncio semanal no Defender. Morton entrou pela série popular comum da Victor, decisão comercial que a etiqueta registra.

O reclame explica por que a gravadora bancou ensaio. A Victor precisava de material novo para justificar a troca do gabinete antigo pela vitrola ortofônica na sala americana, e um conjunto pequeno e ensaiado soava melhor no aparelho recém-comprado. A execução limpa da tarde de 15 de setembro servia à venda de móvel tanto quanto à venda de música.

O registro do caso continua público e datado. A ficha da matriz 36239, com a data da sessão e a lista de músicos, fica no Discography of American Historical Recordings da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, e o material falado e tocado por Morton em 1938 fica no catálogo da American Folklife Center, na Biblioteca do Congresso. Reconfira as duas páginas em 15 de setembro de 2026, centenário da sessão, e compare a ficha de músicos publicada hoje com os créditos impressos na etiqueta do disco Victor 20221.

"Quanto de um disco de três minutos é liberdade do músico e quanto é ensaio pago na véspera?"

 
 

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Por que o contrabaixo de cordas de John Lindsay aparece audível no disco de Black Bottom Stomp?

APorque a Victor usou um modelo de contrabaixo elétrico especial na sessão
BPorque a gravação elétrica com microfone substituiu o sistema acústico de corneta, que exigia tuba pra marcar o baixo
CPorque Morton já tinha banido a tuba dos arranjos desde as sessões de Nova Orleans
DPorque o estúdio do Webster Hotel era maior e amplificava naturalmente o som das cordas

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