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Bomba sob os trilhos de Huanggutun atinge o trem de Zhang Zuolin em 4/6/1928

O Exército japonês culpa bandidos chineses, e a autoria própria só aparece no tribunal de Tóquio, em 1946.

Trilhos retorcidos sob uma ponte ferroviária de ferro.

Huanggutun, perto de Mukden, 4 de junho de 1928

▼
 

Em 4/6/1928, o Exército de Kwantung, a guarnição japonesa na Manchúria, atribuiu a explosão de Huanggutun a bandidos chineses. Em julho de 1946, diante do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, em Tóquio, o general japonês Ryukichi Tanaka depôs que a bomba saiu do próprio Exército de Kwantung.

As duas versões falam do mesmo trem, da mesma ponte e da mesma madrugada. Durante 18 anos, só a primeira teve carimbo oficial.

O trem vinha de Pequim. Tinha partido na madrugada de 3 de junho, levando o marechal que governava o norte da China e boa parte do seu estado-maior.

Pouco depois das 5h20 do dia 4, o comboio passou sob a ponte da Ferrovia do Sul da Manchúria, linha controlada pelo Japão, no cruzamento de Huanggutun. Faltavam poucos quilômetros para Mukden, a atual Shenyang.

A carga explosiva estava presa às vigas da ponte, acima dos trilhos chineses. A explosão derrubou a estrutura de ferro sobre os vagões do meio, onde viajava o marechal.

Wu Junsheng, governador da província de Heilongjiang, que embarcara no caminho para acompanhar o chefe, não sobreviveu. O marechal foi levado ainda com vida para a residência oficial, em Mukden, e não resistiu aos ferimentos naquele mesmo dia.

A família escondeu o desfecho. Por quase três semanas, boletins diziam que o marechal se recuperava, enquanto o filho mais velho voltava às pressas do front para assumir o comando.

Do lado japonês, o relatório veio rápido. Soldados da guarda da ponte apresentaram os corpos de dois chineses mortos a tiros na hora do ataque, com papéis no bolso que os ligavam ao exército nacionalista do sul.

Ninguém fora do círculo do Exército de Kwantung sabia de onde tinham saído aqueles corpos. A investigação chinesa não tinha acesso à ponte, que ficava em terreno sob guarda japonesa.

A primeira página conta quem era o marechal e por que o trem dele virou alvo.

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I  A Primeira Página de Hoje

O marechal que voltava para casa

Zhang Zuolin, chamado de Velho Marechal (Lao Shuai, em chinês), chefiava a camarilha de Fengtian (o grupo militar que dominava as três províncias da Manchúria). Em 1928, ocupava em Pequim o posto de generalíssimo do governo de Beiyang (o governo do norte, reconhecido no exterior).

Tinha começado a carreira como chefe de bando armado nos últimos anos do século 19. Lutou ao lado dos japoneses na guerra contra a Rússia, em 1904 e 1905, e subiu por alianças até controlar a região inteira.

O Japão via em Zhang Zuolin um sócio útil. Ele garantia ordem ao longo da Ferrovia do Sul da Manchúria, que a empresa japonesa operava desde 1906, e deixava os investimentos japoneses em paz.

Em troca, recebia armas, conselheiros militares e a tolerância de Tóquio às suas campanhas ao sul da Grande Muralha, onde disputava Pequim com outros chefes militares desde o começo da década.

A sociedade azedou na década de 1920. Zhang Zuolin passou a financiar ferrovias chinesas paralelas às japonesas e a recusar novas concessões que Tóquio pedia.

Em 1928, a Expedição do Norte, campanha do Kuomintang (o Partido Nacionalista chinês) para reunificar o país, avançava sobre Pequim. O governo do primeiro-ministro japonês Giichi Tanaka aconselhou o marechal a recuar para a Manchúria antes de perder o exército.

Tóquio queria Zhang Zuolin de volta a Mukden, vivo e enfraquecido; parte da guarnição japonesa na Manchúria o queria fora do tabuleiro.

O coronel Daisaku Komoto, oficial de estado-maior do Exército de Kwantung, achava que o marechal tinha deixado de servir. Sem ele, calculava, a Manchúria cairia em desordem, e a guarnição teria pretexto para ocupar a região.

Komoto preparou o atentado com um pequeno grupo de oficiais. O capitão Kaneo Tomiya, que comandava a guarda daquele trecho, ficou encarregado de acionar a carga quando o trem passasse.

O ponto foi escolhido pela geografia da ferrovia. Em Huanggutun, a linha chinesa de Pequim a Mukden passava por baixo da linha japonesa, e a ponte ficava dentro da faixa vigiada por soldados do Japão.

Os dois corpos do relatório completavam o roteiro. Segundo o depoimento de Ryukichi Tanaka em 1946, eram homens recrutados para a encenação e executados no local, para dar rosto chinês ao ataque.

O plano de ocupação, porém, não andou. O filho do marechal manteve a tropa disciplinada, a Manchúria não entrou em caos, e o Exército de Kwantung ficou sem motivo para marchar.

A cronologia do atentado:

3/6/1928: trem deixa Pequim
4/6/1928, 5h20: explosão em Huanggutun
4/6/1928: Zhang Zuolin não resiste
21/6/1928: família anuncia o desfecho
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do relatório falso ao tribunal

O filho mais velho, Zhang Xueliang, assumiu o comando da Manchúria aos 27 anos. Os japoneses o tratavam como herdeiro fácil de dobrar.

Em 29/12/1928, ele fez o oposto. Mandou trocar as bandeiras da camarilha de Fengtian pela bandeira do governo nacionalista de Nanquim, e a Manchúria entrou formalmente na China reunificada.

Em Tóquio, o primeiro-ministro Giichi Tanaka prometeu ao imperador Hirohito punir os responsáveis. O Exército fechou questão em defesa dos seus oficiais e barrou um julgamento em corte marcial.

O caso ganhou nome de código na imprensa japonesa: Manshu bo judai jiken (um certo incidente grave na Manchúria). Os jornais não podiam escrever o que tinha acontecido nem quem tinha feito.

Komoto recebeu só uma punição administrativa, por falha na guarda da ferrovia, e foi transferido para a reserva. Nenhum oficial envolvido sentou no banco dos réus no Japão. Hirohito repreendeu o primeiro-ministro pela promessa descumprida, e o gabinete Tanaka renunciou em 2/7/1929.

A bomba de 1928 não ganhou a Manchúria para o Exército de Kwantung, mas ensinou que um atentado com autoria falsa podia sair sem castigo.

Em 18/9/1931, oficiais da mesma guarnição explodiram um trecho da Ferrovia do Sul da Manchúria em Liutiaohu, perto de Mukden, e de novo culparam soldados chineses. Dessa vez a ocupação veio, e em 1/3/1932 nasceu o Manchukuo, Estado fantoche controlado pelo Japão.

A versão oficial de 1928 sobreviveu à guerra inteira. Só caiu depois da rendição japonesa, quando os Aliados montaram o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, conhecido como Tribunal de Tóquio.

Ryukichi Tanaka, general que tinha servido no serviço secreto do Exército, depôs como testemunha de acusação. Contou que o atentado de Huanggutun foi planejado por Komoto dentro do Exército de Kwantung, com a encenação dos dois corpos.

Komoto não estava entre os réus. Depois da reserva, trabalhou em empresas japonesas na China, foi preso pelos comunistas chineses em 1949 e passou o resto da vida detido em Taiyuan, onde faleceu em 1955.

A cronologia depois da bomba:

29/12/1928: Manchúria troca de bandeira
2/7/1929: gabinete Tanaka renuncia
18/9/1931: explosão de Liutiaohu
Julho de 1946: depoimento em Tóquio
 

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III  O Anúncio da Página 3

Um certo incidente grave

A página: os jornais chineses de junho de 1928 noticiaram a explosão e, por semanas, publicaram os boletins da família sobre a saúde do marechal. Quando o desfecho saiu, em 21 de junho, a autoria ainda era disputa de versões.

A coluna: no Japão, a censura militar deixou só o código. Leitores de Tóquio e Osaka liam sobre um incidente grave sem lugar, sem vítima nomeada e sem culpado.

O anúncio: o comunicado do Exército de Kwantung trazia os dois corpos e os papéis no bolso como prova. Diplomatas estrangeiros em Mukden desconfiaram desde o início, porque a ponte ficava sob guarda japonesa.

Zhang Xueliang nunca aceitou a versão dos bandidos. Viveu até 2001 e, em entrevistas dadas já idoso, apontou o Exército japonês como responsável pela bomba que atingiu o pai.

O próprio Komoto deixou relato do atentado durante a detenção na China. O texto confirma a autoria e acrescenta detalhes técnicos, mas diverge do depoimento de Tanaka em pontos menores.

O que não se sabe com precisão é a quantidade de explosivo usada. Os relatos de Komoto e dos oficiais envolvidos dão números diferentes, e não sobrou registro de inventário da carga.

O número exato de vítimas no trem também varia entre as fontes chinesas e japonesas da época, porque a lista de passageiros do comboio nunca foi publicada completa.

Também segue em debate se o comando do Exército em Tóquio sabia do plano antes de 4 de junho. Komoto sustentou que agiu por conta própria, e nenhum documento achado até hoje prova ordem vinda de cima.

Sobrou a ponte. O cruzamento das duas ferrovias continuou em uso, e o local virou ponto de memória em Shenyang, com marco que lembra a explosão.

A ficha da última página:

Data: 4/6/1928
Local: Huanggutun, Mukden
Alvo: Zhang Zuolin
Autor: Daisaku Komoto
Versão oficial: bandidos chineses
Autoria revelada: Tóquio, 1946

“Quanto tempo uma versão oficial precisa durar para virar história aceita?”

O centenário da explosão cai em 4/6/2028, um domingo: nesse dia, reconfira o depoimento de Ryukichi Tanaka nas transcrições do Tribunal de Tóquio, no acervo digital da Biblioteca de Direito da Universidade da Virgínia (imtfe.law.virginia.edu).

 
 
Quiz da edição

No depoimento de julho de 1946 ao Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, em Tóquio, quem revelou que a bomba de Huanggutun saiu do próprio Exército de Kwantung?

ADaisaku Komoto, coronel que planejou o atentado
BGiichi Tanaka, primeiro-ministro japonês
CRyukichi Tanaka, general do serviço secreto do Exército
DZhang Xueliang, filho do marechal

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