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Cinco Mil Cópias e uma Geração Batizada
Em 22 de outubro de 1926, a Scribner's põe nas livrarias de Nova York O Sol Também se Levanta, primeiro romance de um repórter de 27 anos.
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O romance antes da remessa às livrarias
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Em julho de 1925, um correspondente americano de 26 anos estava sentado num quarto de hotel em Valência esperando a festa de touros começar. Ele escrevia despachos para jornais de Toronto, morava em Paris com a mulher e um filho pequeno, e tinha publicado dois volumes finos de contos que juntos não haviam vendido mil exemplares.
O caderno que ele abriu naquela semana virou romance em oito semanas. O primeiro rascunho ficou pronto em 21 de setembro de 1925, escrito em cadernos escolares franceses, a lápis, em Valência, Madri, Hendaia e por fim num apartamento acima de uma serraria da rue Notre Dame des Champs, com a serra circular gritando embaixo o dia inteiro.
O que travava a publicação não era o texto, era um contrato. A editora Boni and Liveright tinha direito de preferência sobre os três livros seguintes do autor, e a única cláusula de escape era a recusa: se a casa dispensasse um original, o vínculo caía inteiro.
A saída foi escrita de propósito. Em dez dias de janeiro de 1926 saiu uma novela curta chamada Torrentes de Primavera, sátira ao estilo de Sherwood Anderson, que era o autor mais rentável da própria Liveright. A editora recusou por telegrama em dezembro daquele ciclo, exatamente como se esperava, e o contrato evaporou.
Do outro lado do Atlântico havia um editor esperando. Maxwell Perkins, da Charles Scribner's Sons, vinha sendo alimentado com recados de F. Scott Fitzgerald sobre um repórter em Paris que valia a viagem, e assinou os dois livros no mesmo pacote assim que a porta abriu.
O manuscrito ainda encolheu antes da gráfica. Fitzgerald leu as provas em junho de 1926 e mandou uma carta de dez páginas dizendo que os primeiros capítulos eram fofoca de bar disfarçada de literatura. O autor cortou as primeiras dezesseis páginas datilografadas e passou a abrir o livro na frase seca sobre um sujeito chamado Robert Cohn ter sido campeão de boxe de peso médio em Princeton.
A primeira página de hoje é o dia em que esse pacote chegou às livrarias de Nova York, com preço de capa, tiragem contada e uma epígrafe de quatro palavras que virou nome de época.
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I A Primeira Página de Hoje
Dois dólares na vitrine da Quinta Avenida
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Na sexta-feira, 22 de outubro de 1926, a Charles Scribner's Sons pôs à venda O Sol Também se Levanta, romance de estreia de um autor de 27 anos, com tiragem inicial de 5.090 exemplares e preço de capa de dois dólares.
O livro chegava embrulhado numa sobrecapa de fundo creme com desenho de uma mulher sentada, túnica clássica, uma maçã na mão e uma cesta de frutas caída ao lado, imagem que sugeria colheita e queda ao mesmo tempo e não trazia arma, touro nem cena de festa.
A abertura era um par de epígrafes. A primeira, atribuída a uma conversa de garagem em Paris e repassada por Gertrude Stein, dizia que todos vocês são uma geração perdida. A segunda vinha do Eclesiastes e falava de gerações que passam enquanto a terra permanece, com a frase sobre o sol que se levanta e se põe e corre de volta ao lugar de onde nasceu.
A dedicatória era doméstica: para Hadley Richardson e para John Hadley Nicanor, mulher e filho do autor.
A ficha do lançamento, como o catálogo da editora a registrou:
| Data | sexta-feira, 22 de outubro de 1926 | | Editora | Charles Scribner's Sons, Nova York | | Primeira tiragem | 5.090 exemplares | | Preço de capa | dois dólares | | Idade do autor | 27 anos | | Tempo do primeiro rascunho | oito semanas |
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Um repórter que ganhava por matéria enviada e devia dinheiro a metade dos amigos de Paris entrava na vitrine da Quinta Avenida cobrando dois dólares por um romance sem enredo de aventura, sem herói e sem uma única frase decorativa.
A história dentro do volume era curta de acontecimento e longa de convivência. Um jornalista americano ferido na guerra, uma inglesa que ele ama e não pode ter, um credor escocês, um escritor judeu americano humilhado pelo grupo e um toureiro de dezenove anos atravessam a festa de São Firmino em Pamplona bebendo, discutindo e voltando para casa piores do que chegaram.
A frase era a novidade maior que o enredo. O autor tinha aprendido na redação do Kansas City Star a regra de usar sentenças curtas, primeiro parágrafo curto, inglês vigoroso e nunca adjetivo enfeitando substantivo, e aplicou a regra de despacho de agência a um romance inteiro.
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Escreva a frase mais verdadeira que você conhece.
Ernest Hemingway, Paris é uma Festa, 1964
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A crítica de Nova York entendeu o tamanho da mudança em poucas semanas. O suplemento de livros do New York Times chamou o livro de história de agarrar o leitor, os resenhistas repetiram a palavra dureza para descrever o estilo, e a segunda tiragem foi encomendada ainda em novembro, menos de um mês depois da estreia.
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II O Que Aconteceu Depois
O que as 5.090 cópias compraram até 1929
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A tiragem de estreia se esgotou tão rápido que a editora rodou impressão nova em novembro e outra em dezembro, e no fim de 1927 o romance já passava de vinte mil exemplares vendidos nos Estados Unidos.
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Em 1927 o livro cruzou o Atlântico com outro nome. A editora inglesa Jonathan Cape publicou o romance em Londres com o título Fiesta, porque a citação bíblica não funcionava na vitrine britânica, e a Europa passou a conhecer o livro por esse nome até hoje.
O dinheiro do romance foi entregue de presente. Quando o casamento com Hadley terminou em 1927, o autor cedeu a ela todos os direitos autorais do livro, de modo que a obra que batizou uma geração pagou as contas da primeira mulher pelo resto da vida dela.
Os amigos de Pamplona pagaram outro preço. Harold Loeb, Duff Twysden, Pat Guthrie e o grupo inteiro da viagem de 1925 se reconheceram nos personagens com nomes trocados, o círculo se desfez, e Loeb passou décadas escrevendo memórias para explicar que não era o Robert Cohn do livro.
A carreira, essa, decolou em linha reta. Contos reunidos saíram em 1927, e em 1929 o romance de guerra Adeus às Armas vendeu dezenas de milhares de exemplares nos primeiros meses e transformou um autor de vanguarda parisiense em nome de lista de mais vendidos americana.
O estilo virou norma de redação. A frase curta, o diálogo sem explicação e a recusa de dizer ao leitor o que sentir viraram o padrão da prosa americana do século, copiado em romance policial, em reportagem de revista e em manual de redação de jornal, e continuou rendendo prêmio ao autor com o Pulitzer de 1953 e o Nobel de 1954.
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A dignidade do movimento de um iceberg está em que apenas um oitavo dele fica acima da água.
Ernest Hemingway, Morte à Tarde, 1932
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Pamplona sentiu o efeito no caixa. A festa de São Firmino era romaria regional de julho e virou destino internacional depois do livro, com onda de visitantes americanos e ingleses a partir dos anos trinta e multidões de centenas de milhares nas décadas seguintes, todas atrás de uma cidade que aprenderam num romance.
Vale medir o intervalo. Entre o caderno aberto em Valência e o autor consagrado por Adeus às Armas passaram quatro anos, e o que estava em jogo em outubro de 1926 era só saber se cinco mil cópias sairiam da prateleira ao preço de dois dólares.
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