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Em 1926, Max Brod publica O Castelo de Kafka

O romance inacabado do agrimensor K. sai em Munique, contra o pedido escrito do autor para queimar tudo

Caderno manuscrito aberto ao lado de uma vela apagada.

Manuscrito de O Castelo, Planá, 1922

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Em 1924, Max Brod encontrou na escrivaninha de Franz Kafka dois bilhetes endereçados a ele, pedindo para queimar todos os manuscritos sem ler. Em 1926, a editora Kurt Wolff, de Munique, pôs nas livrarias um romance de Kafka com mais de quatrocentas páginas, montado por Brod a partir desses mesmos papéis (os dois fatos estão no posfácio de Brod à primeira edição de O Castelo).

Kafka passou a vida adulta em Praga, cidade do império austro-húngaro até 1918 e capital da Tchecoslováquia depois. Trabalhava de dia num instituto de seguros contra acidentes de trabalho e escrevia à noite, em alemão, numa cidade onde a maioria falava tcheco.

Em vida, publicou pouco. Saíram A Metamorfose, O Julgamento, Na Colônia Penal e algumas coletâneas de contos curtos, quase sempre em tiragens pequenas. Os três romances que começou ficaram na gaveta, nenhum terminado.

A tuberculose apareceu em 1917. Em 1922, doente, ele se aposentou do instituto. Em junho de 1924, no sanatório de Kierling, perto de Viena, a doença venceu. Kafka tinha 40 anos.

Brod era amigo dele desde 1902, quando os dois se conheceram numa palestra de estudantes em Praga. Escritor mais conhecido que Kafka na época, foi ele quem levou os primeiros textos do amigo aos editores.

O primeiro bilhete, escrito a tinta, pedia que diários, manuscritos, cartas e desenhos fossem queimados por completo. O segundo, a lápis, era mais longo e listava as poucas obras publicadas que podiam ficar.

Brod contou depois que Kafka sabia da recusa. Anos antes, quando o amigo falou do pedido pela primeira vez, Brod respondeu que nunca o cumpriria.

Em 1925, saiu O Processo, pela editora Die Schmiede, de Berlim. O Castelo veio no ano seguinte, e América fecharia a série em 1927.

A primeira página conta como era o livro que chegou às livrarias em 1926, e o que ele escondia do leitor.

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I  A Primeira Página de Hoje

Um agrimensor na neve de Munique

O Castelo abre com um homem chegando de noite a uma aldeia coberta de neve. Ele se chama apenas K. e diz ter sido contratado como agrimensor pelo conde dono do castelo que domina o vilarejo.

Ninguém na aldeia confirma a contratação. O castelo responde por telefone com frases contraditórias, manda dois ajudantes que K. nunca viu e, de vez em quando, uma carta assinada por um alto funcionário chamado Klamm.

O livro inteiro acompanha as tentativas de K. de falar com Klamm ou de entrar no castelo. Nenhuma funciona. A cada capítulo, ele descobre uma camada nova de secretários, protocolos e intermediários.

O caderno de 1922

Kafka escreveu o romance em 1922, entre o fim de janeiro e o começo de setembro. Começou numa estação de montanha, em Spindlermühle, nos montes Gigantes, e parou em Planá, onde passava o verão com a irmã Ottla.

Os primeiros capítulos foram escritos na primeira pessoa. Depois de algumas páginas, Kafka riscou o "eu" e pôs "K." no lugar, e o resto seguiu na terceira pessoa.

Em setembro de 1922, ele escreveu a Brod dizendo que tinha abandonado a história e que não ia retomá-la. O manuscrito termina no meio de uma frase.

Brod publicou um livro que o autor tinha largado e mandado destruir, e o título saiu com o nome de Kafka na capa.

A montagem de Brod

Brod não tinha capítulos numerados nem índice. Tinha cadernos de capa dura, folhas soltas e trechos riscados. Decidiu a ordem, deu títulos a partes do texto e cortou o que achou mais solto.

Na primeira edição, o romance para antes do ponto onde o manuscrito para. Brod deixou de fora as últimas páginas e vários trechos riscados por Kafka, para dar ao leitor uma leitura mais corrida.

No posfácio, ele contou o fim planejado, que Kafka lhe dissera de viva voz. K. não desistiria e ficaria esgotado pela luta. No leito, chegaria do castelo a notícia de que ele podia viver e trabalhar na aldeia, sem direito pleno, por tolerância.

A capa e o preço

A Kurt Wolff já tinha publicado contos de Kafka antes de 1920. O nome dele circulava nos meios literários de língua alemã, mas o público grande não sabia quem ele era.

A primeira tiragem vendeu devagar. Os jornais de Praga e de Viena deram notas curtas, e as resenhas trataram o livro como estranho, preso a um sonho de repartição pública.

O próprio Brod, no posfácio, pedia ao leitor paciência com as lacunas. Escreveu que preferia entregar um romance incompleto a deixar o texto apodrecer numa gaveta, e assumiu sozinho a responsabilidade pela quebra da promessa.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do porão de Praga à mesa de Oxford

Em 1927, Brod publicou América, também pela Kurt Wolff. Os três romances estavam fora da gaveta. Entre 1935 e 1937, ele organizou as obras reunidas de Kafka para a editora Schocken, em Berlim e depois em Praga.

Nessa edição, O Castelo ganhou capítulos e trechos que Brod deixara de fora em 1926. O livro ficou mais longo e mais perto do manuscrito, mas a ordem ainda era a dele.

A mala de 1939

Em 15 de março de 1939, as tropas alemãs entraram em Praga. Na noite anterior, Brod pegou o último trem para a fronteira polonesa com a mulher e uma mala cheia de papéis de Kafka.

Ele seguiu para a Palestina sob mandato britânico e se instalou em Tel Aviv. Os manuscritos de O Processo e de O Castelo foram com ele. Em Tel Aviv, Brod seguiu editando, escrevendo sobre o amigo e respondendo a pesquisadores que queriam ver os cadernos originais, guardados em casa e depois num cofre de banco.

"Querido Max, meu último pedido: tudo o que deixo em diários, manuscritos, cartas e desenhos deve ser queimado por completo e sem ler." (Franz Kafka, bilhete a Max Brod, publicado no posfácio de O Processo, 1925)

O caminho até a Inglaterra

Em 1956, com a crise de Suez, Brod mandou boa parte dos manuscritos para um cofre em Zurique, por segurança. Em 1961, o pesquisador Malcolm Pasley, de Oxford, levou de carro os papéis de O Castelo de Zurique para a Bodleian Library.

As sobrinhas de Kafka, herdeiras dos direitos, viviam na Inglaterra. As herdeiras depositaram ali os manuscritos que lhes cabiam. O de O Processo ficou com Brod e seguiu outro caminho.

A edição crítica

Em 1982, a editora S. Fischer publicou a edição crítica de O Castelo, preparada por Pasley a partir do manuscrito de Oxford. O texto voltou à forma dos cadernos, com a ordem de Kafka e a frase final interrompida.

O leitor passou a ver o romance como ele ficou na mesa em setembro de 1922. A diferença para a edição de 1926 chega a dezenas de páginas, entre trechos restaurados e cortes desfeitos.

O resto do espólio de Brod, guardado em Tel Aviv, entrou numa disputa judicial longa. Em 2016, a Suprema Corte de Israel decidiu que os papéis deviam ir para a Biblioteca Nacional do país, em Jerusalém.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Uma aldeia sem nome nas resenhas de 1926

A página: a imprensa de língua alemã recebeu O Castelo como obra póstuma de um autor de nicho. As notas citavam O Processo, lançado no ano anterior, e tratavam os dois livros como uma dupla de pesadelos burocráticos.

A coluna: os críticos de Praga liam o livro como retrato da cidade. Viam no castelo a administração do velho império austro-húngaro, desmontado oito anos antes, e na aldeia a vida de um funcionário de seguros.

O anúncio: a Kurt Wolff vendia o volume ao lado de autores mais conhecidos do catálogo. O nome de Kafka entrava em listas de lançamentos, sem destaque, em letra do mesmo tamanho dos outros.

Na Tchecoslováquia, o livro em alemão chegava a uma minoria de leitores. A primeira tradução para o tcheco só apareceria décadas depois, e a cidade onde o romance nasceu demorou a lê-lo na própria língua.

O livro que o autor mandou queimar chegou às vitrines de Munique ao lado de títulos que ninguém mais lê.

A tradução dos Muir

Em 1930, Willa e Edwin Muir publicaram em Londres a primeira tradução de O Castelo para o inglês. A versão deles levou Kafka ao público de língua inglesa antes de quase todo o resto da obra.

Os Muir traduziram a edição de Brod, com os cortes de 1926. Durante décadas, o leitor inglês conheceu um romance mais curto e mais redondo que o manuscrito.

O que a página não mostrava

As resenhas de 1926 não falavam dos bilhetes. A história do pedido para queimar já estava no posfácio de O Processo, mas quase nenhum jornal a tratou como notícia.

Também ficou fora das páginas a irmã Ottla, que hospedou o irmão em Planá no verão do livro. O nome dela não aparece nas resenhas, e o castelo nasceu na casa dela.

O arquivo hoje

O manuscrito de O Castelo está nos Kafka Papers da Bodleian Library, em Oxford, digitalizado em parte. Os papéis do espólio de Brod estão na Biblioteca Nacional de Israel.

O centenário da primeira edição fecha em 31 de dezembro de 2026. Reconfira a página do manuscrito nos Kafka Papers, no catálogo da Bodleian Library, em janeiro de 2027.

 
 
Quiz da edição

No romance O Castelo, qual profissão K. afirmava ter ao chegar à aldeia coberta de neve?

AAdvogado
BProfessor
CAgrimensor
DSecretário do conde

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