|
Na noite de domingo, 25 de abril de 1926, o Teatro alla Scala abriu a cortina para Turandot, de Giacomo Puccini, com Arturo Toscanini no pódio e a sala lotada.
A soprano polonesa Rosa Raisa fazia a princesa Turandot. O tenor espanhol Miguel Fleta cantava o príncipe Calaf, e a soprano italiana Maria Zamboni, a escrava Liù.
O libreto (o texto cantado da ópera), de Giuseppe Adami e Renato Simoni, vinha de uma peça do veneziano Carlo Gozzi, de 1762. Turandot é uma princesa de Pequim que propõe três enigmas aos pretendentes, e quem erra perde a cabeça.
Os enigmas pedem a esperança, o sangue e a própria Turandot, e Calaf acerta os três diante da corte. A princesa recusa o casamento mesmo assim, e ele devolve um enigma: se ela descobrir como ele se chama antes do amanhecer, ele aceita a execução.
A princesa proíbe a cidade inteira de dormir até achar a resposta. É ali que Calaf canta Nessun dorma (“Ninguém durma”), a ária (o solo cantado) que abre o terceiro ato.
A cena da escrava
Os guardas prendem Liù, a única que conhece o segredo. Ela apanha e não fala. Canta Tu che di gel sei cinta (“Tu, que estás cingida de gelo”), arranca o punhal de um soldado e se mata.
O cortejo leva o corpo para fora do palco, com o coro em voz baixa e a orquestra cada vez mais rala. Ali terminavam as páginas que Puccini deixou orquestradas.
A última música que Puccini orquestrou acompanha o enterro de uma personagem. |
O libretista Giuseppe Adami contou, anos depois, que o compositor tinha previsto a cena durante a doença.
“A ópera será apresentada incompleta, e então alguém subirá ao proscênio e dirá ao público: aqui o maestro morreu.” (Giacomo Puccini, citado por Giuseppe Adami em Il romanzo della vita di Giacomo Puccini, 1942) |
Toscanini deixou a música se apagar. Baixou a batuta, virou-se para a plateia e falou. A frase mais repetida pelos presentes, em italiano, é “Qui finisce l'opera, perché a questo punto il maestro è morto”.
Em português, “Aqui termina a ópera, porque neste ponto o maestro morreu”. Outras testemunhas guardaram uma frase mais curta, e nenhuma gravação da noite sobreviveu para desempatar.
A cortina desceu em silêncio. Parte da plateia ficou parada, sem saber se podia aplaudir, e depois veio um aplauso longo, segundo os jornais de Milão da manhã seguinte.
Faltou uma figura na sala. Benito Mussolini estava na cidade e não apareceu, porque Toscanini se recusou a tocar o hino fascista Giovinezza (“Juventude”) antes da ópera, segundo os biógrafos do maestro.
Na récita seguinte, em 27 de abril, a ópera seguiu até o casamento de Turandot e Calaf, com o final de Franco Alfano tocado pela primeira vez em público.
|