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Em 1926, Toscanini larga a batuta no meio da Turandot

Na estreia no Scala, o maestro interrompe a ópera onde Puccini parou de escrever, e o final de Alfano fica para as récitas seguintes

Batuta antiga sobre partitura aberta num pódio vazio.

A batuta parada, Scala, Milão, 1926

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Giacomo Puccini morreu numa clínica de Bruxelas em 29 de novembro de 1924, como noticiou a imprensa belga no dia seguinte. A Turandot dele estreou no Teatro alla Scala, em Milão, em 25 de abril de 1926, e o cartaz do teatro anunciava uma ópera em três atos que ninguém tinha terminado.

A doença apareceu na garganta no começo de 1924. Puccini fumava muito desde jovem, e os médicos italianos acharam um tumor. Em novembro, o filho Antonio o levou a Bruxelas, onde o médico Louis Ledoux aplicava rádio (o elemento radioativo usado contra tumores) direto no tecido doente.

Na bagagem, Puccini levou o maço de rascunhos do dueto final entre a princesa Turandot e o príncipe Calaf. Os dois primeiros atos estavam prontos e orquestrados. O terceiro parava logo depois da cena em que a escrava Liù se mata para proteger Calaf.

O tratamento começou em 24 de novembro. Quatro dias depois, o coração falhou, e ele não acordou mais. Puccini tinha 65 anos e quatro décadas de óperas no palco, de Manon Lescaut a Madama Butterfly.

Arturo Toscanini, o maestro que o próprio Puccini escolheu para a estreia, regeu um trecho da ópera Edgar, também de Puccini, na cerimônia fúnebre na catedral de Milão, em dezembro.

Faltava alguém para completar a partitura. A editora Ricordi, dona dos direitos, cogitou o compositor Riccardo Zandonai, e Antonio Puccini vetou a escolha.

A tarefa ficou com Franco Alfano, compositor napolitano de 49 anos, autor de A Lenda de Sakùntala, ópera de 1921 também ambientada no Oriente.

Alfano recebeu os rascunhos e reclamou da letra quase ilegível. Entregou um final longo, Toscanini mandou cortar, e Alfano refez as páginas no começo de 1926.

A partitura completa estava pronta para os ensaios. Toscanini, porém, guardava uma decisão própria para a primeira noite, e só a plateia de 25 de abril a viu.

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I  A Primeira Página de Hoje

Silêncio no Scala depois da cena de Liù

Na noite de domingo, 25 de abril de 1926, o Teatro alla Scala abriu a cortina para Turandot, de Giacomo Puccini, com Arturo Toscanini no pódio e a sala lotada.

A soprano polonesa Rosa Raisa fazia a princesa Turandot. O tenor espanhol Miguel Fleta cantava o príncipe Calaf, e a soprano italiana Maria Zamboni, a escrava Liù.

O libreto (o texto cantado da ópera), de Giuseppe Adami e Renato Simoni, vinha de uma peça do veneziano Carlo Gozzi, de 1762. Turandot é uma princesa de Pequim que propõe três enigmas aos pretendentes, e quem erra perde a cabeça.

Os enigmas pedem a esperança, o sangue e a própria Turandot, e Calaf acerta os três diante da corte. A princesa recusa o casamento mesmo assim, e ele devolve um enigma: se ela descobrir como ele se chama antes do amanhecer, ele aceita a execução.

A princesa proíbe a cidade inteira de dormir até achar a resposta. É ali que Calaf canta Nessun dorma (“Ninguém durma”), a ária (o solo cantado) que abre o terceiro ato.

A cena da escrava

Os guardas prendem Liù, a única que conhece o segredo. Ela apanha e não fala. Canta Tu che di gel sei cinta (“Tu, que estás cingida de gelo”), arranca o punhal de um soldado e se mata.

O cortejo leva o corpo para fora do palco, com o coro em voz baixa e a orquestra cada vez mais rala. Ali terminavam as páginas que Puccini deixou orquestradas.

A última música que Puccini orquestrou acompanha o enterro de uma personagem.

O libretista Giuseppe Adami contou, anos depois, que o compositor tinha previsto a cena durante a doença.

“A ópera será apresentada incompleta, e então alguém subirá ao proscênio e dirá ao público: aqui o maestro morreu.” (Giacomo Puccini, citado por Giuseppe Adami em Il romanzo della vita di Giacomo Puccini, 1942)

Toscanini deixou a música se apagar. Baixou a batuta, virou-se para a plateia e falou. A frase mais repetida pelos presentes, em italiano, é “Qui finisce l'opera, perché a questo punto il maestro è morto”.

Em português, “Aqui termina a ópera, porque neste ponto o maestro morreu”. Outras testemunhas guardaram uma frase mais curta, e nenhuma gravação da noite sobreviveu para desempatar.

A cortina desceu em silêncio. Parte da plateia ficou parada, sem saber se podia aplaudir, e depois veio um aplauso longo, segundo os jornais de Milão da manhã seguinte.

Faltou uma figura na sala. Benito Mussolini estava na cidade e não apareceu, porque Toscanini se recusou a tocar o hino fascista Giovinezza (“Juventude”) antes da ópera, segundo os biógrafos do maestro.

Na récita seguinte, em 27 de abril, a ópera seguiu até o casamento de Turandot e Calaf, com o final de Franco Alfano tocado pela primeira vez em público.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Alfano, a tesoura e um final novo em 2002

Franco Alfano tinha entregado a Toscanini, no começo de 1926, uma versão longa do dueto final, com versos de Adami que Puccini deixou sem música.

Toscanini achou o trecho pesado e distante do estilo de Puccini. Mandou cortar passagens inteiras. A versão encurtada é a que a Ricordi publicou e a que a maioria dos teatros toca até hoje.

O beijo sem partitura

O ponto difícil era o beijo. Nos rascunhos, Calaf beija Turandot à força, e a princesa gelada se rende ao amor. Puccini escreveu em cartas a Adami que o dueto precisava ser grandioso e confessou não saber como chegar lá.

Num dos rascunhos, ao lado de umas notas, aparece a anotação “poi Tristano” (“depois, Tristão”), lembrança da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Os estudiosos ainda discutem o sentido exato da anotação.

A cena mais difícil da ópera foi justamente a que Puccini deixou só em esboço.

Alfano reclamou do corte durante anos, segundo os biógrafos dele. A versão longa, que os músicos chamam de Alfano I, ficou no arquivo da Ricordi por mais de meio século.

Em 1982, a versão longa voltou a soar num concerto em Londres. Desde então, uma ou outra montagem a escolhe, mas a versão curta segue dominante nos palcos.

Toscanini regeu as primeiras récitas daquela temporada e entregou o pódio a Ettore Panizza, segundo a cronologia do Scala. Não voltou a reger a ópera inteira em público.

O corpo de Puccini ficou no jazigo da família Toscanini, no Cimitero Monumentale de Milão, até novembro de 1926. Seguiu então para a capela da casa do compositor em Torre del Lago, na Toscana, onde está.

Um terceiro final

Em janeiro de 2002, o compositor italiano Luciano Berio estreou um final próprio, escrito a partir dos mesmos rascunhos, em Las Palmas, nas Canárias, com Riccardo Chailly na regência.

O final de Berio termina em tom baixo, sem o coro triunfal de Alfano. Chailly levou essa versão ao próprio Scala em 2015, quase 90 anos depois da noite de Toscanini.

O texto de Berio também mudou o desenho da cena: a princesa e o príncipe terminam sozinhos, e a música se dissolve em vez de explodir.

Hoje cada teatro escolhe entre três caminhos: o final curto de Alfano, a versão longa ou o de Berio. Alguns diretores repetem o gesto de 1926 e encerram a ópera no cortejo de Liù.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O Corriere della Sera e o cartaz do Scala

A página: na manhã de 26 de abril de 1926, os diários de Milão levaram a estreia ao alto da página. O Corriere della Sera, o maior jornal da cidade, contou a noite com a frase de Toscanini, em versões que mudavam de jornal para jornal.

A coluna: os críticos dividiram o texto em duas partes. Trataram a música de Puccini com reverência e deixaram em aberto como a obra soaria inteira, com as páginas de Alfano.

O anúncio: a página de espetáculos trazia a programação das récitas seguintes de Turandot no Scala, agora com a ópera completa, e a Ricordi anunciava a partitura para canto e piano.

A ópera inacabada virou, já na segunda récita, uma obra com dois autores.

A Turandot saiu da Itália depressa. Estreou em Dresden em julho, no Teatro Colón, em Buenos Aires, ainda em 1926, e no Metropolitan Opera, em Nova York, em 16 de novembro de 1926.

Em todas essas casas, a ópera subiu ao palco com o final de Alfano. A parada de Toscanini ficou como gesto de uma noite só, contado nos programas e nas notas de disco por quem nunca esteve na sala.

Os discos ajudaram a fixar a versão curta. As gravações completas das décadas seguintes, com sopranos como Maria Callas e Birgit Nilsson no papel da princesa, usaram quase sempre as páginas cortadas por Toscanini.

A ária Nessun dorma virou fama mundial décadas depois. Em 1990, a BBC usou a gravação de Luciano Pavarotti como tema da Copa do Mundo da Itália, e o disco chegou ao segundo lugar da parada britânica.

Quem quiser ler aquelas páginas encontra o arquivo histórico do Corriere della Sera digitalizado, com busca por data, e o Museo Teatrale alla Scala guarda programas e figurinos da estreia.

A estreia completou 100 anos em 25 de abril de 2026. A temporada 2026 e 2027 do Scala abre em 7 de dezembro, dia de Santo Ambrósio: reconfira o cartaz em teatroallascala.org na semana da abertura e veja qual final cada montagem escolhe.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quantas páginas de rascunho do final Puccini deixou para Alfano trabalhar?

 
 
Quiz da edição

Na estreia de Turandot em 1926, Toscanini baixou a batuta e parou a apresentação em que momento da ópera?

ANa cena em que a escrava Liù se mata
BNo dueto final entre Turandot e Calaf
CDurante a ária Nessun dorma
DAntes do início do terceiro ato

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