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Em 1927, a BBC deixa 6 fabricantes e vira corporação pública

A carta régia de George V entrega a rádio a um conselho de governadores e põe John Reith no comando.

Microfone de carvão ao lado de pergaminho com selo de cera.

Microfone e carta régia, Londres, 1927

▼
 

Em 31 de dezembro de 1926, a BBC tinha seis donos, todos fabricantes de aparelhos de rádio. Em 1º de janeiro de 1927, não tinha dono nenhum, segundo o texto da carta régia assinada pelo rei George V em 20 de dezembro e guardado nos arquivos da própria emissora.

A British Broadcasting Company tinha nascido como negócio no outono de 1922, no dia 18 de outubro. Marconi, General Electric Company, British Thomson-Houston, Metropolitan-Vickers, Western Electric e Radio Communication Company se juntaram para manter uma emissora que desse ao público motivo para comprar os rádios que elas fabricavam.

O arranjo tinha lógica comercial. Cada aparelho vendido pagava royalty (uma taxa por unidade) à companhia, e cada casa com receptor pagava ao correio britânico, o General Post Office, uma licença anual de dez xelins (meia libra), dividida com a emissora.

A primeira transmissão regular saiu em 14 de novembro de 1922, da estação 2LO, no alto da Marconi House, em Londres. Um mês depois, a companhia contratou como gerente-geral um engenheiro escocês de 33 anos que nunca tinha trabalhado com rádio, John Reith.

Reith tinha planos que não cabiam numa empresa de fabricantes. Queria a emissora a serviço do público, sem anúncio, com música erudita, palestras e cultos de domingo, e pôs esse programa por escrito num livro de 1924, Broadcast Over Britain (Radiodifusão sobre a Grã-Bretanha).

Duas comissões do governo estudaram o futuro do rádio. A segunda, presidida pelo conde de Crawford em 1925, recomendou tirar a emissora das mãos da indústria e entregá-la a uma corporação pública, sustentada pela licença e vigiada por governadores nomeados pela Coroa.

Os fabricantes aceitaram sem briga. O contrato deles vencia no último dia de 1926, e o rádio, àquela altura, já vendia sozinho nas lojas de Londres a Glasgow.

A primeira página de hoje abre na virada do ano, quando a sigla ficou igual e a dona mudou.

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I  A Primeira Página de Hoje

A virada do ano em Savoy Hill

Os escritórios da British Broadcasting Corporation abriram em 1º de janeiro de 1927 no mesmo endereço da véspera, um prédio em Savoy Hill, à beira do Tâmisa, em Londres. Os funcionários eram os mesmos, e os microfones também.

O que mudou foi o papel. A carta régia (o documento pelo qual o rei cria uma instituição e define o que ela pode fazer) trocava a sociedade dos fabricantes por uma corporação sem acionistas e sem lucro.

A carta valia por dez anos, até o último dia de 1936. A renovação dependia do governo e do Parlamento, e a emissora passava a viver de prazo em prazo.

No topo ficava um conselho de cinco governadores, escolhidos pelo rei a conselho do governo. Eles respondiam pela emissora perante o Parlamento, mas não montavam a programação.

A programação ficava com o diretor-geral. O cargo nasceu na carta e foi entregue a Reith, que no mesmo ano recebeu o título de cavaleiro e virou Sir John Reith.

Reith tinha 37 anos e o rigor de pastor herdado do pai, ministro da Igreja Livre da Escócia em Glasgow. Tratava o microfone como púlpito e exigia que os locutores da noite lessem as notícias de smoking, mesmo sem ninguém para vê-los.

A sigla continuou BBC; a dona virou a nação.

O dinheiro seguia o caminho antigo. O General Post Office cobrava a licença de dez xelins de cada casa com receptor e repassava uma parte à corporação, e anúncio no ar continuava proibido.

A independência tinha limite escrito. A licença de operação dava ao ministro dos Correios, o Postmaster General, poder de vetar programas e de mandar a emissora transmitir comunicados oficiais.

O teste desse limite tinha acontecido meses antes, na greve geral de maio de 1926. Durante nove dias, com os jornais parados, o rádio virou a principal fonte de notícias do país.

Winston Churchill, então ministro da Fazenda, queria requisitar a emissora para o governo. Reith evitou a requisição, mas recusou levar ao ar um apelo pela paz do arcebispo de Cantuária, Randall Davidson, que o primeiro-ministro Stanley Baldwin não queria ver transmitido.

Num memorando ao governo, Reith explicou a posição com uma lógica que os críticos nunca esqueceram:

“Partindo do princípio de que a BBC está a serviço do povo e de que o governo está a serviço do povo, segue-se que a BBC também precisa estar a serviço do governo nesta crise.” (John Reith, memorando ao governo britânico, maio de 1926)

A corporação nasceu sobre esse acordo tácito. Livre no papel, prudente na prática, e com um diretor que sabia até onde ia a corda.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Dez anos até a televisão

Reith ficou no comando até junho de 1938. Nesse intervalo, a emissora saiu de Savoy Hill, atravessou o império pelas ondas curtas e chegou à imagem.

Em 1932, a corporação ocupou a Broadcasting House, prédio construído para ela em Portland Place, no centro de Londres, com estúdios isolados do barulho da rua. A primeira transmissão saída do edifício foi ao ar em 15 de março daquele ano.

No mesmo ano, em 19 de dezembro, estreou o Empire Service (o serviço para o império), em ondas curtas para as colônias. No dia de Natal, George V falou ao microfone numa mensagem aos súditos, com texto escrito por Rudyard Kipling.

O rei que assinou a carta virou, cinco anos depois, voz da própria emissora.

Em 2 de novembro de 1936, a BBC inaugurou no Alexandra Palace, no norte de Londres, o primeiro serviço regular de televisão em alta definição do mundo. Dois sistemas rivais se revezavam no ar, e o de 405 linhas, da Marconi-EMI, venceu o de John Logie Baird em fevereiro de 1937.

A carta régia foi renovada em 1º de janeiro de 1937, por mais dez anos. O modelo de corporação pública sustentada pela licença tinha passado no primeiro teste de prazo.

Reith saiu em 1938 para presidir a Imperial Airways, a companhia aérea do império. Nos diários, publicados em 1975, ele tratou a saída como um erro que nunca conseguiu desfazer.

Ele deixou um adjetivo. Na Grã-Bretanha, reithiano (o que segue o ideal de Reith, de rádio pública que informa, educa e diverte) ainda descreve a programação de serviço público.

O monopólio caiu aos poucos. A televisão comercial, a ITV, entrou no ar em 1955, e o rádio comercial legalizado só chegou em 1973, com a LBC, em Londres.

Reith viveu para ver as duas quebras. Morreu em 16 de junho de 1971, em Edimburgo, como Lord Reith, título de barão que recebeu em 1940.

A carta régia sobreviveu a ele. A BBC renova o documento desde 1927, em ciclos de cerca de uma década, e a versão em vigor começou em 1º de janeiro de 2017.

O conselho de governadores, por outro lado, não chegou ao século seguinte inteiro. Foi substituído pelo BBC Trust em 2007 e, dez anos depois, por um conselho de administração regulado pelo Ofcom (o órgão britânico de fiscalização das comunicações).

 

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III  O Anúncio da Página 3

Dez xelins e nenhum anúncio

A página: a mudança chegou ao ouvinte pelos jornais e pela Radio Times, a revista semanal de programação que a própria emissora lançara em setembro de 1923.

A coluna: a companhia deixava de existir, e a corporação herdava estúdios, transmissores, contratos e funcionários. Para quem girava o botão do aparelho, nada mudava no ar.

O anúncio: o único anúncio proibido era o comercial. A BBC podia avisar, convocar e informar, mas não podia vender um segundo de transmissão a uma marca.

A proibição vinha da conta. Com a licença paga por cada casa, a emissora não dependia de quem compra espaço, e Reith via nessa distância a garantia de uma grade livre da pressa do mercado.

Ele resumiu a missão numa frase de Broadcast Over Britain:

“Levar o melhor de tudo ao maior número possível de lares.” (John Reith, Broadcast Over Britain, 1924)

Quem pagava a BBC era o ouvinte, e assim ninguém mais mandava na grade.

A licença era o contrato silencioso entre a casa e a emissora. Quem tinha receptor sem pagar cometia infração, e o correio era quem fiscalizava.

O valor de dez xelins ficou parado por anos, enquanto o número de casas pagantes subia e a receita da corporação subia junto, sem um centavo de patrocinador.

O conselho que assumiu em 1927 mostrava a mistura que a Coroa quis montar. Lord Gainford, ex-presidente da companhia dos fabricantes, ficou como vice-presidente, numa ponte com o regime anterior.

Sir Gordon Nairne veio do Banco da Inglaterra, Montague Rendall tinha dirigido o colégio de Winchester, e Ethel Snowden, militante trabalhista e defensora do voto feminino, foi a única mulher do grupo.

O quinto governador ocupava a presidência, nomeado pela Coroa, e era ele quem levava ao governo as contas e as queixas da corporação.

A fórmula atravessou o século com remendos. A licença virou taxa de televisão, os governadores viraram conselho, e a proibição de anúncio no serviço doméstico segue de pé.

A carta régia em vigor vence em 31 de dezembro de 2027. Reconfira a nova carta, que o governo britânico precisa publicar antes dessa data, na página de revisão da carta em gov.uk e em bbc.com/aboutthebbc.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem presidiu o primeiro conselho de governadores da BBC, em 1927?

 
 
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