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Em 1927, a Libéria dá a Charles King 234 mil votos

O eleitorado inscrito somava cerca de 15 mil pessoas, e a denúncia do derrotado abriu a investigação que tirou King do cargo em 1930

Urna de madeira antiga transbordando de cédulas.

A urna de King, Monróvia, 1927

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Em maio de 1927, a Libéria tinha cerca de 15 mil eleitores inscritos. A contagem oficial deu ao presidente Charles Dunbar Burgess King 234 mil votos, e o Guinness Book of Records guarda a eleição como a mais fraudada da história.

O derrotado, Thomas J. R. Faulkner, ficou com 9 mil votos. Os dois números juntos passam de 16 vezes o eleitorado inteiro do país.

A Libéria de 1927 era a república negra mais antiga da África. Nasceu em 1847, fundada por negros livres e ex-escravizados vindos dos Estados Unidos, com apoio da American Colonization Society (Sociedade Americana de Colonização).

Os descendentes desses colonos, os américo-liberianos, eram uma minoria pequena na costa. Mandavam no governo, no comércio e no voto. Os povos do interior, como os kru, os grebo e os kpelle, pagavam imposto e quase nunca votavam.

O voto era restrito a homens donos de propriedade. Com essa trava, o eleitorado cabia em poucos milhares de nomes, num país de perto de um milhão de habitantes.

Desde 1878, um só partido vencia todas as eleições: o True Whig Party (Partido Whig Autêntico, nome herdado dos liberais britânicos). King, advogado nascido em Monróvia em 1875, governava desde 1920 e disputava o terceiro mandato.

Faulkner era engenheiro e empresário em Monróvia, dono de uma fábrica de gelo e da primeira linha telefônica da capital. Liderava o People's Party (Partido do Povo) e já tinha perdido para King em 1923.

Ele não aceitou a derrota em silêncio. Em 1927, perder para o partido do governo era o destino de qualquer candidato da oposição liberiana, e quase todos voltavam para casa sem protestar. Juntou cartas, depoimentos de chefes do interior e listas de embarque no porto.

A papelada falava de votos, mas também de homens embarcados à força para outra colônia, e foi essa segunda parte da denúncia que chegou a Genebra.

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I  A Primeira Página de Hoje

A urna de King e os navios de Faulkner

A resposta de ontem

Quantas páginas de rascunho do final Puccini deixou?

Foram 36 páginas de esboços em folhas avulsas, com melodias sem orquestração e anotações à margem, entre elas o "poi Tristano". A Ricordi entregou o maço a Franco Alfano, que reclamou da letra quase ilegível; os originais seguem guardados no Archivio Storico Ricordi, em Milão.

A apuração terminou em maio de 1927 com o True Whig Party no controle de todas as mesas. Não havia fiscal da oposição, e os comissários eleitorais eram nomeados pelo próprio governo de Charles King.

Faulkner apontou três mecanismos. Funcionários públicos votavam várias vezes, nomes de mortos e de ausentes entravam nas listas, e chefes do interior entregavam votos de aldeias inteiras em troca de favores.

O resultado não mudou. A Legislatura, também dominada pelo True Whig Party, confirmou a vitória, e King tomou posse para o terceiro mandato em janeiro de 1928.

A denúncia que atravessou o oceano

Faulkner levou o caso para fora do país. A acusação mais pesada não falava de urna: dizia que o governo vendia trabalhadores liberianos para Fernando Pó, ilha espanhola no golfo da Guiné, hoje Bioko, na Guiné Equatorial.

As fazendas de cacau da ilha precisavam de braço. Um acordo entre a Libéria e a Espanha previa o envio de trabalhadores contratados, com taxa paga por cabeça a quem organizava o embarque.

Segundo Faulkner, soldados da Frontier Force (a força de fronteira, o exército liberiano) cercavam aldeias, levavam homens amarrados até a costa e os entregavam aos navios. Os chefes que resistiam eram multados ou presos.

O destino em Fernando Pó era o contrato de dois anos nas roças de cacau, sob calor úmido e doenças tropicais. Muitos trabalhadores não voltavam no prazo, e as famílias nas aldeias ficavam sem notícia.

A acusação mais grave da campanha de 1927 não tratava de voto: tratava de gente vendida.

O nome que mais aparecia era o do vice-presidente Allen N. Yancy. Faulkner o acusava de lucrar com os embarques a partir do condado de Maryland, no sudeste do país, onde Yancy tinha base política.

Faulkner viajou aos Estados Unidos e à Europa com os papéis. Em Washington, o Departamento de Estado já recebia relatos parecidos de diplomatas e missionários.

Em 1929, o secretário de Estado americano Henry Stimson enviou ao governo liberiano uma nota formal sobre denúncias de escravidão e trabalho forçado. Pedia uma investigação internacional.

King aceitou, sob pressão. Em 1929, a Libéria pediu à Liga das Nações, a organização de países criada depois da Primeira Guerra, uma comissão para apurar o caso.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A comissão de Genebra e a renúncia de 1930

A comissão teve três membros. O britânico Cuthbert Christy, médico com anos de serviço na África, presidiu os trabalhos e deu nome ao grupo.

O americano Charles S. Johnson, sociólogo da Universidade Fisk, representou os Estados Unidos. O terceiro era Arthur Barclay, ex-presidente liberiano, indicado pelo próprio governo de King.

Os três chegaram a Monróvia em abril de 1930 e passaram meses ouvindo chefes, trabalhadores e funcionários, inclusive no interior, onde muitos depoimentos foram tomados longe dos soldados.

Johnson anotou nomes, datas e valores pagos por cabeça. Chefes contaram ter recebido ordens escritas de comissários distritais para entregar cotas de homens, sob pena de multa.

O que o relatório encontrou

O relatório da Comissão Christy saiu em setembro de 1930. Confirmou o envio de trabalhadores a Fernando Pó sob coação e o uso da Frontier Force para recrutar à força.

Descreveu também a penhora de pessoas: famílias entregavam parentes como garantia de dívida, e a prática era tolerada pelas autoridades locais.

O texto nomeou responsáveis. O vice-presidente Allen Yancy e outros funcionários apareciam como organizadores dos embarques. A comissão não acusou King de comandar o esquema, mas registrou que o governo sabia dos fatos.

A comissão que a Libéria pediu para limpar o nome do governo terminou derrubando o governo.

A Legislatura liberiana abriu processo de impeachment (afastamento do cargo por votação do parlamento) contra King e Yancy. Os dois não esperaram a votação.

Charles King renunciou em 3 de dezembro de 1930. Yancy saiu no mesmo período. O sucessor tomou posse na mesma data, e os Estados Unidos e o Reino Unido suspenderam o reconhecimento diplomático do novo governo.

A Liga das Nações discutiu, em 1931 e 1932, um plano de assistência que colocaria a Libéria sob supervisão estrangeira. O governo liberiano recusou a parte que tirava poder dos ministros, e o plano morreu.

O reconhecimento americano demorou cinco anos para voltar. Nesse intervalo, Monróvia aprovou leis contra a penhora de pessoas e proibiu a exportação de trabalhadores para Fernando Pó.

King não foi preso. Voltou à advocacia, foi embaixador nos Estados Unidos nos anos 1940 e morreu em 1961, em Monróvia. Faulkner ficou fora do poder e não chegou à presidência.

O voto, por fim, continuou fechado por décadas. Mulheres e povos do interior só ganharam o voto pleno nos anos 1940 e 1950, e o True Whig Party governou sem interrupção até o golpe de 1980.

 

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III  O Anúncio da Página 3

A Firestone, a borracha e a imprensa negra

A página: a eleição de 1927 quase não teve espaço nos diários americanos. O assunto ganhou a primeira página em 1930, quando o relatório da Comissão Christy chegou a Genebra e falou em escravidão.

A coluna: a imprensa negra dos Estados Unidos acompanhou o caso de perto. O sociólogo W. E. B. Du Bois, editor da revista The Crisis, tinha representado o governo americano na posse de King em 1924 e defendia a independência liberiana contra a tutela estrangeira.

O anúncio: nas mesmas folhas, a Firestone anunciava pneus. A empresa de Akron, em Ohio, tinha fechado com a Libéria, em 1926, uma concessão de até um milhão de acres para plantar seringueiras por 99 anos.

O país investigado por trabalho forçado era, ao mesmo tempo, a nova fazenda de borracha dos pneus americanos.

A concessão veio com um empréstimo de 5 milhões de dólares, intermediado por uma empresa ligada à própria Firestone. Parte da receita alfandegária liberiana passou a pagar a dívida, sob controle de um consultor financeiro americano.

O acordo deu aos Estados Unidos um interesse direto no caso. Críticos da época, entre eles Du Bois, viram na pressão de Washington uma forma de proteger a Firestone e enfraquecer o governo de Monróvia.

A plantação de Harbel, a principal da empresa, começou a operar naqueles anos e continua ativa. Virou por décadas uma das maiores plantações de seringueira do mundo, hoje com outra razão social, a Firestone Natural Rubber Company.

O caso entrou na literatura. Em 1931, o jornalista americano George Schuyler publicou o romance Slaves Today (Escravos Hoje), baseado na viagem que fez à Libéria depois da denúncia.

Charles S. Johnson escreveu um livro sobre a investigação, Bitter Canaan (Canaã Amarga). O manuscrito ficou guardado por décadas e só saiu impresso em 1987, pela editora Transaction, com introdução do historiador John Stanfield.

Na Libéria, o episódio virou assunto de escola e de tribunal político. O golpe de 1980, liderado pelo sargento Samuel Doe, citou o domínio dos américo-liberianos entre os motivos para derrubar o último governo do True Whig Party.

Os números de 1927 seguem no livro de recordes: 234 mil votos contados para um eleitorado de cerca de 15 mil inscritos. A Constituição liberiana de 1986 marca a eleição geral para a segunda terça-feira de outubro, e a próxima cai em outubro de 2029: reconfira o calendário no site da Comissão Eleitoral Nacional, necliberia.org, quando o registro de eleitores abrir.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem assumiu a presidência da Libéria no dia em que Charles King renunciou, em dezembro de 1930?

★ RARO

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Na eleição liberiana de 1927, quantos votos a contagem oficial deu a Charles King, num país com cerca de 15 mil eleitores inscritos?

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