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Em 1927, Alekhine tira o título de Capablanca em 34 partidas

Em Buenos Aires, o desafiante russo vence o cubano invicto por seis a três e nunca aceita jogar a revanche.

Rei de xadrez tombado sobre tabuleiro, ao lado de relógio e envelope.

Rei tombado e relógio de xadrez, Buenos Aires, 1927

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A té setembro de 1927, Alexander Alekhine nunca tinha vencido José Raúl Capablanca numa partida de torneio, segundo as tabelas de São Petersburgo 1914, Nova York 1924 e Nova York 1927. Em 29 de novembro daquele mesmo ano, o russo era campeão mundial de xadrez, e o derrotado era Capablanca.

O cubano parecia imbatível. Entre 1916 e 1924, não perdeu uma única partida de torneio, e em 1921, em Havana, tirou o título de Emanuel Lasker sem sofrer derrota alguma.

Os jornais o chamavam de máquina. Ele jogava rápido, errava pouco e transformava posições iguais em finais vencidos com uma calma irritante para os adversários.

Alekhine era o oposto em temperamento. Nascido em Moscou em 1892, filho de família rica, deixou a Rússia depois da revolução e se instalou em Paris, onde se naturalizou francês justamente em 1927.

No torneio de Nova York, em março, Capablanca terminou em primeiro, com dois pontos e meio de vantagem sobre Alekhine, o segundo colocado. A diferença parecia confirmar quem mandava no tabuleiro.

O desafio, porém, já estava assinado. As Regras de Londres, acordadas pelos grandes mestres em 1922, exigiam do desafiante uma bolsa de 10 mil dólares, e Alekhine só conseguiu o dinheiro com o apoio do Club Argentino de Ajedrez e do governo argentino.

As mesmas regras definiam o formato. Ganharia o primeiro a somar seis vitórias, e os empates não contavam para nada, o que deixava o match sem data prevista para terminar.

Capablanca chegou a Buenos Aires como favorito em quase todas as apostas. Alekhine chegou com cadernos de análise das partidas do cubano, estudadas uma a uma durante meses.

Ele tinha 35 anos e jogava o match da vida. Capablanca tinha 39, era campeão havia seis anos e tratava a defesa do título quase como formalidade diplomática.

A primeira página de hoje abre no salão do clube argentino, onde a primeira partida já desmentiu os palpites.

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I  A Primeira Página de Hoje

Setenta e três dias no Club Argentino

A primeira partida começou em 16 de setembro de 1927, num salão do Club Argentino de Ajedrez, no centro de Buenos Aires. Alekhine, com as pretas, venceu.

Capablanca respondeu na terceira e na sétima partidas, e o placar ficou dois a um para ele. Depois disso, o cubano não venceu mais até a reta final.

O que se seguiu foi uma maratona de empates. A maioria das partidas abriu com o Gambito da Dama Recusado (a abertura em que as pretas não aceitam o peão oferecido pelas brancas), jogado e rejogado até a exaustão.

Os dois conheciam a abertura a fundo, e nenhum queria arriscar. Partidas inteiras terminavam com as peças trocadas e os reis frente a frente, sem caminho para ninguém.

A plateia diminuiu nas semanas do meio. Os jornais portenhos passaram a publicar as partidas em letra miúda, e os cronistas reclamavam de tardes inteiras sem um único sacrifício de peça.

Muitas partidas eram adiadas, ou seja, suspensas depois de algumas horas e retomadas no dia seguinte. O jogador da vez escrevia o lance secreto (a jogada guardada num envelope lacrado, aberto só na retomada), para o adversário não analisar a posição em casa.

Alekhine usava a noite melhor. Analisava as posições adiadas até de madrugada e chegava à retomada com variantes calculadas, enquanto Capablanca confiava no julgamento à primeira vista.

Os dois jogavam também contra o relógio de xadrez, o aparelho de dois mostradores que marca o tempo de cada jogador. O controle dava duas horas e meia para os primeiros 40 lances.

O campeão confiava no olho; o desafiante confiava no caderno.

A saúde também entrou no placar. Segundo o biógrafo Pablo Morán, Alekhine teve dentes extraídos durante o match, devido a uma infecção que o atormentava desde a chegada.

Capablanca, por sua vez, começou a errar em finais que dominava. Na 21ª partida, Alekhine venceu e passou à frente, e a 34ª chegou com o russo a uma vitória do título.

A última partida foi adiada com Alekhine em vantagem decisiva. Capablanca não voltou ao tabuleiro: em 29 de novembro, mandou uma carta ao adversário reconhecendo a derrota.

O placar final registrou seis vitórias de Alekhine, três de Capablanca e 25 empates, em 73 dias de disputa. Foi o match de título mais longo até então.

A marca de duração só seria superada em 1984, no match entre Anatoli Karpov e Garry Kasparov, interrompido pela federação depois de 48 partidas e cinco meses.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A revanche jamais marcada

Capablanca pediu a revanche logo depois da derrota. Ele mesmo tinha escrito as Regras de Londres, e agora elas pesavam contra ele: a bolsa de 10 mil dólares passava a ser obrigação dele.

Alekhine não recusou de frente. Aceitou em princípio, mas impôs condições, exigiu o dinheiro em ouro e adiou as conversas, ano após ano, enquanto o cubano buscava patrocínio.

Em vez de Capablanca, o campeão jogou contra Efim Bogoljubov, em 1929, entre a Alemanha e a Holanda, e venceu com folga. Repetiu o duelo contra o mesmo rival em 1934, e voltou a ganhar.

Alekhine defendeu o título duas vezes, e nas duas escolheu o adversário.

Os dois deixaram de se falar. Em torneios onde ambos jogavam, cruzavam o salão sem cumprimento, e jornalistas da época registraram jantares em que um se recusava a sentar à mesa com o outro.

Capablanca seguiu vencendo torneios. Ganhou Moscou 1936 e terminou à frente de Alekhine em Nottingham, no mesmo ano, mas nada daquilo valia o título.

Em 1935, Alekhine perdeu a coroa para o holandês Max Euwe, professor de matemática, e a recuperou em 1937, na revanche contra o mesmo Euwe. Capablanca continuava esperando a sua vez.

A vez não veio. Em 8 de março de 1942, Capablanca sofreu um derrame no Manhattan Chess Club, em Nova York, enquanto acompanhava uma partida de amigos, e morreu no dia seguinte, aos 53 anos.

Alekhine morreu em 24 de março de 1946, num quarto de hotel em Estoril, Portugal, ainda campeão. Foi o único na história a deixar o título sem perdê-lo no tabuleiro.

Naquela época, ele negociava um match com o soviético Mikhail Botvinnik. A morte interrompeu a conversa, e a Federação Internacional de Xadrez organizou em 1948 um torneio para escolher o novo campeão, vencido por Botvinnik.

O desfecho do duelo entre os dois, portanto, ficou em aberto para sempre. Não há como saber quem venceria a revanche, porque ela jamais foi jogada, e cada biógrafo dá a culpa a um dos lados.

Os defensores de Alekhine lembram as exigências de Capablanca em 1921, quando ele próprio impôs a bolsa a quem quisesse desafiá-lo. Os de Capablanca lembram as cartas sem resposta e os prazos empurrados pelo campeão.

 

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III  O Anúncio da Página 3

A carta do derrotado

A página: os jornais de Buenos Aires deram a notícia em 30 de novembro de 1927. A manchete não falava de lance algum, falava de uma carta.

A coluna: a 34ª partida estava adiada desde a véspera, com o lance secreto lacrado. Os árbitros esperavam a retomada quando chegou ao clube um bilhete assinado por Capablanca.

O anúncio: o cubano abandonava a partida e o match. A carta, escrita em espanhol e endereçada a Alekhine, ficou registrada nas atas do Club Argentino de Ajedrez. Em português, dizia:

“Abandono a partida. Portanto, o senhor é o campeão mundial, e o cumprimento pelo seu êxito.” (José Raúl Capablanca, carta a Alexander Alekhine, 29 de novembro de 1927)

A cortesia do texto contrastava com o que veio depois. O homem que escreveu aquelas linhas passaria os 15 anos seguintes sem receber a chance de responder no tabuleiro.

O formato da carta tinha razão prática. Abandonar por escrito evitava a cena de voltar ao salão para assinar a derrota diante do público, que lotava o clube nas últimas semanas.

O título mundial mudou de mãos sem um último lance jogado.

Alekhine recebeu a notícia no hotel. Naquela noite, o clube organizou um banquete para o novo campeão, e Capablanca não compareceu.

O cubano deixou Buenos Aires poucos dias depois, de navio. Na viagem de volta, segundo a correspondência publicada pela imprensa de Havana, já rascunhava as condições da revanche.

Em Havana, a derrota foi tratada como luto nacional. Capablanca era funcionário do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, e a imprensa da ilha publicou a carta como prova de cavalheirismo.

Em Paris, a vitória virou orgulho francês, de um cidadão naturalizado havia poucos meses. Alekhine voltou à Europa como celebridade e publicou depois as suas análises do match.

Nas análises, Alekhine elogiou a técnica do rival e atribuiu a vitória à preparação. Escreveu que tinha estudado as partidas do cubano até encontrar os finais em que ele relaxava.

As partidas de Buenos Aires ainda são estudadas nas escolas de xadrez, sobretudo os finais. A 34ª, a da carta, mostra o ponto em que o campeão invicto preferiu o papel ao tabuleiro.

O centenário do match cai entre 16 de setembro e 29 de novembro de 2027. Reconfira nessas datas o arquivo do Club Argentino de Ajedrez e o acervo do jornal La Nación, que costumam republicar as páginas originais em aniversários redondos.

 
 
Quiz da edição

No duelo de 1927 em Buenos Aires, quantas das 34 partidas terminaram empatadas?

A15
B21
C25
D34

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