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Em 1927, Londres manda 7 britânicos reformar a Índia

A Comissão Simon nasce sem um único indiano entre os sete membros, e o Congresso decide boicotá-la antes da chegada.

Bandeira preta dobrada, carretel de linha e envelope lacrado.

Bandeira preta e linha de pipa, Índia, 1928

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O censo britânico de 1921 contou 318 milhões de pessoas na Índia. Em 8 de novembro de 1927, o governo de Stanley Baldwin anunciou em Londres os sete homens encarregados de revisar a forma de governar aquela gente toda, e nenhum deles era indiano.

Os sete eram parlamentares do Reino Unido. O presidente seria Sir John Simon, advogado liberal famoso pelos honorários altos. Entre os outros estava um trabalhista discreto de 44 anos, Clement Attlee, que entrou na lista quase por acaso.

A revisão estava prevista em lei. A Lei do Governo da Índia, de 1919, mandava avaliar a reforma depois de dez anos, o que empurraria a comissão para 1929. Londres adiantou o calendário em dois anos.

O motivo do adiantamento tinha a ver com a política britânica. Os conservadores temiam perder a eleição seguinte para os trabalhistas e queriam escolher eles mesmos quem ia examinar a Índia.

O homem por trás da escolha era Lord Birkenhead, secretário de Estado para a Índia. Ele duvidava que os indianos conseguissem concordar entre si sobre qualquer constituição, e dizia em público.

Para Birkenhead, a ausência de indianos tinha justificativa técnica. A comissão seria parlamentar, e só parlamentares britânicos poderiam relatar ao Parlamento britânico. O vice-rei, Lord Irwin, apoiou o argumento.

Na Índia, a lista foi lida de outro jeito. Juristas moderados, que nunca tinham aderido aos protestos de Gandhi, se sentiram insultados. Tej Bahadur Sapru, liberal e defensor do diálogo com Londres, passou a falar em boicote.

O Congresso Nacional Indiano, maior partido do país, tinha a sua sessão anual marcada para o fim de dezembro, em Madras. Havia tempo para a resposta ser pensada antes do embarque dos comissários.

A comissão ainda nem tinha passagem comprada. A recusa já vinha sendo redigida.

A primeira página de hoje abre na sala de Madras, onde o boicote ganhou forma de resolução, e segue até o cais de Bombaim.

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I  A Primeira Página de Hoje

O boicote votado em Madras

A resposta de ontem

Que teoria de Einstein Bohr usou contra a caixa de luz?

A relatividade geral. Bohr mostrou que a caixa, ao perder o fóton, se desloca no campo gravitacional, e o relógio dentro dela muda de ritmo, como a teoria de 1915 prevê. A dúvida na posição vira dúvida no tempo, e a incerteza entre energia e tempo volta a valer (Bohr, Albert Einstein: Philosopher-Scientist, 1949).

A sessão de Madras do Congresso Nacional Indiano reuniu os delegados na última semana de dezembro de 1927. O presidente daquele ano era o médico Mukhtar Ahmed Ansari, formado em Edimburgo e cirurgião em Delhi.

A pauta tinha vários temas, mas a comissão dominou as conversas. A pergunta em debate não era se haveria protesto, e sim quão longe ele iria.

O texto aprovado não deixou margem. Pela resolução da sessão de Madras, de 1927, registrada nos anais do Congresso, a comissão seria recebida assim:

“Boicotar a comissão em cada etapa e em cada forma.”

A decisão tinha uma consequência prática. Nenhum membro do Congresso daria depoimento, entregaria documento ou apareceria em recepção oficial dos comissários.

Os moderados acompanharam. A Federação Liberal, de Sapru, e parte da Liga Muçulmana aderiram ao boicote, um alinhamento raro entre grupos que costumavam discordar.

A Liga Muçulmana se dividiu nessa hora. A ala de Muhammad Ali Jinnah ficou com o boicote. A ala de Muhammad Shafi, em Lahore, decidiu cooperar com a comissão.

O boicote juntou na mesma calçada gente que, um ano antes, não dividia a mesma mesa.

Na mesma sessão, o Congresso aprovou outra resolução, puxada por Jawaharlal Nehru, então com 38 anos. O texto declarava a independência completa como meta do partido.

Os mais velhos do Congresso ainda falavam em domínio, o status de autonomia dentro do Império que o Canadá e a Austrália tinham. Nehru queria a saída inteira.

Gandhi não estava em Madras para defender a resolução. Passara boa parte de 1927 viajando pelo sul do país em campanha pelo khadi (tecido de algodão fiado e tecido à mão), e via a independência completa como meta ainda distante para aquele momento.

A comissão desembarcou em Bombaim em 3 de fevereiro de 1928. A cidade amanheceu em hartal (greve geral com lojas fechadas), e as ruas próximas ao porto exibiam bandeiras pretas.

Os cartazes repetiam uma frase em inglês, para que os comissários entendessem sem tradutor: “Simon, go back”, ou “Simon, volte para casa”.

A cena se repetiu em cada cidade da rota. Calcutá, Madras, Delhi, Lahore e Lucknow receberam os sete com lojas fechadas, multidões e a mesma frase nos cartazes.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A bengala de Lahore e o relatório de 1930

Em 30 de outubro de 1928, a comissão chegou a Lahore. O protesto na estação era liderado por Lala Lajpat Rai, de 63 anos, jornalista e um dos nomes mais respeitados do nacionalismo no Punjab.

A polícia recebeu ordem de dispersar a multidão. O superintendente James A. Scott comandou a carga com lathis, as bengalas longas de bambu com ponta de metal usadas pela polícia colonial.

Lajpat Rai foi atingido no peito várias vezes. Na mesma noite, discursou num comício, segundo os jornais de Lahore daquela semana, e deixou uma frase repetida pelo país inteiro:

“Cada golpe desferido contra mim hoje é um prego no caixão do Império Britânico.”

Ele morreu em 17 de novembro de 1928. Os médicos não fecharam um diagnóstico único: os golpes agravaram um problema cardíaco anterior, e o governo britânico negou qualquer ligação entre a carga e a morte.

Um mês depois, um grupo de jovens revolucionários decidiu responder. Bhagat Singh, de 21 anos, e Shivaram Rajguru atiraram em 17/12/1928 num policial britânico, John Saunders, confundido com Scott.

Bhagat Singh foi preso no ano seguinte, por outra ação, e enforcado em março de 1931, aos 23 anos. Virou um dos rostos mais reproduzidos da história indiana.

O crime não ficou sem autoria conhecida. No julgamento, conhecido como o segundo caso da conspiração de Lahore, o tribunal especial condenou Bhagat Singh, Rajguru e Sukhdev Thapar pela morte de Saunders, e os três subiram juntos ao cadafalso.

Em Lucknow, a carga policial também alcançou nomes grandes. Jawaharlal Nehru e Govind Ballabh Pant levaram golpes de lathi em novembro de 1928, durante o protesto contra a chegada dos comissários.

Birkenhead tinha desafiado os indianos a apresentarem uma constituição própria. Em agosto de 1928, um comitê presidido por Motilal Nehru, pai de Jawaharlal, entregou o texto: o Relatório Nehru, pedindo status de domínio.

Londres pediu uma constituição escrita por indianos e recebeu uma em nove meses.

O relatório da comissão saiu em maio de 1930, em dois volumes. Propunha acabar com a diarquia (o sistema de poder dividido entre ministros indianos e funcionários britânicos) nas províncias e dar autonomia a elas.

O texto não mencionava domínio para a Índia. Quando foi publicado, o Congresso já tinha passado à desobediência civil, e Gandhi já tinha feito a Marcha do Sal, em março e abril daquele ano.

O efeito durável veio por outro caminho. As conversas da Mesa Redonda, em Londres, entre 1930 e 1932, e a Lei do Governo da Índia de 1935 aproveitaram partes do relatório.

Clement Attlee, o comissário de 44 anos, voltou da viagem com cadernos de anotações. Em 1947, como primeiro-ministro, assinou a passagem do poder que deu à Índia a independência, em 15 de agosto.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Os papagaios de Lucknow

A página: a frase do boicote apareceu em faixas, muros e cartazes de pano. Em Lucknow, ganhou também o céu, na forma de papagaios de papel, como o norte do Brasil chama as pipas.

A coluna: os comissários foram recebidos num evento no Kaiserbagh, o conjunto de palácios dos antigos nababos (governantes muçulmanos da região) de Awadh. A polícia tinha cercado o terreno.

O anúncio: do lado de fora, militantes ligados ao advogado Chaudhry Khaliquzzaman soltaram pipas e balões com a inscrição “Simon, go back”. Eles flutuaram sobre a recepção oficial.

O relato está nas memórias do próprio Khaliquzzaman, Pathway to Pakistan, publicadas em 1961. Ele conta que os papagaios ficaram no ar durante a cerimônia.

A pipa tinha uma vantagem sobre a faixa. A polícia podia arrancar um cartaz da mão de alguém. Para baixar uma pipa, precisava achar a linha, e a linha estava num quintal longe dali.

Pipa era brinquedo comum no norte da Índia. Em Lucknow, as disputas de corte de linha eram um passatempo antigo, com papel colorido e linha passada no vidro moído.

O protesto subiu com o mesmo material das brincadeiras de rua.

As bandeiras pretas tinham papel semelhante. Eram baratas, cabiam num bolso e qualquer pedaço de tecido escuro servia, o que tornava impossível apreender todas antes da passagem do trem.

Khaliquzzaman seguiu carreira política e, anos depois, aderiu à Liga Muçulmana. Em 1947, mudou-se para o Paquistão, onde presidiu a Liga no novo país.

Lucknow guardou outra marca da passagem dos comissários. Foi ali que a polícia feriu Jawaharlal Nehru, e o episódio entrou na autobiografia que ele publicou em 1936, como o dia em que sentiu no corpo a força do governo que combatia.

Os sete comissários deixaram a Índia em abril de 1929, depois da segunda viagem. Nenhum registro oficial menciona as pipas: o relatório de 1930 descreve a recepção como hostil e passa adiante.

A frase “Simon, go back” sobreviveu ao relatório. Ela ainda aparece nos livros didáticos indianos, no capítulo sobre o movimento nacional, como síntese do boicote.

O texto integral do relatório de 1930 está digitalizado no acervo do Parlamento britânico e na biblioteca do Internet Archive. A próxima data para reabrir o caso é 3 de fevereiro de 2028, centenário do desembarque em Bombaim: confira nessa semana os arquivos do Times of India e da Biblioteca Britânica, que costumam liberar páginas da época em aniversários redondos.

★ RARO

🔒

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Quantos indianos havia entre os sete membros da Comissão Simon anunciada em 8 de novembro de 1927?

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CTrês, incluindo Jinnah
DTodos os sete

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