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Em 1927, Montreal perde 78 crianças numa matinê

O incêndio do Laurier Palace fecha a escada do balcão, e o Quebec tira os menores de 16 anos das salas de cinema

Ingresso de cinema antigo caído num degrau de madeira.

Ingresso no degrau, Montreal, 1927

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A lei de cinemas do Quebec já barrava, desde os anos 1910, a entrada de menores de 16 anos sem um adulto, segundo o relatório da comissão do juiz Louis Boyer, de 1927. Na tarde de domingo, 9 de janeiro daquele ano, o Laurier Palace, em Montreal, tinha centenas de crianças sozinhas na plateia.

O cinema ficava na rua Sainte-Catherine Leste, no bairro operário de Hochelaga. Era uma sala de bairro, com plateia embaixo e um balcão em cima, e cobrava poucos centavos pela matinê de domingo.

Os pais de Hochelaga trabalhavam nas fábricas e no porto seis dias por semana. O domingo à tarde era a folga da família, e mandar os filhos ao cinema da esquina custava menos que qualquer outro passeio.

Na bilheteria, ninguém pedia documento. Meninos e meninas de 8, 10 e 12 anos compravam o ingresso com as moedas do bolso e subiam direto para o balcão, o lugar mais disputado da casa.

O balcão tinha bancos de madeira presos ao chão, corredores apertados e pouca luz. De lá, a tela parecia maior, e os maiores levavam os irmãos menores pela mão, porque a mãe tinha mandado cuidar deles.

O programa daquela tarde trazia uma comédia americana muda, Get 'Em Young (Pegue-os Jovens), com piano ao vivo e a gritaria de sempre. Lá embaixo havia alguns adultos. O balcão era quase todo de crianças.

Montreal tinha, em 1927, uma Igreja Católica forte e desconfiada da tela. Os padres pregavam contra a sessão de domingo, e o jornal Le Devoir publicava editoriais contra as salas abertas no dia santo.

Os sermões não esvaziavam a matinê. A lei existia no papel, a fiscalização não aparecia, e a bilheteria do Laurier Palace vendia ingresso a quem chegasse com o dinheiro na mão.

Pouco depois das duas da tarde, uma fumaça subiu de baixo do assoalho do balcão. Dali parte a primeira página de hoje.

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I  A Primeira Página de Hoje

A escada leste do Laurier Palace

O Laurier Palace pertencia a Ameen Lawand, comerciante de Montreal que comprou a sala em meados dos anos 1920. Tinha cerca de 1.100 lugares, somando plateia e balcão, e duas escadas ligavam o andar de cima à rua.

A fumaça apareceu no canto do balcão, perto da cabine de projeção. A causa nunca ficou provada. A comissão Boyer apontou como hipótese mais provável um cigarro aceso caído entre as tábuas do piso.

Um lanterninha (o funcionário que guiava o público no escuro com uma lanterna) gritou para as crianças saírem. Lá embaixo, a plateia saiu pelas portas da frente sem grande atropelo, porque havia espaço e poucos degraus.

No balcão, a fumaça engrossou em minutos. As crianças correram para as duas escadas ao mesmo tempo, e a maioria escolheu a escada leste, a mais próxima e a que levava direto à saída da rua.

O degrau que travou

A escada leste era estreita e fazia uma curva antes da porta. Uma criança tropeçou nos últimos degraus, outras caíram por cima, e a pilha de corpos fechou a passagem de parede a parede.

A porta do pé da escada abria para dentro, segundo o relatório da comissão. Com o peso das crianças empurrando de cima, ninguém conseguia puxá-la, nem de dentro nem de fora.

O fogo mal chegou à escada: quem matou foi a fumaça e o aperto.

Os bombeiros do quartel vizinho chegaram em poucos minutos. Encontraram a porta bloqueada e começaram a tirar as crianças pela frente da pilha, uma a uma, enquanto outras subiam pelas janelas do balcão com escadas de mão.

Policiais e vizinhos entraram juntos. Muitos pais, avisados pela fumaça na rua, correram até a Sainte-Catherine e tentaram furar o cordão para procurar os filhos.

Os corpos foram levados para o necrotério da cidade e para casas vizinhas. Durante a noite, pais percorreram as salas com lanternas, reconhecendo os filhos pela roupa de domingo.

O fogo em si queimou pouco do prédio. A maioria das vítimas sufocou na fumaça ou foi esmagada na escada leste, sem nenhuma queimadura grave, conforme o legista registrou nos dias seguintes.

A contagem final chegou a 78 crianças, quase todas entre 4 e 18 anos. Algumas famílias de Hochelaga perderam dois e três filhos na mesma tarde.

A escada oeste, menos usada, deixou sair quem a escolheu. A diferença entre as duas saídas virou o centro de toda a investigação.

O cardeal-arcebispo da cidade celebrou o funeral coletivo na igreja da Nativité de Hochelaga, com os pequenos caixões brancos enfileirados na nave.

Nos editoriais da semana, o Le Devoir cobrou os pais e os donos de sala, e lembrou aos leitores os sermões contra a matinê de domingo.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A comissão Boyer e as salas sem crianças

O governo do Quebec nomeou o juiz Louis Boyer, da Corte Superior, para chefiar uma comissão real de inquérito (investigação oficial com poder de convocar testemunhas). As audiências começaram poucas semanas depois do incêndio.

Boyer ouviu bombeiros, policiais, funcionários do cinema, pais e donos de outras salas. Ouviu também padres e líderes católicos, que pediam o fechamento dos cinemas aos domingos e a proibição total de crianças.

O relatório saiu ainda em 1927. Confirmou a porta que abria para dentro, a escada estreita, a falta de lanterninhas suficientes e a venda livre de ingressos a menores desacompanhados.

Boyer não recomendou fechar os cinemas no domingo. Recomendou regras de segurança mais duras: portas abrindo para fora, escadas largas e iluminadas, extintores e funcionários treinados para esvaziar a sala.

Pediu também inspeção regular das salas pela prefeitura e multa pesada para quem vendesse ingresso a menor desacompanhado. A regra antiga, dizia o juiz, falhou por falta de fiscal, nunca por falta de texto.

A lei de 1928

A Assembleia Legislativa do Quebec foi mais longe que o juiz. Em 1928, alterou a lei de cinemas e proibiu a entrada de menores de 16 anos em qualquer sala, mesmo acompanhados pelos pais.

Uma tarde de domingo tirou do cinema uma geração inteira de crianças do Quebec.

A proibição valeu por 34 anos. As exceções eram as sessões especiais, aprovadas pelo governo e geralmente em escolas e salas paroquiais, com filmes escolhidos pela censura provincial.

Ameen Lawand, o dono do Laurier Palace, foi a julgamento com dois funcionários. A Justiça o condenou por ter deixado menores entrarem sozinhos, mas a pena ficou longe da prisão longa que muitos pais esperavam.

O Laurier Palace fechou as portas. O prédio da Sainte-Catherine Leste ainda passou por outros donos e outros usos nas décadas seguintes.

Nas paróquias, os padres organizaram sessões próprias, com filmes religiosos e desenhos aprovados. Para muitas crianças do Quebec, o cinema dos anos 1930 e 1940 aconteceu no porão da igreja.

A regra só caiu em 1961, quando o governo de Jean Lesage, eleito no ano anterior, revisou a censura de cinema do Quebec. A partir dali, a idade mínima dependia da classificação de cada filme.

Os jornais do Quebec tratam a lei de 1928 como um dos marcos da influência da Igreja sobre a vida pública da província, desfeita aos poucos nos anos 1960 da Revolução Tranquila (a modernização política e social do Quebec).

As regras de segurança de Boyer duraram mais que a proibição. Portas abrindo para fora e saídas sinalizadas viraram padrão nas salas de espetáculo do Canadá.

 

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III  O Anúncio da Página 3

La Presse, a lista e os anúncios de segunda

A página: na segunda-feira, 10 de janeiro, o jornal La Presse saiu com o incêndio no alto da primeira página, a foto da fachada do Laurier Palace e a pilha de corpos descrita pelos bombeiros.

A coluna: o Montreal Star e a Gazette, os jornais em inglês da cidade, cobraram a prefeitura. Queriam saber quem tinha inspecionado a sala e por que a porta da escada leste abria para dentro.

O anúncio: as outras salas de Montreal publicaram avisos nos jornais da semana. Garantiam saídas largas, portas novas e funcionários atentos, ao lado dos horários das sessões de sempre.

Os anúncios mudaram de tom. Saíram as promessas de risada para toda a família, entraram frases sobre conforto, ventilação e segurança, escritas para acalmar os pais.

A lista das vítimas saiu completa nos dias seguintes, com nome, idade e endereço. As ruas de Hochelaga apareciam de novo e de novo, uma depois da outra, na mesma coluna.

Os jornais também publicaram fotos das crianças, cedidas pelas famílias. Muitas tinham sido tiradas na primeira comunhão, com o terno escuro dos meninos e o vestido branco das meninas.

O Le Devoir transformou a tragédia em campanha. Os editoriais pediam o fim da sessão de domingo, a censura mais dura dos filmes americanos e o afastamento das crianças da tela.

A imprensa de fora também cobriu o caso. Jornais de Nova York, Toronto e Paris publicaram a notícia, e o Laurier Palace entrou na lista dos piores incêndios de cinema do século.

As 78 vítimas foram enterradas, em sua maioria, no cemitério Notre-Dame-des-Neiges, em Montreal. Um monumento coletivo marca hoje parte dos túmulos.

Quem quiser ler aquelas páginas encontra La Presse e Le Devoir de janeiro de 1927 digitalizados no portal da Bibliothèque et Archives nationales du Québec (BAnQ), com busca por data.

Em 9 de janeiro de 2027, o incêndio completa 100 anos. Reconfira a lista das 78 vítimas no portal numerique.banq.qc.ca e no site do cemitério Notre-Dame-des-Neiges na semana do centenário.

★ RARO

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No Laurier Palace, por que a porta no pé da escada leste não abriu durante a fuga das crianças?

APorque estava trancada a cadeado pelo dono do cinema
BPorque abria para dentro e o peso das crianças empilhadas a bloqueou
CPorque o fogo já tinha destruído as dobradiças
DPorque os bombeiros a bloquearam por fora para conter a fumaça

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