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Em 1927, o Principessa Mafalda afunda na Bahia

O eixo da hélice rasgou o casco do navio de emigrantes italianos diante de Porto Seguro, e 314 pessoas não voltaram

Boia salva-vidas antiga num cais diante do mar escuro.

Principessa Mafalda, costa da Bahia, 1927

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Em 1909, o Principessa Mafalda estreou na linha de Gênova a Buenos Aires como o navio mais luxuoso da Navigazione Generale Italiana, a maior companhia de navegação da Itália. Em 25 de outubro de 1927, o mesmo navio afundou na costa da Bahia levando emigrantes pobres, com o casco aberto pela própria hélice (as duas datas estão no registro da companhia e na cobertura do Jornal do Brasil de 27 de outubro de 1927).

O nome era o de uma princesa. Mafalda de Saboia, segunda filha do rei Vítor Emanuel III, tinha cinco anos quando o navio foi lançado ao mar no estaleiro de Riva Trigoso, perto de Gênova, em 1908.

O navio tinha 146 metros, duas chaminés e duas hélices. Nos primeiros anos, levava a elite de Buenos Aires e de São Paulo em camarotes de madeira escura, com salão de música e sala de jantar de teto alto.

Vinte anos depois, o luxo tinha ido para navios novos. O Principessa Mafalda foi rebaixado à rota dos emigrantes, os italianos que trocavam a Ligúria, o Piemonte e o Vêneto pelas fazendas de café e pelas fábricas do Brasil e da Argentina.

Em 11 de outubro de 1927, ele deixou Gênova com cerca de 1.250 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulantes. Havia famílias inteiras na terceira classe, com malas de papelão e as economias costuradas na roupa.

O comandante era Simone Gulì, siciliano, com quase 40 anos de mar. Era a última viagem dele antes da aposentadoria.

A travessia começou mal. Depois de Barcelona e de Cabo Verde, as máquinas pararam mais de uma vez em alto-mar, e o navio seguiu adernando de leve para um lado, inclinado como quem carrega peso mal distribuído.

Na tarde de 25 de outubro, a cerca de 150 quilômetros da costa, na altura de Porto Seguro, a peça que movia a hélice esquerda se partiu. Dali em diante, o navio tinha poucas horas.

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I  A Primeira Página de Hoje

O eixo que girou solto

O eixo de uma hélice é uma barra de aço maciça que sai da casa de máquinas e atravessa o casco até a popa. Num navio do porte do Mafalda, ele gira dentro de um tubo vedado, o túnel do eixo, por onde a água do mar não pode entrar.

Por volta das 17h15 daquele dia, o eixo esquerdo se partiu. A hélice, solta, continuou girando com o resto da barra e bateu contra o costado, a parede lateral do casco, abaixo da linha da água.

O golpe abriu um rombo. A água entrou pelo túnel do eixo e pela fenda no aço, e foi enchendo a casa de máquinas da popa para a frente.

Os primeiros minutos

Os maquinistas tentaram fechar as portas estanques, as portas de vedação que isolam um compartimento do outro. Segundo os depoimentos dos sobreviventes publicados pela imprensa italiana, uma parte delas não fechou por inteiro.

O comandante Gulì mandou o telegrafista Luigi Reschia transmitir o pedido de socorro pelo rádio. Reschia ficou no posto até a energia acabar, repetindo a posição do navio aos vapores que estavam por perto.

No convés, a notícia correu em italiano, em espanhol e nos dialetos do norte da Itália. Muitos emigrantes nunca tinham visto o mar antes do embarque e não sabiam nadar.

O rádio salvou a maior parte dos passageiros: cinco navios ouviram o chamado e mudaram de rota antes do anoitecer.

Os botes e o pânico

O primeiro a chegar foi o cargueiro holandês Alhena. Logo depois vieram o britânico Empire Star e o francês Formose, que baixaram os próprios botes e se aproximaram do casco inclinado.

A descida dos botes do Mafalda foi desordenada. Alguns viraram ao bater na água, outros saíram com poucas pessoas, e houve briga nas escadas entre a terceira classe e o convés de cima.

Jornais da época falaram em tubarões em volta dos botes. Os relatos vêm de sobreviventes ouvidos semanas depois, e nenhum registro oficial confirmou quantas vítimas eles fizeram.

Por volta das 22h, com a popa cheia, o Principessa Mafalda afundou de ré. O comandante Simone Gulì ficou a bordo e desceu com o navio, como manda a tradição do mar. O corpo dele nunca foi encontrado.

Entre o estalo do eixo e o fim, passaram cerca de cinco horas. Foi tempo suficiente para os navios vizinhos chegarem, e curto demais para esvaziar um casco com mais de mil pessoas usando botes a remo, no escuro, num mar que começava a encrespar.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A conta do Alhena e o inquérito de Roma

O Alhena sozinho recolheu cerca de 500 náufragos. O navio holandês ficou a noite inteira no local, com as luzes acesas e redes jogadas pelo costado para quem chegava nadando.

Os sobreviventes desembarcaram em Salvador e no Rio de Janeiro nos dias seguintes. Muitos chegaram sem documento, sem bagagem e sem a família, separados na escuridão entre botes e navios diferentes.

O número oficial e o número contestado

O governo italiano de Benito Mussolini fechou a lista em 314 vítimas, número divulgado pelo Ministério da Marinha em novembro de 1927. A imprensa brasileira e a argentina publicaram contagens maiores, com base nos nomes que não apareceram nas listas de resgatados.

A diferença nunca foi resolvida. A lista de passageiros da terceira classe tinha erros de grafia e nomes repetidos, e parte dos emigrantes viajava com documento de parente, o que impediu a conferência nome por nome.

Para o regime fascista, o naufrágio era assunto incômodo. O Mafalda era uma vitrine da marinha mercante italiana, e a censura segurou nos jornais de Roma e de Milão as críticas ao estado do navio.

O inquérito apontou a ruptura do eixo como causa e não levou nenhum dirigente da companhia a julgamento.

O destino da companhia

A Navigazione Generale Italiana continuou operando até 1932. Naquele ano, o governo fundiu a empresa com outras duas, a Lloyd Sabaudo e a Cosulich, numa só, a Italia Flotte Riunite, que passou a fazer as rotas para a América do Sul.

O navio nunca foi recuperado. O casco está no fundo do Atlântico, numa área de águas profundas ao largo do arquipélago de Abrolhos, sem exploração registrada até hoje.

As famílias que esperavam os parentes no porto de Santos e em Buenos Aires receberam a notícia pelos jornais. Em várias cidades do interior paulista, as colônias italianas organizaram missas e coletas para os sobreviventes que chegaram sem nada.

O comandante Gulì recebeu homenagem póstuma do governo italiano. O telegrafista Luigi Reschia, que também ficou no posto até o fim, ganhou medalha de ouro por bravura, e o nome dele passou a batizar ruas na Itália.

O caso entrou na memória da emigração italiana ao lado do Sirio, outro vapor de emigrantes que tinha naufragado na costa da Espanha em 1906. Os dois viraram assunto de canção popular.

 

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III  O Anúncio da Página 3

A balada das feiras

A página: em 27 de outubro de 1927, o Jornal do Brasil abriu a primeira página com o naufrágio, a lista parcial dos resgatados e a chegada dos primeiros sobreviventes à Bahia. Os jornais paulistas seguiram a mesma linha nos dias seguintes.

A coluna: em São Paulo, o Fanfulla, diário em língua italiana da colônia paulistana, publicou durante semanas os nomes dos desaparecidos, enviados por famílias que procuravam parentes. A lista virou o principal canal de busca para quem não sabia se o pai ou o irmão tinha embarcado.

O anúncio: a mesma imprensa seguiu publicando os horários de partida dos vapores para Gênova e para Buenos Aires. A rota dos emigrantes não parou depois do naufrágio.

O naufrágio virou canção cantada nas praças da Itália, do Brasil e da Argentina, e a letra sobreviveu ao navio.

Os cantores de rua, os cantastorie (contadores de histórias cantadas, na tradição italiana), espalharam uma balada sobre o Mafalda nas feiras do norte da Itália. Vendiam a letra impressa em folha solta, a poucos centavos.

A canção ganhou versões em dialeto vêneto no sul do Brasil, entre os colonos da serra gaúcha. Os versos contam a partida de Gênova, a quebra do eixo, o comandante que ficou a bordo e as mães que gritavam pelos filhos na água.

Por ser cantada de memória, a letra mudava de cidade para cidade. Em algumas versões o navio afunda de dia, em outras o número de vítimas cresce a cada estrofe. A canção guardou o espanto do caso, e não a conta exata.

A memória que ficou

O folclorista Roberto Leydi registrou versões da balada em pesquisas de campo no norte da Itália e publicou o material em I canti popolari italiani (Os cantos populares italianos), de 1973. A canção circulava de boca em boca quase meio século depois do naufrágio.

No Brasil, o caso aparece em museus e arquivos da imigração. O acervo do Museu da Imigração do Estado de São Paulo guarda registros de italianos que chegaram ao país naquela década, e pesquisadores usam esse material para rastrear sobreviventes.

O centenário do naufrágio cai em 25 de outubro de 2027, uma segunda-feira. Reconfira a programação de cerimônias e exposições no site do Museu da Imigração do Estado de São Paulo em setembro de 2027.

 
 
Quiz da edição

O que abriu o casco do Principessa Mafalda na tarde de 25 de outubro de 1927, ao largo de Porto Seguro?

AO navio bateu em um recife na costa baiana
BUma explosão na caldeira rompeu as chapas do casco
CO eixo partido da hélice esquerda bateu contra o costado
DO navio colidiu com outro vapor durante a travessia

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