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O eixo de uma hélice é uma barra de aço maciça que sai da casa de máquinas e atravessa o casco até a popa. Num navio do porte do Mafalda, ele gira dentro de um tubo vedado, o túnel do eixo, por onde a água do mar não pode entrar.
Por volta das 17h15 daquele dia, o eixo esquerdo se partiu. A hélice, solta, continuou girando com o resto da barra e bateu contra o costado, a parede lateral do casco, abaixo da linha da água.
O golpe abriu um rombo. A água entrou pelo túnel do eixo e pela fenda no aço, e foi enchendo a casa de máquinas da popa para a frente.
Os primeiros minutos
Os maquinistas tentaram fechar as portas estanques, as portas de vedação que isolam um compartimento do outro. Segundo os depoimentos dos sobreviventes publicados pela imprensa italiana, uma parte delas não fechou por inteiro.
O comandante Gulì mandou o telegrafista Luigi Reschia transmitir o pedido de socorro pelo rádio. Reschia ficou no posto até a energia acabar, repetindo a posição do navio aos vapores que estavam por perto.
No convés, a notícia correu em italiano, em espanhol e nos dialetos do norte da Itália. Muitos emigrantes nunca tinham visto o mar antes do embarque e não sabiam nadar.
O rádio salvou a maior parte dos passageiros: cinco navios ouviram o chamado e mudaram de rota antes do anoitecer. |
Os botes e o pânico
O primeiro a chegar foi o cargueiro holandês Alhena. Logo depois vieram o britânico Empire Star e o francês Formose, que baixaram os próprios botes e se aproximaram do casco inclinado.
A descida dos botes do Mafalda foi desordenada. Alguns viraram ao bater na água, outros saíram com poucas pessoas, e houve briga nas escadas entre a terceira classe e o convés de cima.
Jornais da época falaram em tubarões em volta dos botes. Os relatos vêm de sobreviventes ouvidos semanas depois, e nenhum registro oficial confirmou quantas vítimas eles fizeram.
Por volta das 22h, com a popa cheia, o Principessa Mafalda afundou de ré. O comandante Simone Gulì ficou a bordo e desceu com o navio, como manda a tradição do mar. O corpo dele nunca foi encontrado.
Entre o estalo do eixo e o fim, passaram cerca de cinco horas. Foi tempo suficiente para os navios vizinhos chegarem, e curto demais para esvaziar um casco com mais de mil pessoas usando botes a remo, no escuro, num mar que começava a encrespar.
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