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Em 1927, Viena incendeia o Palácio da Justiça

A absolvição dos atiradores de Schattendorf leva operários ao tribunal, o arquivo de processos queima e a polícia abre fogo

Pastas de processo antigas com as bordas queimadas.

Autos queimados, Viena, 1927

▼
 

Os réus de Schattendorf nunca negaram os tiros: Josef Tscharmann, o irmão Hieronymus Tscharmann e Johann Pinter admitiram diante do júri ter disparado da janela de uma taberna, segundo a cobertura do Arbeiter-Zeitung (o Jornal Operário, diário dos social-democratas austríacos) de 1927. Na noite de 14 de julho daquele ano, os jurados de Viena absolveram os três.

Schattendorf é uma aldeia do Burgenland, a província mais nova da Áustria, encostada na fronteira com a Hungria. Em 30 de janeiro de 1927, um cortejo do Schutzbund (a milícia armada dos social-democratas) passou pela rua da taberna da família Tscharmann.

Dentro dela estavam homens da Frontkämpfervereinigung (a associação de ex-combatentes, milícia da direita). Os disparos atingiram o cortejo. Ficaram no chão Matthias Csmarits, inválido da Grande Guerra, e Josef Grössing, um menino de 6 anos.

A Áustria de 1927 vivia dividida em dois campos armados. Viena tinha prefeitura social-democrata desde 1919. O governo federal pertencia ao Partido Social Cristão do chanceler Ignaz Seipel, padre católico e professor de teologia.

O julgamento correu no Tribunal Regional de Viena, com doze jurados sorteados entre cidadãos comuns. A defesa alegou legítima defesa diante do cortejo. Os jurados aceitaram a tese, e os três saíram livres pela porta da frente.

Na mesma noite, Friedrich Austerlitz, redator-chefe do Arbeiter-Zeitung, escreveu o editorial da manhã seguinte. O texto chamava os réus de assassinos de operários e tratava a sentença como afronta a toda a classe trabalhadora.

Os líderes do partido não convocaram protesto algum. Os operários decidiram sozinhos. Logo cedo, em 15 de julho, os trabalhadores das usinas elétricas cortaram a força, os bondes pararam e as fábricas dos bairros de fora esvaziaram.

As colunas desceram a pé até o Ring, o grande bulevar circular do centro. Atrás do Parlamento ficava um prédio de pedra dedicado à lei, com Justitia esculpida na fachada. Ali a manhã de protesto virou tarde de fogo, e é a primeira página de hoje.

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I  A Primeira Página de Hoje

O arquivo em chamas na Schmerlingplatz

A resposta de ontem

Em que ano a falha de Gomura virou monumento natural?

Em 1929, dois anos depois do tremor, o governo do Japão declarou a falha de Gomura monumento natural nacional, com base na lei de proteção de 1919. O trecho protegido fica em Kyotango, e o degrau entre os arrozais segue visível, segundo o cadastro da Agência de Assuntos Culturais do Japão.

O Palácio da Justiça de Viena ocupa a Schmerlingplatz, praça vizinha ao Parlamento. O arquiteto Alexander Wielemans o desenhou, e a obra ficou pronta em 1881, com um grande salão coberto por vidro no centro.

Para os operários que chegavam pelo Ring, o prédio guardava a sentença da véspera. Era ali dentro que os tribunais de Viena decidiam, e era ali que dormiam as pastas dos processos da cidade.

A polícia montada tentou dispersar a multidão nas ruas em volta. As cargas a cavalo, com sabres, deixaram feridos e enfureceram quem assistia. Pedras voaram contra a guarda posta na entrada.

Por volta do meio-dia, os manifestantes arrombaram as portas do térreo. Subiram as escadas, quebraram janelas e jogaram pela fachada móveis, retratos e maços de autos (os documentos de cada processo judicial).

Na praça, alguém acendeu os papéis empilhados. O fogo voltou para dentro pelas janelas abertas, pegou as salas de arquivo e subiu até o telhado. A cúpula de vidro do salão central rachou com o calor.

Os bombeiros barrados

Os bombeiros chegaram e não passaram. A multidão cortou as mangueiras e cercou os carros, porque queria ver o palácio arder até a última viga.

O prefeito Karl Seitz, social-democrata, subiu num carro dos bombeiros e pediu passagem aos próprios eleitores. Julius Deutsch, chefe do Schutzbund, mandou seus homens abrir um corredor. Os dois conseguiram pouco.

A multidão queimou o lugar onde se guardava a lei para protestar contra uma sentença.

Enquanto isso, o chefe de polícia Johannes Schober tomava a decisão do dia. Ele pediu ao governo fuzis do Exército e distribuiu as armas aos policiais, gente treinada para patrulha de rua, nunca para controle de multidão.

No começo da tarde, as colunas de policiais avançaram pela Schmerlingplatz e pelas ruas vizinhas. Atiraram contra a multidão, inclusive contra quem fugia de costas para eles.

Um estudante de química de 21 anos, Elias Canetti, estava no meio da gente. Tinha visto a manchete do Arbeiter-Zeitung num café de bairro e pedalado até o centro. Mais de cinquenta anos depois, ele descreveu o dia nas memórias:

“É o que de mais próximo de uma revolução eu vivi no próprio corpo.” (Elias Canetti, A Tocha no Ouvido, 1980)

O palácio queimou até a noite. Quando as chamas baixaram, sobravam as paredes de pedra, o telhado desabado e montes de papel molhado no pátio.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Fuzis no Ring e um prelado sem clemência

A contagem que a polícia de Viena divulgou em 1927 fechou em 89 mortos: 84 manifestantes e passantes, e 5 policiais. Os feridos encheram os hospitais da cidade durante a semana inteira.

Os social-democratas responderam no dia 16 com uma greve geral e uma greve dos transportes. Em Viena, a cidade parou. Nas províncias, as Heimwehren (as milícias regionais de direita, armadas e ligadas aos camponeses) furaram a greve.

No Tirol e na Estíria, os homens da Heimwehr ocuparam estações, puseram trens para rodar e ameaçaram os grevistas. A direção social-democrata recuou, e a greve acabou sem nenhuma exigência atendida.

No Parlamento, Seipel defendeu a polícia e recusou qualquer anistia aos presos do dia 15. A imprensa operária passou a chamá-lo de Prälat ohne Milde, o prelado sem clemência.

Schober também ficou no cargo. O satirista Karl Kraus, editor da revista Die Fackel (A Tocha), pagou do próprio bolso cartazes colados pelos muros de Viena em setembro com uma linha só:

“Exijo do senhor a renúncia.” (Karl Kraus, cartaz dirigido a Johannes Schober, 1927)

Kraus voltou ao caso em vários números da Die Fackel nos meses seguintes, cobrando de Schober, página após página, a responsabilidade pela ordem de atirar contra gente desarmada.

Schober não renunciou. Em 1929, virou chanceler da Áustria. Kraus seguiu atacando o policial por anos nas páginas da revista e numa peça satírica sobre o caso.

O tiro de 15 de julho rachou a república em dois campos armados.

Os historiadores austríacos tratam o dia como o começo da agonia da Primeira República. As Heimwehren cresceram nos anos seguintes, e o Schutzbund se armou à espera do confronto.

O confronto chegou em fevereiro de 1934. O chanceler Engelbert Dollfuss, que tinha fechado o Parlamento no ano anterior, mandou o Exército contra o Schutzbund, e os combates em Viena e Linz duraram quatro dias.

E os três de Schattendorf? A absolvição de 1927 foi definitiva, e eles não voltaram a responder pelos tiros. A historiografia sobre o caso não documenta o resto da vida deles: os estudos se concentram no julgamento, e os arquivos locais pouco guardaram dos réus.

Canetti levou o dia consigo. Em 1960, publicou Massa e Poder, ensaio sobre o comportamento das multidões, e apontou o 15 de julho como uma das raízes do livro.

O palácio foi reconstruído nos anos seguintes, com a mesma fachada. Hoje abriga o Oberster Gerichtshof, o Supremo Tribunal da Áustria, e recebe visitantes no salão central restaurado.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Austerlitz, a manchete e os jornais do dia 16

A página: na manhã de 15 de julho, o Arbeiter-Zeitung saiu com o editorial de Austerlitz no alto da primeira página. Foi essa folha que Canetti leu no café e que os operários levaram nos bolsos até o Ring.

A coluna: a Reichspost, diário católico próximo de Seipel, contou o mesmo dia com outros culpados. Para ela, uma turba incitada pela imprensa socialista tinha atacado a casa da lei.

O anúncio: a greve do dia 16 atrasou a impressão e a entrega dos jornais. Os avisos de horário de bonde, de comércio fechado e de funerais tomaram o lugar dos anúncios de sempre.

Austerlitz carregou a culpa pelo resto da vida. Os adversários diziam que o editorial tinha posto fogo no palácio. Ele morreu em 1931, ainda à frente do jornal, sem nunca retirar uma palavra do texto.

O incêndio também apagou papel. Parte dos processos guardados no prédio e dos livros do registro de imóveis da cidade virou cinza ou ficou ilegível com a água das mangueiras.

A perda pesou no dia a dia da cidade. Um processo em andamento podia sumir com as provas, e advogados tiveram de reconstituir petições, laudos e depoimentos a partir das cópias guardadas nos próprios escritórios.

Os cartórios passaram anos refazendo registros a partir de cópias, certidões guardadas pelos donos e escrituras dos tabeliães. Herdeiros e compradores de Viena precisaram provar de novo a quem pertencia cada terreno.

As fotografias do palácio em chamas correram a Europa. Os jornais de Berlim, Paris e Londres publicaram a fachada com fumaça nas janelas, e a imagem virou símbolo da instabilidade austríaca.

A lista dos mortos saiu nos jornais nos dias seguintes, com nome, idade e profissão. Havia operários, aprendizes, donas de casa e gente parada na calçada para ver o fogo.

O cemitério central de Viena recebeu o enterro coletivo das vítimas poucos dias depois. Os social-democratas fizeram do cortejo um protesto silencioso, e o túmulo comum segue lá.

Quem quiser ler aquelas páginas encontra o Arbeiter-Zeitung e a Reichspost de julho de 1927 digitalizados no portal ANNO, da Biblioteca Nacional da Áustria, com busca por data.

Em 15 de julho de 2027, o incêndio completa 100 anos, e Viena prepara a data. Reconfira os 89 mortos e a lista das vítimas no portal ANNO e no site do Arquivo Municipal de Viena (wien.gv.at) na semana do centenário.

 
 
Quiz da edição

Segundo a contagem que a polícia de Viena divulgou em 1927, quantas pessoas morreram no confronto de 15 de julho?

A52 mortos, todos manifestantes
B89 mortos, sendo 84 manifestantes e passantes e 5 policiais
C15 mortos, um grupo pequeno de feridos graves
D130 mortos, incluindo os três réus de Schattendorf

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