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Em 1928, Moscou julga 53 engenheiros de Chakhti

Acusados de sabotar as minas de carvão do Donbass, os especialistas ouviram 11 sentenças capitais num tribunal aberto ao país

Lamparina de mineiro apagada sobre pedaços de carvão.

Processo de Chakhti, Moscou, 1928

▼
 

Em 1928, o primeiro plano quinquenal soviético pedia que as minas do Donbass mais que dobrassem a extração de carvão em cinco anos. No mesmo ano, entre 18 de maio e 6 de julho, Moscou sentou no banco dos réus 53 engenheiros e técnicos dessas mesmas minas, acusados de sabotar a produção (as metas estão nos documentos do Gosplan, e o processo saiu dia a dia no Pravda).

Chakhti é uma cidade mineira no sul da Rússia, na região de Rostov, na ponta leste da bacia carbonífera do Donbass. Em 1928, o carvão dali movia locomotivas, siderúrgicas e usinas de metade do país.

Os engenheiros das minas tinham, em boa parte, aprendido o ofício antes de 1917. Alguns tinham trabalhado para os antigos donos, empresas russas, belgas e francesas que perderam tudo com a revolução.

O governo precisava deles. A União Soviética tinha pouquíssimos especialistas formados no regime novo, e a indústria pesada dependia de quem sabia ler uma planta de galeria, calcular ventilação e escorar um poço.

Em 10 de março de 1928, o Pravda anunciou a descoberta de uma organização contrarrevolucionária nas minas de Chakhti. Segundo a polícia política, a OGPU, os engenheiros inundavam galerias, quebravam máquinas e provocavam acidentes por ordem de antigos proprietários exilados em Paris e de serviços estrangeiros.

Entre os presos havia três cidadãos alemães, técnicos da AEG, a empresa que fornecia equipamento às minas. A prisão deles virou caso diplomático com Berlim nas semanas seguintes.

A acusação chegou às fábricas e aos clubes operários antes do julgamento. Houve assembleias em todo o país pedindo punição exemplar aos sabotadores, com cartazes e moções votadas por aclamação.

O lugar escolhido para o processo foi a Sala das Colunas da Casa dos Sindicatos, no centro de Moscou, o antigo salão de baile da nobreza. Cabiam ali centenas de pessoas, e havia lugar reservado para a imprensa soviética e a estrangeira.

Em 18 de maio de 1928, os 53 réus entraram na sala. O que se ouviu nas sete semanas seguintes foi transmitido pelo rádio e impresso nos jornais de todo o país.

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I  A Primeira Página de Hoje

Sete semanas na Sala das Colunas

O tribunal era uma sessão especial da Suprema Corte da União Soviética. Presidia o julgamento Andrei Vichinski, então reitor da Universidade de Moscou, um jurista que anos depois seria o promotor dos grandes processos de 1936 a 1938.

A acusação ficou com Nikolai Krilenko, o procurador da República Russa. Ele conduziu os interrogatórios com o salão cheio e os jornalistas anotando cada resposta.

As confissões

A peça central do processo foram as confissões. Uma parte dos réus admitiu a sabotagem em detalhe, com nomes, datas e valores supostamente recebidos do exterior.

Outra parte negou tudo. Alguns réus confessaram nos interrogatórios da OGPU e voltaram atrás diante do tribunal, dizendo que tinham assinado sob pressão, e depois recuaram de novo.

Não houve prova material de peso. Nenhuma ordem escrita dos antigos donos, nenhum pagamento rastreado, nenhum laudo técnico independente sobre as galerias inundadas.

O processo de Chakhti condenou por sabotagem falhas que as minas do Donbass já tinham antes da revolução: água nas galerias, máquinas velhas e acidentes.

O lado técnico

Os defensores tentaram mostrar que as falhas das minas tinham causa conhecida. O equipamento era antigo, faltava peça de reposição, e as metas de produção cresciam mais rápido do que a manutenção conseguia acompanhar.

A explicação técnica não pesou. Para a acusação, cada inundação e cada máquina parada fazia parte do mesmo plano, e a falta de prova era sinal da habilidade dos sabotadores.

Os técnicos alemães foram tratados com mais cuidado. Berlim acompanhava cada sessão, e o governo soviético negociava ao mesmo tempo acordos comerciais com a Alemanha.

Na plateia, a cena tinha ritmo de espetáculo. Delegações de fábricas entravam por turnos, ouviam algumas horas de interrogatório e voltavam para contar aos colegas o que tinham visto.

Os réus mais velhos tinham mais de 60 anos. Alguns tinham dirigido minas por três décadas e falavam de galerias que conheciam metro a metro, diante de juízes que nunca tinham descido num poço.

A sentença

Em 6 de julho de 1928, o tribunal leu a sentença. Onze réus foram condenados à pena capital. Quatro foram absolvidos, entre eles dois dos alemães, e os demais receberam penas de prisão de um a dez anos.

Das onze sentenças capitais, seis foram comutadas em prisão pelo Comitê Executivo Central. Os outros cinco engenheiros foram fuzilados.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O especialista virou suspeito

O processo não ficou restrito a Chakhti. Em abril de 1928, antes de o julgamento começar, Stálin já tinha tratado o caso numa reunião do Comitê Central como sinal de que a burguesia derrotada lutava por dentro da economia.

A palavra que se espalhou foi vreditelstvo, que o russo usa para sabotagem e dano deliberado. Ela passou a nomear qualquer falha industrial que alguém quisesse explicar sem olhar a máquina.

O medo nas fábricas

Os engenheiros formados antes de 1917 entenderam o recado. Uma decisão técnica errada, um forno parado ou uma meta perdida podiam virar acusação política.

Muitos passaram a evitar assinatura em projeto arriscado. Outros aceitavam metas impossíveis em silêncio, para não parecer que freavam a produção.

Ao mesmo tempo, o governo acelerou a formação de engenheiros novos, filhos de operários e camponeses, recrutados para cursos rápidos nos institutos técnicos. A ideia era trocar a geração suspeita por uma geração leal.

A conta da troca apareceu nas obras. Turmas formadas em dois ou três anos assumiram minas, altos-fornos e barragens do plano quinquenal, e os acidentes de trabalho subiram nos primeiros anos da industrialização acelerada.

A cada acidente, a explicação disponível era a mesma de Chakhti. Procurava-se primeiro o sabotador, e só depois a causa técnica.

Depois de Chakhti, todo especialista da indústria soviética trabalhava sabendo que a falha da máquina podia virar crime do homem.

Os processos seguintes

O modelo se repetiu. Em novembro e dezembro de 1930, outro julgamento em Moscou, o do chamado Partido Industrial, levou ao banco oito engenheiros e economistas acusados de preparar uma intervenção estrangeira.

Em 1931 veio o processo dos mencheviques, com economistas do planejamento. Os dois seguiram o roteiro de Chakhti: confissão pública, plateia cheia, imprensa presente e sentença anunciada ao país.

Krilenko e Vichinski continuaram na justiça soviética. Vichinski seria a voz dos processos de Moscou de 1936 a 1938. Krilenko foi preso em 1938 e fuzilado no expurgo que ajudou a montar.

A revisão

Por décadas, o caso ficou nos livros soviéticos como prova da luta contra a sabotagem. Historiadores de fora, com acesso aos arquivos depois de 1991, passaram a tratar o processo como montagem da OGPU.

Os condenados de Chakhti foram reabilitados pela Procuradoria-Geral da Rússia em 2000, segundo os registros de reabilitação publicados no período. A maior parte deles não tinha mais família viva para receber a notícia.

 

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III  O Anúncio da Página 3

A sala cheia nos jornais

A página: em 19 de maio de 1928, o Pravda abriu a primeira página com a sessão inaugural do processo, a lista dos acusados e a leitura da acusação. O jornal publicou trechos dos interrogatórios durante as sete semanas.

A coluna: os jornais estrangeiros mandaram correspondentes à Sala das Colunas. A imprensa alemã acompanhou de perto o destino dos técnicos da AEG, e as colunas de Berlim falavam em reféns.

O anúncio: na mesma imprensa soviética, as páginas seguintes traziam chamadas para os cursos técnicos e para as obras do plano quinquenal. O país que julgava engenheiros pedia, na página ao lado, mais engenheiros.

O processo de Chakhti foi feito para ser lido: a sala, o rádio e o jornal transformaram o tribunal num curso público sobre quem era o inimigo.

O formato tinha um objetivo claro. O operário que lia o Pravda no clube da fábrica aprendia que a mina parada tinha culpado com nome e sobrenome.

As sessões foram filmadas e fotografadas. Os retratos dos réus apareciam em fila, com legenda, como numa galeria de procurados.

Nas províncias, o processo chegava pelo jornal mural, a folha pregada na parede da fábrica ou do kolkhoz. Ali o resumo das sessões dividia espaço com as metas de produção da semana e com a lista dos operários de choque, os trabalhadores premiados por bater a meta.

O que o leitor de 1928 não via

O leitor não via os interrogatórios da OGPU, as semanas de prisão antes do julgamento nem as negativas que os réus fizeram fora da sala. A página publicava a confissão e cortava o recuo.

Também não via o estado das minas. As reportagens sobre galerias inundadas citavam a acusação, e nenhuma ouvia um engenheiro de fora do processo.

O arquivo hoje

A transcrição do processo foi publicada em russo ainda em 1928, em volumes que circularam pelas bibliotecas soviéticas. Pesquisadores usam esse material junto com os arquivos da OGPU abertos depois de 1991.

O centenário da sentença cai em 6 de julho de 2028, uma quinta-feira. Reconfira o acervo digitalizado do processo e os documentos da OGPU no site do Arquivo Estatal da Federação Russa (GARF) em junho de 2028.

 
 
Quiz da edição

No Processo de Chakhti, julgado em Moscou entre maio e julho de 1928, dos 11 engenheiros condenados à pena capital, quantos foram de fato fuzilados?

ATodos os 11 foram fuzilados
BNenhum, todas as penas foram comutadas
C5, os outros 6 tiveram a pena comutada em prisão
D4, o mesmo número dos absolvidos

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