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Em 1928, o Boléro de Ravel estreia na Ópera de Paris

Ida Rubinstein encomenda um balé espanhol, e Ravel entrega 17 minutos de um tema só sobre um ritmo de caixa fixo

Caixa clara antiga com duas baquetas sobre um palco escuro.

A caixa do Boléro, Paris, 1928

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M aurice Ravel escreveu ao jornal londrino Daily Telegraph, em 1931, que o Boléro era uma peça “sem música”. A Sacem, a sociedade francesa de autores e compositores, manteve a obra entre as mais rentáveis do seu catálogo por décadas, até ela cair em domínio público na França, em 2016.

As duas pontas começam num pedido de 1927. A bailarina russa Ida Rubinstein, rica e dona da própria companhia, queria um balé de sabor espanhol para a temporada que alugaria na Ópera de Paris.

Rubinstein já tinha dançado obras de Debussy e de Ravel. Pagava bem, escolhia o compositor e exigia estreia mundial. Para ela, Ravel aceitou orquestrar peças da suíte Iberia, do pianista espanhol Isaac Albéniz.

O plano travou na papelada. Os direitos de orquestração da Iberia já pertenciam ao maestro espanhol Enrique Fernández Arbós, que preparava a própria versão. Ravel soube da trava no verão de 1928, com a estreia marcada para novembro.

Arbós chegou a oferecer a liberação. Ravel recusou e decidiu escrever uma música inteiramente sua, do zero, em poucos meses.

Passou as férias em Saint-Jean-de-Luz, a cidade basca onde nasceu. Ali, segundo o relato do amigo e crítico Gustave Samazeuilh, tocou ao piano, com um dedo só, uma melodia curta e perguntou se ela não tinha “insistência”.

Ravel explicou o plano ao amigo na mesma hora. Repetiria o tema muitas vezes, sem desenvolvimento nenhum, e faria a orquestra crescer aos poucos, instrumento por instrumento.

Era um desafio de ofício. Ravel tinha fama de relojoeiro da orquestra, o homem que sabia o peso exato de cada timbre (a cor própria do som de cada instrumento), e queria ver até onde só a cor sustentaria uma peça.

Trabalhou durante o verão e o começo do outono. Deu à obra o título de Boléro, a dança espanhola em compasso de três tempos, embora o andamento pedido fosse mais lento que o de qualquer bolero dançado em Sevilha.

Em novembro, a partitura estava pronta, com 340 compassos e uma única mudança de tom perto do final. Faltava o palco.

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I  A Primeira Página de Hoje

Uma taverna espanhola na Ópera de Paris

Na quinta-feira, 22 de novembro de 1928, o Palais Garnier, a sede da Ópera de Paris, abriu a cortina para o Boléro de Maurice Ravel. No pódio estava o maestro Walther Straram, regente da orquestra que Rubinstein contratou.

A coreografia era da russa Bronislava Nijinska, irmã do bailarino Vaslav Nijinsky. O cenário e os figurinos vinham do pintor Alexandre Benois, veterano dos Balés Russos de Diaghilev.

A cena se passava numa taverna espanhola, à luz de lampiões. Rubinstein dançava sozinha em cima de uma mesa larga, e os homens da taverna se juntavam em volta dela, cada vez mais perto.

Dois compassos sem trégua

A caixa clara (o tambor pequeno de pele esticada, com esteira de arame embaixo) abre a peça em volume quase inaudível. Repete o mesmo desenho de dois compassos, 169 vezes, do primeiro ao último minuto.

Sobre ela entra a flauta, com a primeira metade do tema. Depois vem o clarinete, com a segunda metade, mais sinuosa. As duas metades se alternam, e cada uma aparece nove vezes: 18 passagens ao todo.

A cada passagem, Ravel troca o instrumento ou empilha outro. Passam o fagote, o oboé d'amore (um oboé de som mais grave e velado), o trompete abafado, dois saxofones e a trompa dobrada pela celesta, um teclado de som de sininho.

O tema nunca muda: muda só quem o toca e quantos tocam juntos.

Ravel pediu um andamento regular e sem pressa, perto de 17 minutos. A orquestra inteira só toca junta nas últimas passagens, já em volume máximo.

Durante 326 compassos, a música fica presa no tom de dó maior. No compasso 327, salta para mi maior, e o salto soa como uma porta arrombada depois de tanta repetição.

Dois compassos depois, a peça volta a dó maior e desmorona. Os trombones deslizam, os pratos e o tantã batem, e a orquestra para num acorde seco.

No palco, o desmoronamento coincidia com o clímax da dança: os homens cercavam a mesa e erguiam a bailarina. A cortina descia ali mesmo.

O público pediu bis. A temporada de Rubinstein seguiu com outras estreias, e o Boléro ficou como a obra mais aplaudida das noites dela no Garnier.

Corre uma história daquela noite: uma senhora teria gritado na plateia que o autor estava louco, e Ravel teria respondido ao irmão, Édouard, que ela entendeu a peça. O episódio circula em biografias, mas nenhum documento da época o confirma.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O maestro apressado e a frase do Daily Telegraph

A peça saiu do balé quase de imediato. Em 1929, as orquestras de concerto começaram a tocá-la sem bailarinos, e a editora Durand vendeu a partitura a regentes da Europa e da América.

Em maio de 1930, o italiano Arturo Toscanini regeu o Boléro na Ópera de Paris com a Filarmônica de Nova York, em turnê. Tocou muito mais rápido e acelerou no final.

Ravel estava na plateia e reclamou com Toscanini depois do concerto. O maestro respondeu que, no andamento do autor, a peça não funcionava. Ravel retrucou que, nesse caso, era melhor não tocá-la.

Para deixar o andamento registrado, Ravel regeu a própria gravação, em janeiro de 1930, com a Orquestra Lamoureux, em Paris. O disco da Polydor dura perto de 16 minutos.

A carta ao jornal

O sucesso o incomodava. Em 1931, numa entrevista ao Daily Telegraph, de Londres, Ravel tentou apagar o mal-entendido sobre a peça que todos queriam ouvir.

“Uma experiência numa direção muito especial e limitada. Um tecido orquestral sem música.” (Maurice Ravel, entrevista ao Daily Telegraph, 1931)

Ravel acrescentou, no mesmo texto, que nunca esperou ver a peça nos programas de concerto. A frase virou cartão de visita do Boléro.

O autor fez pouco caso da peça, e as orquestras do mundo a tocaram sem parar.

O Boléro foi uma das últimas grandes obras de Ravel. A partir de 1932, ele perdeu aos poucos a capacidade de escrever e de assinar o nome. Os médicos nunca chegaram a um diagnóstico fechado.

Em dezembro de 1937, operou o cérebro em Paris e não se recuperou: morreu em 28 de dezembro. Tinha 62 anos e deixou o catálogo ao irmão Édouard.

A renda dos direitos do Boléro passou por herdeiros indiretos e por uma disputa longa entre familiares e administradores do espólio. A obra entrou em domínio público na França em maio de 2016.

Em 2024, os herdeiros do cenógrafo Alexandre Benois pediram na Justiça francesa o reconhecimento dele como coautor, o que devolveria a proteção à peça. O tribunal de Nanterre negou o pedido em junho daquele ano.

Na cultura popular, o Boléro voltou duas vezes ao topo. No filme 10, Mulher Nota 10, de Blake Edwards, em 1979, embala uma cena de Bo Derek.

Em 1984, nos Jogos de Inverno de Sarajevo, os britânicos Jayne Torvill e Christopher Dean patinaram ao som de uma versão curta da peça e levaram o ouro, com notas máximas dos juízes.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Comoedia, o Figaro e a temporada Rubinstein

A página: nos dias seguintes a 22 de novembro de 1928, os diários de Paris noticiaram a estreia entre as notas de teatro. O Comoedia, jornal dedicado aos palcos da cidade, deu espaço à noite de Rubinstein no Garnier.

A coluna: os críticos falaram mais da bailarina e da encenação do que da partitura. Trataram a peça de Ravel como número de efeito, curto e brilhante, dentro de uma noite de balé.

O anúncio: as páginas de espetáculos traziam o programa da temporada Rubinstein na Ópera, com datas, preços e a lista das estreias encomendadas a compositores franceses e russos.

A semana seguinte trouxe outra estreia da mesma companhia. Em 27 de novembro de 1928, Rubinstein apresentou O Beijo da Fada, balé de Igor Stravinsky, também no Garnier.

O anúncio vendia a temporada inteira, e a bailarina era a estrela de cada linha. Ravel aparecia como um entre vários autores de uma companhia que pagava pelas estreias.

Rubinstein ainda dançaria o Boléro em outras temporadas, em Paris e fora da França. A versão de concerto, porém, correu mais rápido que o balé e chegou aos discos já em 1930.

As lojas de discos de Paris passaram a anunciar a gravação de Ravel com a Lamoureux, em 1930, ao lado das danças da moda. O Boléro entrava nas vitrines como disco de sala de estar.

A coreografia de Nijinska não se fixou no repertório. Em 1961, o coreógrafo Maurice Béjart criou outra versão, com um bailarino sobre uma mesa redonda vermelha, e a de Béjart ocupou o lugar da original.

O cenário de Benois sobrevive em esboços e figurinos guardados em acervos franceses. Foram esses desenhos que os herdeiros dele levaram ao tribunal em 2024.

Quem quiser ler aquelas páginas encontra o Comoedia e o Le Figaro de novembro de 1928 digitalizados no Gallica, o acervo on-line da Biblioteca Nacional da França, com busca por data.

Em 22 de novembro de 2028, a estreia do Boléro completa 100 anos. Reconfira a programação do centenário no site operadeparis.fr e as edições de 23 a 30 de novembro de 1928 no gallica.bnf.fr na semana da data.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas vezes o tema principal do Boléro aparece ao longo da peça, somando as passagens da flauta e do clarinete?

A9 vezes
B18 vezes
C27 vezes
D36 vezes

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