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Em 1928, o Paraguai queima o fortim Vanguardia

No Chaco Boreal, um ataque ao amanhecer leva Bolívia e Paraguai à mediação em Washington, quatro anos antes da guerra

Paliçada de troncos queimada à beira de um rio.

Fortim Vanguardia, Chaco Boreal, 1928

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Na madrugada de 5 de dezembro de 1928, uma coluna do exército paraguaio tomou o fortim boliviano Vanguardia, no Chaco Boreal, e ateou fogo às cabanas. Em 12 de setembro de 1929, Paraguai e Bolívia assinaram em Washington o acordo que mandava reconstruir o mesmo fortim e entregá-lo de novo aos bolivianos (as duas datas estão no relatório da Comissão de Investigação e Conciliação, publicado em Washington em 1929).

O Chaco Boreal é uma planície de mato espinhoso, calor forte e pouca água entre os rios Paraguai e Pilcomayo. No fim dos anos 1920, não havia estrada ali, e quase ninguém morava na região além dos povos indígenas. Na estação seca, os poços secavam; na chuvosa, o chão virava lama e os caminhões atolavam.

Bolívia e Paraguai disputavam a área desde o século 19. A Bolívia tinha perdido o litoral para o Chile na Guerra do Pacífico e queria chegar ao rio Paraguai, caminho fluvial até o oceano Atlântico. O Paraguai tratava o Chaco como seu desde os tempos da colônia espanhola.

Sem tratado de limites, os dois países avançavam com fortins. Um fortim era um posto militar pequeno, às vezes com uma dúzia de soldados, cabanas de barro e uma paliçada de troncos. Cada posto novo empurrava a linha um pouco adiante.

Diplomatas dos dois países sentaram várias vezes para negociar, inclusive em Buenos Aires, e nenhuma rodada fechou a fronteira. Enquanto as conversas andavam, os postos se multiplicavam no mato.

Vanguardia ficava no norte do Chaco, perto da baía Negra, junto ao rio Paraguai. Era o posto boliviano mais próximo do rio, e o nome dizia a função: estar na frente.

O ataque de dezembro mostrou até onde a disputa de fortins podia chegar. A primeira página conta quem comandou a coluna, por que ela atacou e o que sobrou do posto.

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I  A Primeira Página de Hoje

A paliçada queimada na baía Negra

O comandante da coluna paraguaia era o major Rafael Franco, chefe do setor da baía Negra, então com 32 anos. Bruce Farcau, no livro The Chaco War (A Guerra do Chaco), de 1996, descreve o ataque como iniciativa do próprio Franco, sem ordem escrita de Assunção.

A guarnição boliviana era pequena e foi surpreendida ao amanhecer. Houve mortos entre os bolivianos, e os sobreviventes foram levados presos para o território controlado pelo Paraguai. Os atacantes queimaram as cabanas e a paliçada antes de se retirar.

Os prisioneiros bolivianos foram levados ao forte paraguaio da baía Negra e ficaram ali até a troca acertada meses depois em Washington.

O motivo alegado

Assunção justificou o ataque dizendo que Vanguardia tinha sido erguido em território paraguaio, perto de postos já ocupados pelo Paraguai, e que a Bolívia avançava de propósito em direção ao rio.

A Bolívia respondeu que o Chaco inteiro lhe pertencia e que o ataque era uma agressão sem aviso contra um posto em paz. Cada governo publicou a sua versão, e as duas não batiam nem no lugar exato do fortim.

Vanguardia não tinha valor militar: era uma paliçada de troncos. O valor estava na linha que ela marcava no mapa.

A resposta boliviana

Em La Paz, o governo do presidente Hernando Siles rompeu relações diplomáticas com o Paraguai e mandou retaliar. Em 14 de dezembro de 1928, tropas bolivianas tomaram o fortim paraguaio Boquerón, no centro do Chaco, e atacaram outros postos paraguaios da região.

Os dois países chamaram reservistas. Por alguns dias, os jornais de Assunção e de La Paz trataram a guerra como certa, e voluntários se apresentaram nos quartéis das duas capitais.

Quem segurou a guerra

A guerra não veio em dezembro de 1928 porque os dois exércitos estavam despreparados e porque os vizinhos pressionaram. Em Washington, reunia-se naquele mês a Conferência Internacional Americana de Conciliação e Arbitragem, com delegados de quase todo o continente.

A conferência ofereceu os bons ofícios (a mediação amigável entre países em conflito). Bolívia e Paraguai aceitaram e, em 3 de janeiro de 1929, assinaram um protocolo que criava uma comissão para investigar os choques de dezembro.

O protocolo deu prazo de seis meses para a investigação e obrigou os dois governos a suspender os movimentos de tropa no Chaco enquanto ela corresse.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Cinco países neutros e um general americano

A Comissão de Investigação e Conciliação se instalou em Washington em março de 1929. Tinha delegados dos dois países em conflito e representantes de cinco países neutros: Estados Unidos, México, Colômbia, Uruguai e Cuba.

Presidia o general americano Frank Ross McCoy. Ele tinha supervisionado a eleição presidencial da Nicarágua em 1928 e era o nome que o governo americano escalava para missão delicada na América Latina.

A comissão ouviu os dois governos, leu os relatórios militares de cada lado e comparou as datas dos movimentos de tropa no Chaco em dezembro de 1928.

O que a comissão concluiu

O relatório saiu em setembro de 1929. A comissão concluiu que o ataque a Vanguardia não tinha justificativa e que o Paraguai era responsável pelo primeiro golpe. Concluiu também que a retaliação boliviana em Boquerón tinha ido além da defesa.

A comissão não respondeu à pergunta de fundo, a dona do Chaco. O mandato dela era investigar os incidentes de dezembro, e não traçar a fronteira, e o relatório deixou os limites para uma negociação futura.

Em 12 de setembro de 1929, os dois governos assinaram o acordo de conciliação. O Paraguai se comprometeu a reconstruir Vanguardia como estava antes do ataque; a Bolívia, a devolver Boquerón. Os prisioneiros seriam trocados e as relações diplomáticas, retomadas.

O acordo de 1929 reconstruiu um fortim de troncos e deixou sem resposta a pergunta que acendeu o fogo: a quem pertencia o Chaco.

O major afastado

Rafael Franco foi tirado do comando depois do ataque. Nos anos seguintes, entrou em choque com o governo de Assunção por atividade política e chegou a ser expulso do exército.

Com a guerra de 1932, voltou à ativa e comandou tropas paraguaias no Chaco. Em fevereiro de 1936, já herói de guerra, liderou o golpe que o pôs na presidência do Paraguai, cargo que ocupou até agosto de 1937.

Quatro anos depois

A troca de fortins não segurou a fronteira. Os dois exércitos continuaram comprando armas na Europa e abrindo postos no mato.

Em junho de 1932, soldados bolivianos tomaram um posto paraguaio junto à lagoa Pitiantuta, no centro do Chaco. Desta vez nenhuma conferência conteve os dois governos, e o choque abriu a Guerra do Chaco.

Boquerón, o fortim devolvido pelo acordo de 1929, foi o palco da primeira grande batalha da guerra, em setembro de 1932, e terminou de novo em mãos paraguaias.

A guerra durou até junho de 1935. A paz definitiva veio com o tratado assinado em Buenos Aires em julho de 1938, que deu ao Paraguai a maior parte do Chaco Boreal e à Bolívia uma faixa a oeste.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Telegramas do Chaco nas folhas de La Paz

A página: os jornais de Assunção e de La Paz deram o ataque na primeira página, cada um com a versão do seu governo. Em La Paz, multidões foram às ruas nos dias seguintes para pedir resposta armada.

A coluna: a imprensa dos Estados Unidos acompanhou o caso porque a mediação corria em Washington. O New York Times publicou os despachos da conferência e as notas trocadas entre as duas chancelarias, os ministérios de Relações Exteriores.

O anúncio: na mesma época, o Chaco aparecia nas páginas de economia por outro motivo. A Standard Oil explorava petróleo no sopé dos Andes, na Bolívia, e a imprensa especulava sobre o subsolo da planície vizinha.

O leitor de 1928 via no Chaco uma fronteira de petróleo, e nenhum poço produtivo saiu da planície disputada nas décadas seguintes.

A tese do petróleo

Nos anos 1930, ganhou força a tese de uma guerra movida pelas companhias de petróleo, com a Standard Oil apontada atrás da Bolívia e a Royal Dutch Shell atrás do Paraguai.

Bruce Farcau, no livro de 1996, trata essa tese como exagero. O petróleo pesou nos cálculos de La Paz, mas a disputa de fronteira vinha do século 19, e o ataque a Vanguardia aconteceu por uma linha no mapa, não por um poço.

O que a página não mostrava

Os povos indígenas do Chaco, como os nivaclé e os ayoreo, moravam na área disputada e não tinham assento na mesa de Washington. A guerra de 1932 passou pelas terras deles, e nenhum jornal de 1928 perguntou quem vivia em volta de Vanguardia.

Os soldados da guarnição boliviana também ficaram sem nome nas páginas da época. Os jornais deram os números do governo, e a lista dos homens do posto não chegou à imprensa.

O arquivo hoje

Os telegramas trocados entre Washington, La Paz e Assunção sobre o caso estão nos volumes Foreign Relations of the United States de 1928 e 1929, publicados pelo Departamento de Estado americano e abertos ao público na internet.

O relatório final da comissão presidida por McCoy também saiu impresso em 1929 e é a fonte das datas de dezembro usadas por quem estuda o caso.

O centenário do ataque se completa em 5 de dezembro de 2028. Reconfira os telegramas do caso Vanguardia no site history.state.gov nessa data.

 
 
Quiz da edição

Qual fortim, devolvido pela Bolívia ao Paraguai no acordo de 1929, foi palco da primeira grande batalha da Guerra do Chaco em setembro de 1932?

APitiantuta
BBoquerón
CVanguardia
DBaía Negra

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