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Em 1928, Woolley abre a tumba intacta de Puabi

No cemitério real de Ur, a rainha sumeriana dormia sob ouro e lápis-lazúli, com seus servidores sepultados no poço

Toucado de folhas de ouro e contas de lápis-lazúli.

Tumba de Puabi, Ur, 1928

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Na temporada de escavação de 1927 a 1928, Leonard Woolley abriu em Ur uma câmara com o ouro ainda no lugar, sobre o corpo de uma mulher. Nas outras tumbas reais do mesmo cemitério, os ladrões da Antiguidade tinham chegado primeiro e levado quase tudo (os dois registros estão no relatório de Woolley, Ur Excavations, volume II, publicado pelo Museu Britânico e pelo Museu da Pensilvânia em 1934).

Ur foi uma das grandes cidades da Suméria, no sul do atual Iraque, perto do leito antigo do Eufrates. Por volta de 2500 antes de Cristo, era governada por reis que erguiam templos de tijolo e mantinham oficinas de ourives.

Woolley chefiava ali uma expedição conjunta do Museu Britânico, de Londres, e do Museu da Universidade da Pensilvânia, de Filadélfia. O trabalho começou em 1922 e seguiu por doze temporadas, sempre no inverno, quando o calor do deserto deixava cavar.

O cemitério apareceu cedo, numa vala de teste. Woolley entendeu o tamanho do achado e mandou cobrir tudo de novo: a equipe ainda não tinha prática com sepultura frágil, e ele preferiu esperar alguns anos.

Quando voltou ao cemitério, abriu cerca de 1.800 sepulturas. A maioria era de gente comum, enrolada numa esteira de junco, com um pote de barro e um colar. Dezesseis eram diferentes: câmaras de pedra e tijolo, com acompanhantes enterrados junto.

Na tumba catalogada como PG 800 (a sigla de Woolley para private grave, sepultura particular, número 800), a equipe achou primeiro um poço com dezenas de corpos, um trenó de madeira e os ossos dos bois que o puxavam.

Numa câmara ao lado, achou a mulher. Ela estava deitada num estrado de madeira, coberta dos ombros à cintura por fios de contas de ouro, prata, lápis-lazúli e cornalina (uma pedra vermelho-alaranjada).

Na cabeça havia um toucado de folhas de ouro, fitas enroladas e um pente alto com flores. Junto ao ombro, um selo cilíndrico de lápis-lazúli, do tamanho de um dedo, guardava o nome da dona em escrita cuneiforme, os sinais em forma de cunha da Mesopotâmia.

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I  A Primeira Página de Hoje

O nome gravado no selo azul

A dona da câmara se chamava Puabi. O selo cilíndrico trazia três figuras num banquete e duas palavras gravadas: o nome dela e o título nin, que o sumério usava para rainha ou senhora.

Os epigrafistas da expedição, os especialistas em inscrição antiga, leram primeiro o nome como Shubad. A leitura Puabi veio com o avanço do estudo do acadiano, a língua semita falada na região, em que pu-abi quer dizer "palavra do pai".

“Pu-abi nin”

Inscrição do selo cilíndrico da tumba PG 800, Ur, c. 2500 a.C. (leitura atual do Museu da Pensilvânia)

O nome semita sugere uma família ligada ao norte da Mesopotâmia. O selo não diz de quem ela era mulher ou filha, e nenhuma outra inscrição da tumba completa a informação.

O toucado

O toucado de Puabi é a peça que tornou a tumba famosa. Ele combina coroa de folhas de ouro em fileiras, anéis de ouro, contas de lápis-lazúli e cornalina e um pente de ouro de sete pontas, cada uma terminada numa flor.

Nas orelhas, ela usava brincos de ouro em forma de lua crescente, tão grandes que pousavam sobre os ombros. Nos dedos, anéis de ouro. Sobre o peito, a capa de contas descia em dezenas de fios.

O lápis-lazúli não existe na Mesopotâmia. A pedra azul vinha das montanhas do Badakhshan, no atual Afeganistão, por rotas de caravana e de barco que levavam meses.

A cornalina chegava do vale do Indo, no atual Paquistão. A tumba de uma rainha de Ur reunia, num corpo só, material de três regiões distantes.

A tumba de Puabi provou que Ur, por volta de 2500 a.C., comprava pedra azul do Afeganistão e pedra vermelha do vale do Indo para enterrar sua rainha.

O poço dos servidores

No poço de acesso, Woolley contou soldados com armas de cobre, cavalariços junto aos bois e mulheres com toucados mais simples, de fita e folha. Todos estavam deitados em fila, sem sinal de luta.

Perto de muitos corpos havia uma taça pequena. Woolley concluiu que os servidores tinham descido ao poço por vontade própria e bebido um veneno antes de o poço ser fechado.

No mesmo poço estava uma lira de madeira com cabeça de touro, adornada de ouro e conchas. Ela está hoje no Museu Britânico, catalogada como a Lira da Rainha.

A tumba vizinha

Ao lado da câmara de Puabi, Woolley abriu a tumba PG 789, já saqueada. Ele a chamou de Tumba do Rei e supôs que os ladrões tinham cavado por ali durante a obra da tumba de Puabi, sem alcançar a câmara dela.

O dono da PG 789 nunca foi identificado. Nenhum selo ou inscrição com nome sobreviveu ao saque, e por isso ninguém sabe se o rei e a rainha eram casados.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A conta dos servidores refeita no hospital

Woolley publicou o achado em dois tempos. Em 1929, lançou o livro Ur of the Chaldees (Ur dos Caldeus), para o público geral. Em 1934, saiu o relatório técnico do cemitério, com plantas, fotografias e o catálogo das sepulturas.

As peças foram divididas entre o Museu do Iraque, em Bagdá, o Museu Britânico e o Museu da Pensilvânia, pela regra de partilha da lei de antiguidades do Iraque. O toucado e as joias de Puabi foram para Filadélfia.

A cabeça de gesso

Para expor o toucado, Katharine Woolley, mulher do arqueólogo e desenhista da expedição, modelou uma cabeça de gesso. O rosto saiu do gosto dela, e o tamanho das peças sobre a cabeça foi calculado pelas posições na terra.

Arqueólogos do Museu da Pensilvânia remontaram o conjunto nas décadas seguintes. Pela posição das peças no estrado, a montagem atual é diferente da de Katharine Woolley, e mostra as fitas de ouro mais soltas sobre a peruca.

O que mostrou o tomógrafo

A versão do veneno durou oitenta anos. Em 2009, o Museu da Pensilvânia levou dois crânios do cemitério ao tomógrafo do hospital da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia.

Os crânios vinham do Grande Poço da Morte, a tumba PG 1237, a maior do cemitério. O estudo de Aubrey Baadsgaard, Janet Monge, Samantha Cox e Richard Zettler, publicado na revista Antiquity em 2011, achou fraturas de golpe forte na cabeça.

Os servidores do Grande Poço não beberam veneno em paz: o tomógrafo achou em 2011 o golpe que levaram na cabeça antes do enterro.

O mesmo estudo achou sinais de que os corpos foram aquecidos e tratados com mercúrio para atrasar a decomposição. Depois foram vestidos e arrumados em fila, o que explica a calma que Woolley viu.

O exame de 2011 não incluiu os servidores do poço de Puabi. Para eles, o modo como morreram segue sem exame publicado, e a cena de Woolley vale só como hipótese do escavador.

O ouro em Bagdá

A parte das peças que ficou no Iraque passou por guerra. Em 2003, durante o saque do Museu do Iraque, as joias de Ur estavam guardadas no cofre do Banco Central em Bagdá.

O cofre foi achado alagado, e as peças apareceram inteiras em junho de 2003, segundo o relato da equipe do museu e do governo dos Estados Unidos publicado no mesmo ano.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Ouro de Ur no jornal de Londres

A página: os jornais de Londres acompanharam Ur durante todo o inverno de 1927 a 1928. O Illustrated London News, semanário de grandes gravuras, publicou fotografias e desenhos das tumbas reais em páginas inteiras.

A coluna: o Times de Londres trazia os despachos de Woolley, escritos na escavação e mandados por telegrama e correio. Ele sabia escrever para leigo, e as tumbas viraram leitura de café da manhã.

O anúncio: a mesma imprensa ainda cobria Howard Carter, que esvaziava a tumba de Tutancâmon no Egito desde 1922. A rainha de Ur entrou na página como a resposta da Mesopotâmia ao faraó.

Woolley escavou para dois públicos ao mesmo tempo: o relatório técnico de 1934 e o jornal da manhã de 1928.

O efeito apareceu nas filas. O Museu Britânico expunha a cada verão as peças da temporada, e a mostra das tumbas reais lotou as salas.

A leitora que pegou o trem

Uma das leitoras foi Agatha Christie. No outono de 1928, ela viajou no Expresso do Oriente até Bagdá e seguiu para Ur, onde Katharine Woolley a recebeu na casa da expedição.

Na segunda visita, em 1930, ela conheceu o assistente de Woolley, o arqueólogo Max Mallowan. Os dois se casaram em setembro de 1930. Em 1936, Christie publicou Murder in Mesopotamia (Morte na Mesopotâmia), passado numa escavação como a de Ur.

O que a página não mostrava

O leitor de 1928 via o ouro e a fila de servidores, e lia a tese do veneno como fato. A página não dizia quantos operários iraquianos cavavam o cemitério nem quem ficava com cada peça.

O nome de Puabi também demorou. Nos jornais da época ela aparece como a rainha Shubad, a leitura antiga do selo, e a troca de nome só chegou aos catálogos décadas depois.

O arquivo hoje

O Museu Britânico e o Museu da Pensilvânia reuniram as fichas de campo, as fotografias e o catálogo das 1.800 sepulturas no projeto Ur Online, aberto ao público na internet.

O centenário da temporada que revelou a tumba se completa em março de 2028. Reconfira a ficha da PG 800 no site urarchaeology.org e a do toucado no catálogo do Penn Museum nesse mês.

 
 
Quiz da edição

No cemitério real de Ur, de cerca de 1.800 sepulturas abertas por Woolley, quantas eram tumbas reais, com câmaras de pedra e tijolo e acompanhantes enterrados junto?

A1.800
B12
C16
D800

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