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Iguais em status, subordinados na lei

Em 19 de novembro de 1926, Londres aceita os domínios como iguais em status, e a frase de Balfour espera cinco anos para virar lei.

Pena-tinteiro sobre folha de relatório com lacre vermelho.

Relatório e lacre, Londres, 1926

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Em 19 de novembro de 1926, a Conferência Imperial aprovou em Londres um relatório que declarava Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Terra Nova e Estado Livre Irlandês iguais ao Reino Unido em status e em nenhum aspecto subordinados a ele. Na mesma semana, a Lei de Validade das Leis Coloniais, votada pelo Parlamento britânico em 1865, seguia em vigor e permitia anular qualquer lei de um desses países que contrariasse uma lei de Westminster. Os dois textos estão guardados nos National Archives, o arquivo nacional britânico, em Kew.

Os domínios eram as colônias de povoamento que já se governavam por dentro: parlamento próprio, primeiro-ministro próprio, orçamento próprio. Por fora, respondiam a Londres. Quem declarava guerra por eles era o rei, aconselhado por ministros britânicos, e em agosto de 1914 o Canadá entrou na Primeira Guerra Mundial sem que o parlamento de Ottawa votasse a entrada.

A guerra cobrou a conta dessa assimetria. Canadenses em Vimy, australianos e neozelandeses em Galípoli, sul-africanos na África Oriental: os domínios pagaram em soldados e depois exigiram delegação própria na Conferência de Paz de Paris, em 1919, e assinatura própria no Tratado de Versalhes. Conseguiram as duas, e ficou uma pergunta sem resposta formal: se assinavam tratado como país, o que ainda os prendia a Londres?

Em 1926 três governos chegaram à capital britânica com pressa. O canadense William Lyon Mackenzie King vinha de uma crise em que o governador-geral, nomeado pelo rei, recusara dissolver o parlamento a pedido dele. O sul-africano James Barry Munnik Hertzog falava abertamente em secessão. E o Estado Livre Irlandês, criado quatro anos antes, queria provar que o tratado de 1921 com Londres não funcionava como coleira.

A primeira página de hoje abre o relatório que saiu dessa conferência, a frase que ele consagrou e o homem de 78 anos que a redigiu.

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I  A Primeira Página de Hoje

A frase de Balfour e a coroa em comum

Arthur James Balfour, primeiro conde de Balfour, presidia em 1926 o Conselho Privado britânico, o colegiado de conselheiros formais do rei, e tinha 78 anos. Fora primeiro-ministro entre 1902 e 1905 e, como chanceler, assinara em 1917 a carta sobre a Palestina que também leva seu sobrenome, documento distinto do relatório de hoje. Na Conferência Imperial, coube a ele chefiar o Comitê de Relações Interimperiais, formado pelos chefes das delegações para definir o que ligava os domínios à Grã-Bretanha.

O comitê trabalhou durante as cinco semanas da conferência, aberta em 19 de outubro, sobre um impasse. Hertzog queria a palavra independência no texto. Os australianos, com Stanley Bruce, e os neozelandeses, com Gordon Coates, temiam que uma fórmula nova afrouxasse a defesa naval que dependia da Marinha Real. Mackenzie King queria encerrar a tutela sem a palavra que assustava Londres.

Balfour saiu do impasse com uma definição, e não com uma declaração de ruptura. O parágrafo aprovado descreve Grã-Bretanha e domínios como comunidades autônomas dentro do Império, e a tradução do trecho central é esta:

 

“Comunidades autônomas dentro do Império Britânico, iguais em status, em nenhum aspecto subordinadas umas às outras em qualquer assunto interno ou externo, embora unidas por lealdade comum à Coroa e livremente associadas como membros da Comunidade Britânica de Nações.”

Arthur James Balfour, Relatório do Comitê de Relações Interimperiais, Conferência Imperial, 1926

A resposta à pergunta de 1919 estava na própria frase: depois de 1926, o que prendia os domínios a Londres era a pessoa do rei. Jorge V passou a reinar em cada domínio como monarca daquele país, e não como chefe de um governo britânico que mandava nos outros.

O relatório tirou consequências práticas. O governador-geral deixou de representar o governo britânico e passou a representar só o rei, na posição que o monarca ocupava em Londres. A correspondência oficial passaria a correr de governo para governo, sem escala obrigatória no Ministério dos Domínios britânico.

O que o relatório não fez foi mudar a lei. Ele era um acordo político entre primeiros-ministros, sem força jurídica, e o próprio texto admitiu que igualdade de status não significava igualdade de funções: política externa e defesa continuavam, na prática, concentradas em Londres.

A ficha do relatório:

Data da aprovação: 19 de novembro de 1926, em Londres
Redator: Arthur James Balfour, primeiro conde de Balfour, 78 anos
Comitê: Relações Interimperiais, formado pelos chefes das delegações
Domínios na mesa: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Terra Nova e Estado Livre Irlandês
Rei: Jorge V
Força jurídica: nenhuma, acordo político entre governos
Lei que seguia valendo: Lei de Validade das Leis Coloniais, de 1865
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Cinco anos até o Estatuto de Westminster

O texto de Balfour precisava de uma lei que o sustentasse, e Londres levou cinco anos para escrevê-la. Em 1929 uma conferência de juristas do Reino Unido e dos domínios listou as travas ainda vivas: a lei de 1865, o poder do Parlamento britânico de legislar para um domínio e a impossibilidade de um parlamento de domínio fazer lei com efeito fora do próprio território.

A Conferência Imperial de 1930 aprovou as conclusões, e o Parlamento britânico votou o Estatuto de Westminster, sancionado em 11 de dezembro de 1931. A seção 2 revogou a lei de 1865 para os domínios. A seção 4 determinou que nenhuma lei britânica valeria num domínio sem que ele a pedisse e consentisse, e que a própria lei registrasse essa solicitação.

O estatuto não entrou em vigor igual para todos. Canadá, África do Sul e Estado Livre Irlandês ficaram cobertos na sanção. Austrália, Nova Zelândia e Terra Nova só ficariam quando os próprios parlamentos o adotassem, e cada um tomou um caminho diferente.

O Canadá recebeu a lei com uma exceção pedida pelo próprio governo de Ottawa: o poder de emendar a constituição canadense ficou em Londres, porque as províncias não chegavam a acordo sobre a fórmula de emenda. A pendência durou até 1982, quando o Canada Act transferiu esse poder para o país.

A cronologia do caso:

1926: relatório Balfour aprovado na Conferência Imperial
1929: conferência de juristas lista as travas legais
1931: Estatuto de Westminster sancionado em 11 de dezembro
1934: Terra Nova, sem dinheiro para a dívida, suspende o autogoverno e passa a ser administrada por uma comissão nomeada por Londres
1942: Austrália adota o estatuto, com efeito retroativo ao começo da Segunda Guerra, em 1939
1947: Nova Zelândia adota o estatuto
1949: Terra Nova entra no Canadá como província, e a Declaração de Londres cria a Comunidade das Nações
1986: o Australia Act corta os últimos vínculos legislativos entre Austrália e Reino Unido

O caso irlandês foi o que mais esticou a fórmula. O governo de Éamon de Valera usou a liberdade dada pelo estatuto para abolir o juramento de lealdade ao rei, em 1933, aprovou constituição própria em 1937 e, em 1949, a Irlanda se declarou república e deixou a Comunidade.

A Índia forçou a última revisão. Em abril de 1949 a Declaração de Londres permitiu que uma república continuasse na Comunidade reconhecendo o rei apenas como chefe da associação, e a palavra britânica saiu do nome. A lealdade comum à Coroa, núcleo da frase de 1926, deixou de ser condição para pertencer.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Manteiga da Nova Zelândia, laranja do Cabo

A página: em Londres, o relatório saiu no The Times e nos grandes diários da Fleet Street, a rua que concentrava as redações britânicas. A cobertura dividiu espaço com a paralisação dos mineiros de carvão, que começara em maio, junto da greve geral, e só terminou no fim de novembro, com a volta dos trabalhadores às minas.

O anúncio: o governo britânico criara em maio de 1926 a Empire Marketing Board, Junta de Comércio do Império, sob o secretário dos domínios Leopold Amery. A tarefa era convencer a dona de casa britânica a comprar produto do Império: manteiga da Nova Zelândia, fruta seca da Austrália, laranja da África do Sul, maçã do Canadá. A junta não fixava tarifa; comprava espaço em jornal, em cartaz e em vitrine.

A coluna: os cartazes da junta ocuparam estações e painéis de rua desde 1927, desenhados por artistas como Edward McKnight Kauffer e Frank Newbould. Em 1929 a mesma junta financiou Drifters, documentário de John Grierson sobre os pescadores de arenque do mar do Norte, filme de onde saiu a escola documental britânica.

A ficha do reclame imperial, item por item:

Órgão criado em 1926Empire Marketing Board
Ministro responsávelLeopold Amery, secretário dos domínios
Produto da Nova Zelândiamanteiga
Produto da Austráliafruta seca
Produto da África do Sullaranja
Filme financiado em 1929Drifters, de John Grierson
Extinção1933, em corte de gastos

A junta durou sete anos. A Conferência de Ottawa, em 1932, trocou a propaganda por tarifa preferencial entre os membros do Império, e a Empire Marketing Board foi extinta no ano seguinte. A unidade de cinema de Grierson sobreviveu, transferida para os Correios britânicos.

O centenário do relatório cai em 19 de novembro de 2026. Reconfira naquela semana o texto integral na série CAB 32 dos National Archives, em Kew, que guarda as atas das Conferências Imperiais, e compare com o Estatuto de Westminster publicado em legislation.gov.uk, onde as seções 2 e 4 aparecem com as revogações posteriores.

“Quanto vale uma igualdade que ainda precisa de lei para existir?”

 
 

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AValia como lei imperial em todos os domínios
BAnulava a Lei de Validade das Leis Coloniais, de 1865
CNenhuma, era um acordo político entre primeiros-ministros
DObrigava o Parlamento britânico a votar um estatuto em até um ano

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