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Lenglen Estreia Como Profissional no Madison Square Garden
Em 9 de outubro de 1926, Suzanne Lenglen vence Mary K. Browne em Nova York e deixa para trás o direito de disputar torneios amadores.
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Raquete e bilhete de entrada, outubro de 1926
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Suzanne Lenglen venceu o simples feminino de Wimbledon seis vezes entre 1919 e 1925, e o quadro de campeãs mantido pelo All England Club ainda repete o nome dela nessas seis linhas. Na noite de 9 de outubro de 1926, quando pisou numa quadra armada dentro do Madison Square Garden, em Nova York, ela já não tinha direito de se inscrever em nenhum desses torneios: a Federação Francesa de Tênis havia registrado a saída dela do quadro amador semanas antes.
Os dois fatos vieram do mesmo ano e do mesmo nome. Entre eles ficou um contrato assinado com Charles C. Pyle, empresário de espetáculos de Chicago, noticiado pela imprensa americana em agosto de 1926. Pyle não vinha do tênis: tinha feito nome no ano anterior levando um jogador de futebol americano a uma excursão paga de cidade em cidade, e chegou à raquete com o mesmo desenho de bilheteria.
O que está fora de disputa cabe em poucas linhas. No sábado, 9 de outubro de 1926, Lenglen jogou contra Mary Kendall Browne, americana campeã do torneio nacional dos Estados Unidos em 1912, 1913 e 1914, e venceu por 6/1 e 6/1. A partida abriu uma turnê paga que rodaria os Estados Unidos e o Canadá pelos quatro meses seguintes, com elenco fixo de jogadores contratados.
O arquivo não fecha a cifra. Os jornais americanos de 1926 publicaram valores diferentes para o contrato da francesa, entre 50 mil e 75 mil dólares garantidos, e o documento original nunca foi reproduzido em nenhuma dessas reportagens. O que existe com assinatura é o registro federativo: a partir de agosto, ela passou a constar como profissional, e a Federação Internacional de Lawn Tennis não admitia profissional nos torneios que organizava.
A primeira página de hoje traz a noite no ginásio da Oitava Avenida, a adversária que aceitou dividir o palco e o jogador olímpico que assinou com o mesmo empresário.
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I A Primeira Página de Hoje
A noite de sábado dentro do ginásio da Oitava Avenida
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No sábado, 9 de outubro de 1926, o Madison Square Garden da Oitava Avenida recebeu uma quadra de tênis montada sobre lona esticada no assoalho, no lugar do ringue de boxe que costumava ocupar o centro da casa. Tex Rickard, promotor de lutas e administrador do ginásio inaugurado em dezembro de 1925, alugou o espaço para um espetáculo de raquete.
Suzanne Lenglen, de 27 anos, entrou para jogar contra Mary Kendall Browne, americana de 35 anos. As duas já haviam se enfrentado em Paris em junho daquele ano, na final do campeonato francês, e a francesa vencera sem ceder o segundo set. Browne também jogava golfe em nível competitivo.
Lenglen venceu por 6/1 e 6/1. A cobertura dos diários de Nova York publicada na manhã de 10 de outubro de 1926 estimou cerca de 13 mil pessoas nas arquibancadas, contagem de portaria, sem bilheteria auditada. Foi a maior plateia que um jogo de tênis havia reunido sob teto nos Estados Unidos até aquela noite. |
O programa não tinha só as duas. Vincent Richards, campeão olímpico de simples em Paris, em 1924, também havia assinado com Pyle e jogou contra o francês Paul Féret. Todos do elenco perderam o direito de entrar em torneio amador ao assinar, e sabiam disso antes.
A francesa explicou a decisão por escrito quando o contrato saiu nos jornais.
| | “I have worked as hard at my career as any man or woman has worked at any career." (Trabalhei na minha carreira tanto quanto qualquer homem ou mulher trabalhou na dele.)” Suzanne Lenglen, declaração à imprensa americana sobre o contrato profissional, agosto de 1926 |
A ficha da noite:
| Data: sábado, 9 de outubro de 1926 | | Local: Madison Square Garden, na Oitava Avenida, em Nova York | | Partida principal: Suzanne Lenglen contra Mary Kendall Browne | | Placar: 6/1 e 6/1 para Lenglen | | Público estimado pelos jornais do dia seguinte: cerca de 13 mil pessoas | | Empresário responsável: Charles C. Pyle, de Chicago | | Elenco contratado: Lenglen, Browne, Vincent Richards, Howard Kinsey, Paul Féret e Harvey Snodgrass | | Piso: quadra de lona esticada sobre o assoalho do ginásio | | Situação federativa de Lenglen na data: fora do quadro amador desde agosto de 1926 |
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O ginásio cheio respondeu à dúvida comercial que corria desde o verão: se o público americano pagaria ingresso para ver tênis como pagava para ver boxe. Naquela noite, a resposta foi sim.
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II O Que Aconteceu Depois
A turnê que fechou a porta de Wimbledon
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A estreia valeu dinheiro e custou o calendário inteiro. Ao assinar com Pyle, Lenglen saiu do quadro amador da Federação Francesa de Tênis, e o regulamento da Federação Internacional de Lawn Tennis fechava os grandes torneios a quem recebesse para jogar. Ela nunca mais disputou Wimbledon nem o campeonato francês, e os títulos que já tinha permaneceram nos quadros de campeãs. |
A turnê rodou os Estados Unidos e o Canadá até fevereiro de 1927. Lenglen e Browne jogaram dezenas de partidas em ginásios, rinques e pavilhões de exposição, e a americana não venceu nenhuma delas. O elenco viajava de trem com a quadra portátil na bagagem e montava o piso em cada cidade.
O rompimento vinha sendo construído desde o meio do ano. Em julho de 1926, no torneio de Wimbledon que celebrava o jubileu do clube, Lenglen se desencontrou do horário marcado para dois jogos num dia em que a rainha Mary estava na tribuna, ouviu vaias e desistiu da competição. A imprensa britânica tratou o episódio como afronta.
Depois da turnê, ela largou a quadra de competição. Escreveu livros de instrução, apareceu em filmes curtos de ensino técnico e, em 1936, abriu uma escola de tênis em Paris. Faleceu em Paris, em 4 de julho de 1938, aos 39 anos, de anemia perniciosa.
A linha do tempo do caso:
| 1919: estreia em Wimbledon e vence o primeiro título de simples, aos 20 anos | | 1920: conquista o ouro olímpico de simples na Antuérpia | | 1926: desiste de Wimbledon em julho, depois do desencontro de horário diante da tribuna real | | 1926: assina com Charles C. Pyle em agosto e deixa o quadro amador francês | | 1926: estreia como profissional no Madison Square Garden em 9 de outubro | | 1927: a turnê encerra em fevereiro, com Browne sem nenhuma vitória sobre Lenglen | | 1936: Lenglen abre uma escola de tênis em Paris | | 1938: Lenglen falece em 4 de julho, aos 39 anos | | 1968: os quatro grandes torneios abrem as chaves a profissionais, na chamada Era Aberta |
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Convém dizer com todas as letras o que não se sabe. O valor exato pago a Lenglen continua em aberto: as reportagens americanas de 1926 divergem entre 50 mil e 75 mil dólares garantidos, e o contrato nunca foi publicado. Também não há registro de pedido formal de reintegração dela ao quadro amador, e a federação internacional manteve a proibição enquanto ela viveu.
Mary Kendall Browne voltou ao golfe depois da turnê, ensinou tênis e viveu até 1971, aos 79 anos. O nome da francesa virou premiação: a taça do simples feminino do torneio francês leva Suzanne Lenglen desde 1979, e a segunda maior quadra de Roland Garros foi batizada com ele em 1994.
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