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Lina Radke vence os 800 metros de Amsterdã em 2min16s8, em 2/8/1928

O recorde resiste até 1944, mas o relato de corredoras exaustas tira a prova feminina dos Jogos até Roma, 1960.

Sapatilhas de corrida com cravos sobre uma pista de carvão.

Estádio Olímpico de Amsterdã, agosto de 1928

▼
 

Em 2/8/1928, no Estádio Olímpico de Amsterdã, a alemã Lina Radke venceu os 800 metros em 2min16s8, recorde mundial reconhecido pela Federação Internacional de Atletismo Amador. Em 1960, nos Jogos de Roma, a prova feminina dos 800 metros voltou ao programa olímpico pela primeira vez desde aquela tarde.

Uma corrida terminou com a marca mais rápida já medida para mulheres na distância. A mesma corrida tirou a distância dos Jogos por 32 anos.

Amsterdã foi a primeira edição olímpica com atletismo feminino. O Comitê Olímpico Internacional aceitou cinco provas para mulheres, como teste: 100 metros, revezamento 4x100, salto em altura, lançamento de disco e 800 metros.

Os 800 metros eram a prova mais longa do pacote, e a mais vigiada. Dirigentes contrários à presença feminina na pista tinham dito, durante anos, que o corpo da mulher não aguentava esforço prolongado.

Para essas mulheres, Amsterdã era a primeira chance de correr num estádio olímpico. Até 1928, as atletas disputavam os Jogos Mundiais Femininos, criados em 1922 pela francesa Alice Milliat porque o Comitê Olímpico recusava provas de pista para mulheres.

A final reuniu nove corredoras. Largaram juntas, sem raia, na pista de carvão (cinza de carvão prensada, o piso das pistas da época).

Lina Radke ficou atrás do grupo na primeira volta. Na reta oposta da segunda, passou as líderes e abriu distância.

A japonesa Kinue Hitomi, que tinha entrado nos 800 metros quase sem treino na distância depois de perder os 100, terminou em segundo. A sueca Inga Gentzel ficou com o bronze.

As três primeiras baixaram o recorde mundial anterior. Fotos da chegada mostram atletas curvadas, com as mãos nos joelhos, como em qualquer final de meio-fundo (as provas de 800 e 1.500 metros).

Foram essas imagens, contadas em alguns jornais como colapso em massa, que viajaram pelo mundo. A primeira página explica quem era Lina Radke e como ela chegou àquela final.

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I  A Primeira Página de Hoje

A volta que decidiu a final

Karoline "Lina" Radke nasceu em Baden-Baden, em 1903, e corria pelo clube SC Brandenburg, de Breslau, cidade alemã que hoje é Wrocław, na Polônia.

Começou no atletismo já adulta, numa Alemanha que tinha campeonato nacional feminino desde a década de 1920. Os 800 metros eram uma das provas de mais prestígio nesse circuito.

O técnico dela era Georg Radke, com quem se casou. Treinavam em casa uma corrida tática: guardar força na primeira volta e atacar no fim da segunda.

Em 1927, Lina Radke já tinha vencido os 800 metros do campeonato alemão. Chegou a Amsterdã como favorita da delegação, mas não como favorita da prova, posto que pertencia à sueca Inga Gentzel.

A Alemanha voltava aos Jogos em 1928. Tinha ficado fora de Antuérpia, em 1920, e de Paris, em 1924, por causa da Primeira Guerra Mundial.

Na eliminatória, Lina Radke venceu a série dela sem forçar. Na final, seguiu o plano: deixou as rivais puxarem o ritmo, ficou fora do empurra na largada e atacou na reta oposta da segunda volta.

A vencedora dos 800 metros de 1928 correu a segunda volta mais forte que a primeira, o oposto de quem corre no limite.

Kinue Hitomi tentou acompanhar. Era a única mulher da delegação japonesa e tinha ido a Amsterdã para os 100 metros, onde parou na semifinal.

Para não voltar para casa sem medalha, pediu para entrar nos 800 metros, distância que mal tinha corrido. Ganhou a prata e virou a primeira japonesa a subir num pódio olímpico.

Hitomi também saltava e lançava. Era recordista mundial do salto em distância, prova que ainda não existia no programa feminino de 1928, e por isso não pôde disputar em Amsterdã a especialidade em que era melhor.

Inga Gentzel, sueca, era a recordista mundial antes da final. Saiu de Amsterdã com o bronze e sem o recorde.

Gentzel tinha baixado a marca mundial em junho de 1928, em Estocolmo, para 2min20s4. Na final, puxou o ritmo nos primeiros 400 metros e pagou por isso na reta, onde Radke e Hitomi a passaram.

A cronologia da final:

1/8/1928: eliminatórias
2/8/1928: final com nove atletas
2/8/1928: Radke em 2min16s8
2/8/1928: Hitomi prata, Gentzel bronze
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Trinta e dois anos sem a prova

Os relatos da chegada pesaram mais que o cronômetro. Jornais de língua inglesa descreveram corredoras caídas e desacordadas na grama, cena que os filmes da prova não mostram.

O historiador do esporte Roger Robinson, em artigo na revista Running Times de 2012, comparou os relatos com as imagens e concluiu que nenhuma atleta desmaiou. Algumas se deitaram depois de cruzar a linha, como faziam os homens na mesma pista.

O resultado da polêmica veio em 1929. A Federação Internacional de Atletismo Amador e o Comitê Olímpico decidiram que os Jogos seguintes não teriam corrida feminina acima de 200 metros.

Na prática, o corte foi além disso. Nos Jogos de 1932 e 1936, as mulheres correram só os 100 metros e o revezamento; os 200 metros femininos estrearam apenas em Londres, em 1948.

Em Los Angeles, em 1932, a prova mais longa para mulheres era a de 80 metros com barreiras. Em Berlim, em 1936, também.

Uma marca de recorde mundial foi tratada como prova de que mulheres não deviam correr aquela distância.

O recorde de Lina Radke durou 16 anos, porque quase ninguém tinha onde correr 800 metros em competição grande. Só em 1944 a sueca Anna Larsson baixou a marca, para 2min15s9, na Suécia neutra da Segunda Guerra Mundial.

A prova feminina dos 800 metros voltou em Roma, em 1960. A soviética Lyudmila Shevtsova venceu com 2min04s3, 12 segundos e meio abaixo do tempo de Amsterdã.

Os 1.500 metros femininos só entraram no programa em Munique, em 1972. A maratona feminina, em Los Angeles, em 1984.

A maratona chegou depois de uma campanha. Corredoras como a americana Kathrine Switzer, que correu Boston com número oficial em 1967, pressionaram por anos até o Comitê Olímpico aceitar a prova.

Lina Radke continuou correndo na Alemanha por alguns anos e depois deixou as pistas. Faleceu em Baden-Baden, em 1983.

Kinue Hitomi teve fim mais curto. Seguiu competindo e trabalhando como jornalista no Japão, adoeceu de tuberculose e faleceu em 2/8/1931, três anos exatos depois da final.

A cronologia depois da final:

1929: provas longas suspensas
1944: Larsson baixa o recorde
1960: 800m femininos em Roma
1972: 1.500m femininos em Munique
 

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III  O Anúncio da Página 3

Nove mulheres na grama

A página: os jornais alemães de 3 de agosto de 1928 deram a vitória de Lina Radke como o primeiro ouro olímpico da Alemanha desde a volta aos Jogos. O tempo saiu no título.

A coluna: em parte da imprensa de língua inglesa, o tempo ficou em segundo plano. O texto falava de exaustão e dizia que a distância era longa demais para mulheres.

O anúncio: a posição dos dirigentes já existia antes da final. O fundador dos Jogos modernos, Pierre de Coubertin, tinha escrito sobre a participação feminina em 1912, na Revue Olympique:

“Impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta.”

Coubertin deixou a presidência do Comitê Olímpico em 1925, mas a ideia ficou. A cena da chegada de Amsterdã serviu de argumento pronto para quem já pensava assim.

O que não se sabe com precisão é quantas corredoras se deitaram depois da linha. Os jornais da época dão números diferentes, e os filmes que sobraram não cobrem a chegada inteira, então a contagem segue em aberto.

Também não há registro de atendimento médico às finalistas. Nenhum dos relatórios oficiais dos Jogos de 1928 cita socorro na pista dos 800 metros, o que pesa contra a versão do colapso.

Também segue sem resposta escrita quem levou a proposta de corte às reuniões de 1929. As atas publicadas registram a decisão, sem nome de autor da proposta.

Alice Milliat protestou e manteve os Jogos Mundiais Femininos até 1934, com provas que o programa olímpico tinha cortado. Depois disso, o evento acabou e as atletas ficaram sem palco internacional para o meio-fundo.

A decisão mudou carreiras. Uma geração de meio-fundistas europeias correu só em campeonatos nacionais, sem chance de medalha olímpica na distância em que era mais forte.

Os 800 metros femininos continuaram vivos fora dos Jogos. Campeonatos nacionais da Alemanha, da Suécia e da União Soviética mantiveram a prova, e foi nesse circuito que nasceram as atletas da volta em Roma.

A ficha da última página:

Data: 2/8/1928
Local: Estádio Olímpico, Amsterdã
Vencedora: Lina Radke
Tempo: 2min16s8
Recorde batido em: 1944
Volta aos Jogos: Roma, 1960

“Quantas provas saíram do programa por causa de uma foto mal contada?”

O centenário da final cai em 2/8/2028, uma quarta-feira: nesse dia, reconfira o resultado e o tempo de Lina Radke no relatório oficial dos Jogos de 1928, na biblioteca digital do Comitê Olímpico Internacional (library.olympics.com).

 
 
Quiz da edição

Quem baixou o recorde mundial de Lina Radke nos 800 metros, e onde isso aconteceu?

AInga Gentzel, na Suécia, em 1928
BAnna Larsson, na Suécia, em 1944
CLyudmila Shevtsova, na União Soviética, em 1960
DKinue Hitomi, no Japão, em 1931

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