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Marcus Garvey, embarcado em 2/12/1927 no vapor Saramacca

Coolidge comuta a pena por fraude postal, e o governo põe Garvey num navio em Nova Orleans, sem volta aos Estados Unidos.

Mala de couro sobre o cais, com um vapor ao fundo.

Nova Orleans, 2 de dezembro de 1927

▼
 

Em 18/11/1927, o presidente Calvin Coolidge comutou a pena de Marcus Garvey, segundo o registro de clemência do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Em 2/12/1927, o mesmo governo embarcou Garvey no vapor Saramacca, em Nova Orleans, com ordem de não voltar ao país.

O preso libertado tinha 40 anos e era jamaicano. De um escritório no Harlem, em Nova York, tinha dirigido uma das maiores organizações negras da história americana, com jornal próprio, uniforme próprio e uma companhia de navegação.

Ele saiu da Penitenciária Federal de Atlanta, onde estava desde 8/2/1925, e seguiu de trem até o porto de Nova Orleans sob escolta de agentes federais. Não passou por Nova York, onde ficava a sede da organização, nem teve tempo de reunir os papéis que deixara no escritório da rua 135.

No cais, uma multidão de seguidores esperou o embarque. Garvey falou do convés antes de o navio soltar as amarras, e os jornais da cidade registraram a despedida sob chuva.

A comutação encurtava a pena, sem apagar a condenação. Garvey nunca tinha se naturalizado americano, e a lei de imigração de 1917 permitia expulsar o estrangeiro condenado por crime de torpeza moral (delito tratado como desonesto, caso da fraude).

Ou seja: o mesmo ato que abriu a cela fechou a fronteira. O governo soltava o preso e, na mesma papelada, livrava o país dele.

Garvey tinha desembarcado em Nova York em 23/3/1916, quase sem dinheiro, para uma turnê de palestras. Onze anos depois, deixava os Estados Unidos por um porto do sul, de onde partiam os vapores para o Caribe.

O caso inteiro, cinco anos de pena e uma deportação, dependeu de uma única peça apresentada ao júri: um envelope, de que nenhuma testemunha soube dizer o que trazia dentro.

A primeira página começa pelo processo e pelo papel que a promotoria pôs diante dos jurados.

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I  A Primeira Página de Hoje

O envelope sem carta

Marcus Mosiah Garvey nasceu em 17/8/1887, em St. Ann's Bay, na costa norte da Jamaica, então colônia britânica. Foi tipógrafo em Kingston antes de viajar pela América Central e por Londres.

Em 1914, em Kingston, fundou a UNIA (Associação Universal para o Progresso Negro). O programa pedia orgulho racial, negócios próprios e a volta de descendentes de africanos à África.

Em Nova York, a partir de 1916, a associação cresceu depressa. Em 1918 saiu o primeiro número do Negro World (Mundo Negro), jornal semanal da UNIA, com páginas em inglês, espanhol e francês.

Em 1919, Garvey abriu a Black Star Line (Linha da Estrela Negra), companhia de navegação de propriedade negra. As ações custavam US$ 5 e eram vendidas em comícios e pelo correio.

A companhia comprou navios velhos e caros. O Yarmouth, cargueiro de 1887, quebrou em quase todas as viagens; o Kanawha, um iate, e o Shadyside, barco de passeio no rio Hudson, também deram prejuízo.

O governo federal vigiava Garvey desde o começo. Num memorando de 11/10/1919 ao agente especial Ridgely, reproduzido nos Marcus Garvey and UNIA Papers (Universidade da Califórnia em Los Angeles), J. Edgar Hoover escreveu: “Infelizmente, ele ainda não violou nenhuma lei federal que permita processá-lo como estrangeiro indesejável”.

A saída encontrada foi a lei postal. Em 12/1/1922, Garvey foi preso por fraude pelo correio: a acusação dizia que a Black Star Line vendia ações por carta prometendo um navio que a empresa não tinha, o Phyllis Wheatley.

A condenação de 1923 não se apoiou num livro-caixa nem numa testemunha de fraude, e sim num envelope cujo conteúdo ninguém lembrava.

O julgamento começou em maio de 1923, em Nova York. Garvey dispensou o advogado e fez a própria defesa, interrogando testemunhas por semanas.

Em 21/6/1923, o júri o condenou por uma única acusação; os três diretores julgados com ele saíram absolvidos. A prova era um envelope com o selo da Black Star Line, recebido pelo acionista Benny Dancy, que não soube dizer que papel vinha dentro.

A pena foi de cinco anos de prisão e multa de US$ 1.000, o teto previsto para uma só acusação de fraude postal. Garvey ficou solto sob fiança enquanto recorria, e o tribunal federal de apelação confirmou a sentença em 2/2/1925.

A cronologia do processo:

1914: UNIA nasce em Kingston
1919: Black Star Line aberta
12/1/1922: prisão de Garvey
21/6/1923: condenação
8/2/1925: entrada em Atlanta
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

De Atlanta a Kingston, e depois Londres

Dois dias depois de entrar em Atlanta, Garvey mandou aos seguidores uma carta publicada no Negro World. A “First Message to the Negroes of the World from Atlanta Prison” (Primeira Mensagem aos Negros do Mundo, da Prisão de Atlanta), de 10/2/1925, trazia a frase: “Procurem por mim no redemoinho ou na tempestade”.

Na cadeia, a UNIA organizou abaixo-assinados e comícios pela soltura. A associação sem o líder, porém, se dividiu em facções em Nova York, e a disputa pela sede durou anos.

A comutação veio em 18/11/1927, com a condição prática de que Garvey seria entregue ao serviço de imigração. Ele tinha cumprido menos de três dos cinco anos.

O Saramacca chegou a Kingston em 10/12/1927. Garvey desembarcou na cidade onde tinha fundado a UNIA treze anos antes, agora proibido de voltar ao país onde a associação cresceu.

Em 1928 ele viajou à Europa e entregou à Liga das Nações, em Genebra, uma petição em nome dos povos negros. A Liga não deu andamento ao pedido.

Em agosto de 1929, Kingston recebeu a Sexta Convenção Internacional da UNIA. No mesmo ano, Garvey fundou o People's Political Party (Partido Político do Povo), primeiro partido moderno da Jamaica.

Expulso dos Estados Unidos, Garvey trocou a plateia do Harlem pela política colonial jamaicana, onde o voto ainda dependia de renda.

Um item do programa do partido propunha punir juízes corruptos. Por publicá-lo, Garvey foi condenado por desacato e passou três meses preso em 1929, enquanto era eleito para o conselho de Kingston e St. Andrew.

Em 1935 ele se mudou para Londres, onde editou a revista The Black Man (O Homem Negro). Seguia com discursos no Hyde Park, mas a UNIA perdia sócios e dinheiro desde a crise de 1929.

Em janeiro de 1940, Garvey sofreu um derrame. Morreu em Londres em 10/6/1940, aos 52 anos, depois de um segundo derrame. Nunca mais pisou nos Estados Unidos.

Em 1964, os restos dele foram levados para a Jamaica e enterrados no National Heroes Park (Parque dos Heróis Nacionais), em Kingston. Em 1969, o país o declarou o primeiro dos seus Heróis Nacionais.

A cronologia do exílio:

18/11/1927: comutação por Coolidge
2/12/1927: embarque no Saramacca
10/12/1927: chegada a Kingston
1935: mudança para Londres
10/6/1940: fim da vida em Londres
1964: volta dos restos à Jamaica
 

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III  O Anúncio da Página 3

Um presidente de saída e um vapor holandês

A página: o Negro World acompanhou a saída do líder, e os jornais de Nova Orleans registraram a cena do cais. A deportação ganhou espaço curto na imprensa de Nova York, que meses antes cobria Garvey quase toda semana.

A coluna: o perdão parcial veio de um presidente em fim de linha. Em 2/8/1927, de férias em Rapid City, Dakota do Sul, Coolidge tinha entregado aos repórteres a nota “Não escolho concorrer à presidência em 1928”, e não disputou a eleição seguinte.

O anúncio: o Saramacca pertencia à Koninklijke West-Indische Maildienst (Real Serviço Postal das Índias Ocidentais), companhia holandesa. O navio levava o nome de um rio do Suriname e fazia a linha entre Nova Orleans e o Caribe.

Nas mesmas semanas, a United Fruit Company anunciava nos jornais da cidade as viagens da Great White Fleet (Grande Frota Branca), vapores de bananas que levavam turistas a Havana, à Jamaica e à América Central.

Garvey tinha sonhado a própria frota no mesmo mar. Saiu dos Estados Unidos como passageiro de uma linha estrangeira, na rota que a Black Star Line nunca conseguiu manter.

O que não se sabe é quanto os acionistas da Black Star Line perderam. A quantia exata nunca foi apurada em juízo, porque o processo de 1923 julgou uma acusação de correio, e os livros da empresa chegaram incompletos ao tribunal.

Também não há contagem oficial de quem esteve no cais em 2/12/1927. Os relatos da época falam em multidão, sem cifra de autoridade portuária ou policial, e as fotos que sobraram mostram só a beira do cais.

A ficha da última página:

Embarque: 2/12/1927
Porto: Nova Orleans
Navio: Saramacca
Pena original: 5 anos
Comutação: 18/11/1927
Perdão póstumo: 19/1/2025

“Você compraria uma ação de US$ 5 de um navio que ainda não existia?”

Em 19/1/2025, o presidente Joe Biden concedeu a Marcus Garvey o perdão póstumo da condenação de 1923. O centenário do embarque cai em 2/12/2027, uma quinta-feira: nesse dia, reconfira o registro do perdão em justice.gov/pardon e os documentos do caso no acervo Marcus Garvey Papers, da Universidade da Califórnia em Los Angeles.

 
 

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No julgamento de 1923 por fraude postal, qual foi a prova decisiva apresentada contra Marcus Garvey?

AUm contrato de compra do navio Phyllis Wheatley assinado por Garvey
BUm envelope com o selo da Black Star Line, recebido por um acionista que não sabia o que vinha dentro
CUm livro-caixa da Black Star Line com vendas de ações registradas a menos
DO depoimento de J. Edgar Hoover sobre as atividades da UNIA

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