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Na praça de Ciénaga, o Exército atira em 6/12/1928

A greve dos bananeiros da United Fruit acaba em fuzilaria, e a contagem das vítimas vai de 9 a mais de 1.000.

Um cacho de bananas sobre os trilhos de uma estação.

Estação de Ciénaga, Colômbia, 1928

▼
 

O governo do presidente colombiano Miguel Abadía Méndez informou nove mortos na praça da estação de Ciénaga, em 6/12/1928. Em 16/1/1929, o embaixador americano Jefferson Caffery telegrafou ao Departamento de Estado, em Washington, que o número passava de mil.

As duas cifras falam da mesma madrugada, do mesmo lugar e da mesma tropa. A distância entre elas nunca foi fechada por nenhum documento.

Ciénaga fica no departamento do Magdalena, no litoral caribenho da Colômbia. Era a porta da Zona Bananera, a faixa de plantações que abastecia a United Fruit Company, empresa americana com sede em Boston.

Naquela noite, a praça em frente à estação ferroviária estava cheia. Havia grevistas, mulheres, crianças e vendedores de comida, esperando um trem que, segundo o boato, traria o governador do Magdalena para negociar.

O trem não trouxe o governador. Quem estava na praça era o general Carlos Cortés Vargas, nomeado chefe civil e militar da região, com soldados armados de fuzis e metralhadoras posicionados nas bordas do largo.

Pouco depois da uma da manhã, um oficial leu em voz alta um decreto de estado de sítio (suspensão de garantias civis em situação de ordem pública) assinado na véspera. O texto mandava a multidão se dispersar.

Seguiram-se toques de corneta e um prazo curto para a retirada. A maior parte das pessoas ficou. A ordem de atirar veio em seguida, e o fogo varreu a praça.

Ao amanhecer, os corpos já não estavam no chão. Testemunhas ouvidas depois falaram de cadáveres levados em vagões e enterrados em valas, mas nenhuma lista nominal de vítimas foi produzida pelo Estado colombiano.

Os jornais de Bogotá publicaram a versão do governo nos dias seguintes. A censura do estado de sítio controlava o telégrafo da região, e as notícias que saíam do Magdalena passavam pelas mãos do Exército.

A primeira página volta ao começo da greve, quase um mês antes, e à lista de pedidos que levou trabalhadores e soldados para a mesma praça.

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I  A Primeira Página de Hoje

Os nove pedidos da Zona Bananera

O Massacre das Bananeiras começou como uma greve. Em 12/11/1928, milhares de cortadores, carregadores e peões das plantações do Magdalena cruzaram os braços sob a direção da Unión Sindical de Trabajadores del Magdalena (União Sindical dos Trabalhadores do Magdalena).

Os grevistas entregaram uma lista de nove reivindicações. Pediam seguro coletivo obrigatório, indenização por acidente de trabalho, moradia com condições de higiene e descanso semanal remunerado.

Pediam também aumento de salário e o fim do salário pago em vales, papéis que só valiam nos comissariados (armazéns da própria empresa), onde os preços eram fixados pela companhia.

O pedido mais difícil era o último. Os trabalhadores queriam ser contratados diretamente pela United Fruit, e não por empreiteiros intermediários.

A empresa respondeu com o argumento que o sistema de empreitada lhe dava: aqueles homens não eram seus empregados. Sem vínculo formal, dizia a companhia, não havia com quem negociar.

Entre os líderes estavam Raúl Eduardo Mahecha, sindicalista que já tinha organizado petroleiros em Barrancabermeja, e Alberto Castrillón, um dos dirigentes do Partido Socialista Revolucionário na região.

Os grevistas pararam o corte de bananas e impediram o embarque da fruta nos trens que levavam a carga ao porto de Santa Marta. A safra apodrecia nos cachos.

A banana era o produto mais valioso do Magdalena. A United Fruit controlava a ferrovia, os armazéns, o porto e boa parte da terra, e a greve atingia todos esses negócios ao mesmo tempo.

Para a United Fruit, a greve não existia no papel: os grevistas trabalhavam para empreiteiros, e a empresa se recusava a sentar com eles.

O governo de Abadía Méndez tratou o movimento como ameaça à ordem. Enviou tropas ao Magdalena e entregou o comando a Carlos Cortés Vargas, general do Exército.

Na véspera do tiroteio, 5/12/1928, o governo baixou o Decreto número 1, que declarava a região em estado de sítio. Foi esse o texto lido na praça de Ciénaga horas depois.

O próprio Cortés Vargas defendeu a ação no livro Los sucesos de las bananeras (Os acontecimentos das bananeiras), publicado em 1929. Ali sustentou que a tropa enfrentava uma insurreição e que a ordem de fogo foi dada depois dos avisos legais.

No mesmo livro, o general admitiu um número maior do que o comunicado inicial do governo: 47 mortos. A cifra oficial passou a ter duas versões, ambas assinadas por quem comandou os soldados.

Nenhuma das duas veio com nomes. Sem lista de vítimas, nenhuma família conseguiu provar oficialmente quem estava entre os mortos da praça.

A cronologia da greve:

12/11/1928: Greve declarada
5/12/1928: Estado de sítio
6/12/1928: Tiros em Ciénaga
1929: Livro de Cortés Vargas
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O telegrama de Bogotá

Nas semanas seguintes, a tropa perseguiu grevistas pela Zona Bananera. Houve prisões em massa, e conselhos de guerra (tribunais militares) julgaram dirigentes do movimento.

Alberto Castrillón foi preso e condenado. Raúl Eduardo Mahecha escapou da região, foi ferido na fuga e continuou na militância sindical fora do Magdalena.

Em 16/1/1929, Jefferson Caffery, embaixador dos Estados Unidos em Bogotá, mandou ao Departamento de Estado um despacho com a informação recebida da própria empresa. A frase do documento ficou célebre:

“Tenho a honra de informar que o representante da United Fruit Company em Bogotá me disse ontem que o número total de grevistas mortos pelas autoridades militares colombianas passou de mil.”

O despacho ficou nos arquivos do governo americano por décadas. Só depois de liberado aos pesquisadores ele passou a circular em livros sobre a greve.

A cifra de Caffery tem uma fonte curiosa. Ela vem da United Fruit, a parte interessada em diminuir o caso, e não dos sindicatos, interessados em aumentá-lo.

O número mais alto da madrugada de Ciénaga saiu da boca da empresa contra a qual a greve foi feita.

No Congresso colombiano, o deputado liberal Jorge Eliécer Gaitán levou o caso à tribuna. Ele tinha viajado à Zona Bananera, ouvido sobreviventes e reunido depoimentos sobre a ação da tropa.

Em setembro de 1929, Gaitán abriu na Câmara um debate que durou vários dias. Acusou o Exército de atirar contra gente desarmada e o governo de proteger a companhia estrangeira.

O debate fez de Gaitán um nome nacional. Ele se tornou o principal líder popular do país até ser baleado em Bogotá, em 9/4/1948, o que desencadeou o Bogotazo, a onda de revoltas na capital.

O desgaste pesou na política. Os conservadores governavam a Colômbia desde 1886, e nas eleições de 1930 perderam a presidência para o liberal Enrique Olaya Herrera.

A Zona Bananera voltou a exportar. A United Fruit seguiu operando no Magdalena por décadas, e as vítimas da praça continuaram sem nome em qualquer lista oficial.

As versões do número:

Governo, 1928: 9
Cortés Vargas, 1929: 47
Caffery, 1929: Mais de 1.000
 

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III  O Anúncio da Página 3

Os três mil de Macondo

A página: em 1967, a Editorial Sudamericana, de Buenos Aires, publicou Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. O romance leva a greve para Macondo, a cidade inventada do livro.

A coluna: no capítulo da greve, José Arcadio Segundo acorda num trem de carga cheio de corpos, a caminho do mar. Ao voltar, descobre que ninguém na cidade admite ter havido tiros.

O anúncio: a versão oficial em Macondo é a de que nada aconteceu. Os soldados dizem que os trabalhadores voltaram para casa, e a companhia bananeira segue como se a praça estivesse vazia.

Na conversa com uma mulher que lhe abre a porta, o personagem repete a cifra que viu na estação. A frase está em Cem Anos de Solidão, de 1967:

“Deviam ser uns três mil.”

García Márquez nasceu em Aracataca, cidade da Zona Bananera, em 6/3/1927, quinze meses antes dos tiros. Cresceu ouvindo o avô, o coronel Nicolás Márquez, falar da greve e da tropa.

O romance vendeu milhões de exemplares em dezenas de línguas. Em 1982, o autor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e o massacre de Macondo virou a versão mais lida da madrugada de Ciénaga.

A cifra do livro passou a circular fora dele. Ela aparece em discursos, reportagens e até em textos escolares, com a força de quem leu um documento.

Nenhum documento sustenta os três mil. Os registros que existem são o comunicado do governo, o livro do general, o despacho do embaixador e os depoimentos reunidos por Gaitán, e nenhum deles chega a esse total.

A contagem segue aberta. Não houve exumação das valas citadas pelas testemunhas, e o Estado colombiano nunca fez um levantamento oficial das vítimas daquela madrugada.

A ficha da última página:

Lugar: Estação de Ciénaga
Data: 6/12/1928
Comando: Gen. Cortés Vargas
Empresa: United Fruit Company
Romance: Cem Anos de Solidão

O centenário dos tiros cai em 6/12/2028, uma quarta-feira: nesse dia, reconfira as cifras no Archivo General de la Nación, em Bogotá (archivogeneral.gov.co), onde está a documentação do governo de 1928.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que García Márquez escolheu o número 3.000 para os mortos da praça de Macondo?

★ RARO

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Quiz da edição

No telegrama de 16/1/1929 ao Departamento de Estado, o embaixador Jefferson Caffery disse que a informação de que os mortos passavam de mil veio de quem?

ADo governo do presidente Abadía Méndez
BDo general Carlos Cortés Vargas
CDo representante da United Fruit Company em Bogotá
DDe testemunhas ouvidas na própria praça de Ciénaga

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