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O Ano Que Durou Sete Dias
Em 25 de dezembro de 1926, o Japão troca de imperador na villa de Hayama e a era Showa estreia com um primeiro ano de apenas uma semana.
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O calendário que perdeu o nome numa madrugada
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O Japão de 1926 contava o tempo de dois jeitos ao mesmo tempo. Havia o calendário gregoriano, adotado em 1873 para acertar o país com os relógios e as tabelas de navegação do Ocidente, e havia o calendário das eras imperiais, em que o ano não tem número absoluto e sim uma posição dentro do reinado de quem está no trono.
Nesse segundo calendário, escrever a data de um contrato exigia saber quem reinava. Um documento assinado em Taisho 15 e outro em Meiji 45 estavam separados por catorze anos, mas a conta só fechava para quem tinha na cabeça a data da sucessão.
A regra que amarrava tudo era recente. Desde 1868, o Japão praticava o princípio de uma era por reinado, o issei ichigen, que encerrou o costume antigo de trocar o nome do período no meio do caminho por causa de um cometa, de um terremoto ou de uma sequência de colheitas ruins. O nome da era passou a ser uma linha só, do primeiro ao último dia de quem ocupava o trono.
O detalhe prático dessa regra é o que interessa. A era nova começa na data exata da sucessão, não no primeiro de janeiro seguinte, e o resto do ano civil em curso já conta como ano 1 do período recém-nascido. Se a sucessão cai em dezembro, o ano 1 cabe numa página de agenda.
O imperador Taisho, Yoshihito, reinava desde 1912 e havia anos não exercia função pública. Problemas neurológicos o afastaram das cerimônias, e em novembro de 1921 o filho mais velho, o príncipe Hirohito, de vinte anos, foi nomeado regente e passou a assinar em nome do pai. Por cinco anos o Japão teve um imperador no papel e outro no despacho diário.
Em dezembro de 1926, a corte transferiu Taisho para a villa imperial de Hayama, na baía de Sagami, a cerca de cinquenta quilômetros de Tóquio, onde o ar do mar era considerado melhor para a saúde dele. Os jornais passaram a publicar boletins médicos diários, e as estações de rádio, no ar havia menos de dois anos, suspenderam a programação leve.
A primeira página de hoje é a madrugada em que aquele arranjo provisório virou definitivo, e o calendário do país inteiro ganhou um ano de uma semana.
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I A Primeira Página de Hoje
A madrugada de Hayama e o nome tirado de um livro chinês
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Às vinte e cinco minutos da uma da manhã de sábado, 25 de dezembro de 1926, na villa imperial de Hayama, encerrou-se o reinado de Yoshihito, o imperador Taisho, aos quarenta e sete anos. O príncipe regente Hirohito, de vinte e cinco, subiu ao trono na mesma hora, sem intervalo, porque a sucessão japonesa é automática e não depende de cerimônia.
O ritual mínimo aconteceu ainda de madrugada. Hirohito recebeu os três tesouros imperiais, a espada, o espelho e a joia, no ato que a corte chama de senso. A cerimônia grande de entronização, o sokui no rei, ficou para depois do luto e só ocorreu em Kyoto em novembro de 1928.
Faltava o nome. Um comitê de estudiosos de clássicos chineses trabalhava havia semanas sobre uma lista curta, e o governo precisava anunciar o período antes da edição matutina dos jornais.
A escolha foi Showa, escrita com dois ideogramas que significam algo como brilhante e harmonia. A expressão veio do Livro dos Documentos, uma das compilações mais antigas da tradição chinesa, num trecho sobre o soberano lendário Yao.
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As cem famílias tornaram-se brilhantes, e as dez mil nações viveram em harmonia.
Livro dos Documentos, capítulo Cânone de Yao, tradição clássica chinesa
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O anúncio oficial saiu por decreto no mesmo 25 de dezembro. Naquele instante, a data que os japoneses escreviam mudou de Taisho 15 para Showa 1, e o ano civil que já corria desde janeiro passou a ter dois nomes dependendo do dia em que o documento tinha sido assinado.
A era Showa nasceu com um primeiro ano de sete dias, de 25 a 31 de dezembro de 1926. No dia primeiro de janeiro, uma semana depois da estreia, o calendário já virava Showa 2, e o ano 1 inteiro cabia entre o Natal e a véspera do ano novo.
A ficha do período que começava, como o decreto o registrou:
| Data da sucessão | sábado, 25 de dezembro de 1926 | | Local | villa imperial de Hayama, Kanagawa | | Nome da era | Showa | | Duração de Showa 1 | sete dias, de 25 a 31 de dezembro | | Idade do novo imperador | 25 anos | | Cerimônia de entronização | novembro de 1928, em Kyoto |
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Para o cartório, para o banco e para a escola, a consequência foi imediata. Toda papelada emitida entre 1º de janeiro e 24 de dezembro daquele ano carregava a marca Taisho 15, e toda papelada emitida na semana seguinte dizia Showa 1, e os dois documentos se referiam ao mesmo 1926 do calendário ocidental.
Os jornais da manhã de 25 de dezembro saíram com tarja preta e edição extra. A programação de rádio virou música solene, os teatros de Tóquio fecharam por decreto de luto, e o Natal, que os grandes magazines da capital vinham transformando em data comercial desde o início dos anos vinte, sumiu das vitrines de um dia para o outro.
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II O Que Aconteceu Depois
Sessenta e dois anos e um encerramento de sete dias
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O reinado que começou naquela madrugada de dezembro se tornou o mais longo da história registrada do Japão: sessenta e dois anos e catorze dias, atravessando expansão militar, guerra total, ocupação estrangeira e o maior salto industrial do século.
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Os primeiros anos foram de crise e de radicalização. A quebra bancária de 1927 derrubou dezenas de instituições, a depressão de 1929 arrasou o preço da seda que sustentava o campo japonês, e oficiais do exército passaram a tratar a expansão no continente como saída econômica.
Em setembro de 1931, tropas japonesas ocuparam a Manchúria a partir de um incidente forjado numa ferrovia perto de Mukden. O Japão saiu da Liga das Nações em 1933, entrou em guerra aberta com a China em 1937 e atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941, arrastando o país para o conflito no Pacífico.
O fim veio pelo rádio. Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouviram pela primeira vez a voz do imperador numa gravação transmitida ao meio-dia, lida num japonês cortesão tão arcaico que muitos ouvintes precisaram da explicação do locutor em seguida para entender o que tinha sido dito.
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Suportando o insuportável e aguentando o inaguentável, queremos abrir caminho para uma grande paz por todas as gerações vindouras.
Hirohito, Proclamação Imperial de Encerramento da Guerra, 1945
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Em 1º de janeiro de 1946, o mesmo imperador leu uma declaração renunciando à natureza divina atribuída ao trono. A Constituição de 1947 transformou o cargo em símbolo do Estado, sem poder político, e o titular passou o resto do reinado inaugurando obras e estudando biologia marinha, área em que publicou trabalhos sobre hidrozoários.
As décadas do pós-guerra viraram o país do avesso pela via industrial. O trem-bala Tokaido entrou em operação em 1964, no mesmo ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio, e nas duas décadas seguintes as marcas japonesas de automóvel e de eletrônico dominaram prateleira em todo continente.
O encerramento repetiu a matemática da estreia. O imperador Showa se foi em 7 de janeiro de 1989, e o ano Showa 64 durou exatamente sete dias, de 1º a 7 de janeiro, o mesmo tamanho do Showa 1 que tinha aberto o período em dezembro de 1926.
O calendário japonês guarda, portanto, dois anos de uma semana nas duas pontas do mesmo reinado, e a era seguinte, Heisei, entrou em vigor em 8 de janeiro de 1989. Quem hoje converte uma data de nascimento ou uma escritura daquele período aprende cedo que existem duas semanas em que somar mil novecentos e vinte e cinco ao número da era Showa não funciona.
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