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O Bonde que Não Reconheceu Gaudí
Em 7 de junho de 1926, na Gran Via de Barcelona, um bonde derruba um velho sem documentos e a cidade demora a descobrir quem ele é.
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O trilho do bonde na pedra da Gran Via
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Em 1926 a Sagrada Família estava em obra havia quarenta e quatro anos e não tinha data para terminar. O templo subia num quarteirão do Eixample, cercado de terreno baldio e de casas baixas, e cada pedra assentada dependia de dinheiro que alguém tinha entregado por vontade própria.
O regime da obra explicava a lentidão. O templo era expiatório por decisão dos fundadores, o que significava viver só de esmola: o canteiro trabalhava enquanto houvesse caixa e parava quando a arrecadação secava, sem verba pública para atravessar o mês magro.
O arquiteto tinha 73 anos e havia largado todo o resto. Desde 1914 recusava encomenda nova, tinha dispensado clientes e escritório, e passou a morar numa sala do próprio canteiro, entre modelos de gesso pendurados no teto por fios e caixotes de ferramenta.
A aparência acompanhou a escolha. Andava de terno puído, sapato remendado e barba branca por fazer, sem carteira, sem cartão de visita e sem qualquer papel no bolso que dissesse a um estranho o nome de quem estava ali dentro daquela roupa.
A rotina era fixa e feita a pé. No fim de cada tarde ele deixava a obra e caminhava até a igreja de Sant Felip Neri, no bairro velho, para a confissão e a oração diárias, e voltava pelo mesmo trajeto no escuro, sem carro, sem acompanhante e sem aviso a ninguém do canteiro.
A cidade em volta tinha trocado de velocidade. Barcelona substituía a tração animal pelo bonde elétrico, e a Gran Via de les Corts Catalanes havia virado eixo de travessia rápida, com trilhos nos dois sentidos e automóvel disputando o espaço do pedestre.
A primeira página de hoje começa nessa caminhada de fim de tarde de 7 de junho, num cruzamento da Gran Via onde o bonde da linha 30 vinha no sentido contrário ao dos olhos do velho.
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I A Primeira Página de Hoje
O velho sem documentos na Gran Via
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Por volta das seis da tarde de 7 de junho de 1926, Antoni Gaudí atravessava a Gran Via na altura da rua Bailèn quando foi atingido por um bonde da linha 30. O impacto o jogou no calçamento, com ferimento na cabeça e nas costelas, e ele perdeu a consciência ali mesmo.
O socorro esbarrou na roupa. Quem chegou primeiro viu um homem idoso, malvestido e sujo de sangue, e a conclusão imediata da rua foi a de que se tratava de um mendigo derrubado no cruzamento.
Vários táxis passaram e não pararam. A recusa em transportar um ferido daquele aspecto atrasou o atendimento por um bom tempo, e depois do episódio conhecido a companhia responsável levou multa da prefeitura.
Um guarda acabou conseguindo carregá-lo. O destino foi o Hospital de la Santa Creu, no Raval, a casa que recebia os doentes pobres da cidade, e a ficha de entrada foi aberta sem nome, porque não havia documento algum para copiar.
A ficha daquela noite tinha poucos dados:
| Data do atropelamento | 7 de junho de 1926 | | Idade do ferido | 73 anos | | Linha do bonde | número 30 | | Documentos encontrados | nenhum | | Anos dedicados ao templo | 43 | | Torres concluídas até ali | 1 |
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Ele passou a primeira noite numa enfermaria de indigentes, sem nome na ficha, no mesmo pavilhão dos doentes que a cidade recolhia da rua, e ninguém no hospital sabia que estava tratando do arquiteto mais famoso da Catalunha.
O reconhecimento veio no dia seguinte. O capelão da Sagrada Família, que procurava o arquiteto desaparecido desde a véspera, percorreu delegacias e hospitais até identificá-lo numa cama do pavilhão comum.
A transferência foi oferecida na hora. Amigos e autoridades quiseram removê-lo para uma clínica particular, e a resposta registrada pelos presentes foi a de que o lugar dele era ali, entre os pobres, e que quem estava naquela enfermaria não devia ser separado por sobrenome.
O quadro clínico não deu margem. Ferido na cabeça, com fraturas e já debilitado por anos de alimentação escassa e trabalho de canteiro, ele piorou ao longo de dois dias e não resistiu na tarde de 10 de junho.
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Meu cliente não tem pressa.
Antoni Gaudí, citado por César Martinell em Gaudí: su vida, su teoría, su obra, 1967
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O enterro foi em 12 de junho e ocupou a cidade inteira. O cortejo saiu do hospital do Raval e atravessou Barcelona por quase dois quilômetros até a Sagrada Família, com gente parada nas calçadas ao longo de todo o percurso.
O corpo ficou dentro da própria obra. Com dispensa especial de Roma, ele foi sepultado na cripta do templo, na capela do Carmo, a poucos metros do canteiro onde tinha trabalhado nas últimas quatro décadas.
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II O Que Aconteceu Depois
A obra que ficou sem o desenhista
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No dia do enterro, o templo tinha uma fachada pronta de três, uma torre erguida de dezoito, e o único homem que sabia como o restante deveria ser construído estava sendo colocado na cripta debaixo dele.
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O estado da obra em 1926 era modesto para 43 anos de trabalho. Estavam de pé a cripta, o ábside, a fachada do Nascimento e a primeira das torres, concluída em novembro de 1925 e batizada com o nome de São Barnabé.
O método de projeto complicava a sucessão. Gaudí desenhava pouco em planta e resolvia a geometria no espaço, com modelos de gesso em escala e com a maquete de cordas e sacos de chumbo que invertia para achar a forma dos arcos.
O sucessor imediato foi Domènec Sugrañes, assistente de longa data, que tocou a obra pela leitura daqueles modelos e concluiu as três torres restantes da fachada do Nascimento nos anos seguintes, sem dinheiro novo além das doações.
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A originalidade consiste em voltar à origem.
Antoni Gaudí, citado por Isidre Puig Boada em El pensament de Gaudí, 1981
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A pior perda veio dez anos depois. Em julho de 1936, no início da Guerra Civil, o canteiro foi invadido e incendiado, e o ateliê com desenhos, fotografias e modelos originais foi destruído quase por completo.
O que restou foi entulho de gesso. Equipes passaram décadas recolhendo, catalogando e recompondo cacos de maquete para reconstruir os modelos perdidos, e boa parte do que se sabe hoje sobre a intenção do projeto saiu dessa remontagem paciente.
A obra continuou financiada do mesmo jeito. Sem verba pública e sem patrocínio de Estado, o templo seguiu vivendo de doação e, mais tarde, do ingresso pago pelo visitante, o que amarrou a velocidade do canteiro ao movimento da porta.
A tecnologia mudou o ritmo no fim do século. O cálculo por computador, a pedra cortada por máquina e o concreto pré-moldado permitiram executar geometrias que na mão do canteiro de 1926 levariam gerações, e a obra passou a subir num compasso que Gaudí nunca viu.
O calendário do templo, hoje, mira o centenário de quem morreu sem ver a segunda torre. A torre central de Jesus Cristo, que fará da Sagrada Família a igreja mais alta do mundo, foi programada para se completar exatamente cem anos depois daquela tarde na Gran Via.
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