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O Chefe que Desceu da Montanha

Em 26 de maio de 1926, cercado por exércitos francês e espanhol nas montanhas do Rife, Abd el-Krim se entrega em Targuist e parte para o exílio.

Um fuzil de ferrolho antigo sobre um mapa de montanhas, sob luz âmbar rasante.

O fuzil e o mapa do Rife, 1926

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Em julho de 1921, o exército espanhol perdeu em poucas semanas quase todo o território que ocupava no leste do Marrocos, e o inquérito militar conduzido pelo general Juan Picasso González, entregue em 1922 e conhecido como Expediente Picasso, atribuiu o colapso ao próprio comando espanhol. Cinco anos depois, em 26 de maio de 1926, o chefe rifenho que provocara aquela derrota desceu das montanhas por vontade própria e entregou as armas a oficiais franceses num posto de Targuist.

O homem que fez as duas coisas se chamava Muhammad ibn Abd al-Karim al-Khattabi, nascido por volta de 1882 em Ajdir, filho de um cádi da tribo Beni Ouriaghel. Estudou na universidade Qarawiyyin, em Fez, trabalhou como juiz muçulmano a serviço da administração espanhola em Melilla e editou a seção em árabe do jornal El Telegrama del Rif. Chegou a ser preso pelos espanhóis durante a Primeira Guerra Mundial, acusado de simpatia pelos alemães.

A região que ele conhecia por dentro era uma cordilheira de aldeias dispersas, sem estrada útil e sem porto grande, com uma exceção que valia dinheiro: as jazidas de ferro de Beni Bou Ifrur, exploradas desde 1907 pela Compañía Española de Minas del Rif, ligadas a Melilla por uma ferrovia particular. Pelo Tratado de Fez, de 1912, a França ficou com o protetorado sobre a maior parte do Marrocos e a Espanha com a faixa norte, o Rife incluído.

Em fevereiro de 1923, Abd el-Krim proclamou a República Confederada das Tribos do Rife, com assembleia de chefes, sistema de arrecadação, tentativa de emitir papel-moeda próprio e um esforço diplomático para ser reconhecida em Genebra e em Londres. Nenhuma potência europeia reconheceu o novo Estado.

A virada veio em abril de 1925, quando as colunas rifenhas atacaram a zona francesa e chegaram a menos de 40 quilômetros de Fez. Paris deixou de tratar a guerra como assunto espanhol, mandou o marechal Philippe Pétain avaliar o terreno e organizou uma campanha conjunta. Em 8 de setembro de 1925, tropas espanholas desembarcaram na Baía de Alhucemas, a poucos quilômetros da capital rifenha.

A primeira página de hoje é a operação final de maio de 1926, a conversa que antecedeu a entrega e o que estava escrito no papel que definiu para onde aquele homem seria levado.

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I  A Primeira Página de Hoje

A manhã em que o cerco fechou em Targuist

As negociações tinham falhado semanas antes. Em abril de 1926, delegações francesa, espanhola e rifenha se reuniram em Uxda, na fronteira argelina, e a conferência terminou sem acordo: os europeus exigiam a entrega das armas e dos prisioneiros e a submissão à autoridade dos dois protetorados, e a delegação rifenha voltou para a montanha sem assinar.

A ofensiva conjunta recomeçou em 8 de maio de 1926. Duas frentes avançaram ao mesmo tempo, a francesa pelo sul e a espanhola pelo norte, com aviação, artilharia e colunas motorizadas contra um território de aldeias em encosta. Em duas semanas o corredor entre Targuist e a costa estava cortado.

Je voulais faire du Rif un pays indépendant.

Mémoires d'Abd el-Krim, recolhidas por J. Roger-Mathieu, 1927

Em 26 de maio de 1926, Abd el-Krim mandou avisar o comando francês de que se entregaria, e escolheu deliberadamente os franceses, não os espanhóis contra quem lutava havia cinco anos. A rendição foi feita em Targuist, no interior montanhoso, e encerrou a guerra que começara em 1921 com a derrota espanhola em Annual.

A escolha do interlocutor não foi detalhe de protocolo. A Espanha tinha contas abertas com ele desde 1921 e prisioneiros a cobrar, enquanto a França tratava a rendição como operação de encerramento de campanha. Entregar-se ao lado que não queria julgamento público mudava o destino do prisioneiro, e mudou.

O emprego de armas químicas pela Espanha entre 1923 e 1926, com bombas de gás mostarda lançadas de avião sobre aldeias e mercados do Rife, está documentado por Sebastian Balfour em Deadly Embrace: Morocco and the Road to the Spanish Civil War, publicado em 2002 com base em arquivos militares espanhóis. O material vinha da fábrica montada em La Marañosa, perto de Madri.

A ficha da rendição, item por item:

Nome do chefe rifenho: Muhammad ibn Abd al-Karim al-Khattabi
Data da entrega: 26 de maio de 1926
Local: Targuist, montanhas do Rife
Entregue a: comando militar francês
Guerra encerrada: iniciada em julho de 1921, em Annual
Destino definido pela França: ilha da Reunião, no oceano Índico

Levado para a zona francesa sob escolta, ele foi mantido em Fez e depois transferido para Casablanca. A decisão do governo francês foi deportá-lo com a família para a Reunião, colônia francesa no Índico a mais de 9 mil quilômetros do Marrocos, distante o bastante para tirar o nome dele do noticiário africano.

O irmão, M'Hamed, negociador e chefe militar da república rifenha, seguiu no mesmo grupo. A comitiva de deportados incluía esposas, filhos e alguns auxiliares, e o governo francês fixou uma pensão para o sustento do conjunto, arranjo que durou décadas e que aparece na correspondência administrativa do período.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Vinte e um anos numa ilha do Índico

A deportação para a Reunião durou 21 anos e terminou com uma fuga em pleno porto egípcio. O prisioneiro de 1926 morreu chefe político respeitado no Cairo, sem nunca ter voltado ao Marrocos.

Instalado em Saint-Denis e depois numa propriedade no interior da ilha, Abd el-Krim viveu sob vigilância, com casa, criados e a pensão paga por Paris. Recebeu jornalistas, escreveu, acompanhou por correspondência o que acontecia no norte da África e não teve autorização para sair.

Em 1927, o jornalista J. Roger-Mathieu publicou em Paris as Mémoires d'Abd el-Krim, recolhidas de conversas com o próprio, livro que fixou a versão dele sobre a guerra e sobre a rendição e que virou fonte usada por historiadores desde então, sempre com a ressalva de ser depoimento de parte interessada.

Em 1947, o governo francês autorizou a transferência dele para a França, com residência vigiada no sul do país. O navio que o levava fez escala em Port Said, no Egito, e ele desembarcou e pediu asilo. O rei Faruk concedeu, e o exilado passou o resto da vida no Cairo.

Do Cairo, a atuação mudou de escala. Em 1948, Abd el-Krim presidiu o Comitê de Libertação do Magrebe Árabe, articulação de nacionalistas marroquinos, argelinos e tunisianos, e recusou o convite para retornar ao Marrocos depois da independência, em 1956, enquanto houvesse tropas francesas em solo norte-africano.

O que veio depois, ano a ano:

1926: rendição em Targuist e deportação para a ilha da Reunião
1927: publicação em Paris das Mémoires d'Abd el-Krim
1947: desembarque em Port Said e asilo concedido pelo Egito
1948: presidência do Comitê de Libertação do Magrebe Árabe
1956: independência do Marrocos, com a recusa de voltar
1963: fim da vida no Cairo, aos cerca de 81 anos

A guerra deixou marca funda na própria Espanha. A geração de oficiais que fez carreira no Marrocos, os africanistas, saiu da campanha com prestígio, promoções rápidas e desprezo pela política civil de Madri, e Balfour liga essa formação militar ao golpe de julho de 1936 que abriu a Guerra Civil Espanhola.

No Rife, o efeito foi de longa duração. A região ficou fora dos investimentos do Marrocos independente, teve revolta reprimida em 1958 e 1959 e voltou às manchetes em 2016 e 2017 com o movimento de protesto de Alhucemas, cujos manifestantes reivindicaram publicamente a memória da república proclamada em 1923.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame da travessia e do vapor colonial

A página: a imprensa francesa de 1926 vendia o império na mesma folha em que noticiava a guerra do Rife, e jornais como Le Petit Parisien e a revista semanal L'Illustration, fundada em 1843, publicavam a fotografia da coluna militar em uma página e, na seguinte, a página inteira comprada pelas companhias de navegação e pelas casas de exportação.

O anúncio: as Messageries Maritimes e a Compagnie Générale Transatlantique anunciavam partidas de Marselha e de Bordéus, com escalas e datas fixas, para o norte da África, para o canal de Suez e para as colônias do Índico. O texto vendia conforto de bordo e regularidade de calendário, e o cupom pedia nome, endereço e a classe desejada.

A coluna: ao redor vinham os anúncios que compunham a economia colonial doméstica, o quinino contra a malária, o capacete de cortiça, o equipamento de campanha, o curso por correspondência de árabe dialetal e as ofertas de emprego administrativo nas colônias, que prometiam adicional de residência a quem aceitasse embarcar.

A ficha da imprensa e da travessia daquele ano, item por item:

Guerra noticiadacampanha franco-espanhola no Rife, 1925 e 1926
Revista ilustrada de referênciaL'Illustration, fundada em 1843
Companhias de navegação anunciantesMessageries Maritimes e Transatlantique
Portos de partidaMarselha e Bordéus
Rota para o Índicocanal de Suez, aberto em 1869
Destino do exílio anunciado como colôniaReunião, francesa desde 1642
Canal de venda da passagemcupom de jornal e agência de bilhetes

O anúncio de passagem explica a logística da deportação melhor que o comunicado oficial. O mesmo circuito de vapores que levava funcionário, comerciante e turista de Marselha ao Índico levou o chefe rifenho e a família dele, e a ilha escolhida como prisão era servida por linha regular justamente porque já estava dentro da malha comercial francesa.

O quinino e o capacete de cortiça contam a outra metade da página. A colônia era vendida ao leitor europeu como lugar de carreira e de aventura administrada, e a mesma distância que fazia da Reunião um bom destino de anúncio fazia dela um bom destino de exílio.

A guerra também vendia papel. A circulação dos diários parisienses crescia com fotografia de campanha, mapa de frente e comunicado militar diário, e a queda de Targuist rendeu manchete grande em maio de 1926, sem que a página seguinte deixasse de oferecer a travessia de luxo para as mesmas colônias.

O dossiê administrativo do exílio na Reunião está nos Archives nationales d'outre-mer, em Aix-en-Provence, na França, com correspondência, decisões de residência e registros de pensão. O centenário da rendição cai em 26 de maio de 2026. Reconfira o dossiê no catálogo do ANOM naquela semana.

"O chefe rifenho perdeu a guerra em Targuist ou apenas mudou o endereço da própria causa?"

 
 

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Ao decidir se entregar em 26 de maio de 1926, para qual comando Abd el-Krim se dirigiu deliberadamente?

AO comando espanhol, contra quem lutava desde 1921
BO comando francês, que tratava a rendição como fim de campanha
CO sultão do Marrocos, em Fez
DA administração britânica em Gibraltar

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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