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O espinho que não levou Rilke
Em 29 de dezembro de 1926, Rilke sucumbe à leucemia na clínica de Val-Mont, e a lenda da rosa sobrevive ao laudo.
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Rosa e caderno, Valais, 1926
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A ficha do paciente Rainer Maria Rilke na clínica de Val-Mont, na Suíça, registrou leucemia como a doença que o matou em 29 de dezembro de 1926, pelo diagnóstico do médico Theodor Haemmerli. Os verbetes e as biografias de bolso ainda contam outra causa: um espinho de rosa. As duas versões estão guardadas lado a lado no acervo da Fondation Rilke, em Sierre, no cantão do Valais.
Rilke tinha 51 anos e era, para boa parte da Europa de língua alemã, o maior poeta vivo. Nascido em Praga em 1875, publicou as Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu em 1923, dois livros escritos quase de um fôlego num inverno suíço.
Desde 1921 morava no Château de Muzot, uma torre de pedra do século XIII perto de Sierre, sem água encanada e sem luz elétrica. Quem pagava o aluguel, e depois comprou a torre para ele, era Werner Reinhart, comerciante e mecenas de Winterthur.
No outono de 1926 chegou a Muzot uma visita que ficou na história da lenda: Nimet Eloui Bey, jovem egípcia da sociedade do Cairo, admiradora dos versos dele. Rilke desceu ao jardim para cortar rosas e oferecer a ela.
Um espinho furou a mão do poeta. A ferida infeccionou, a mão inchou e o machucado se recusou a fechar por semanas, algo estranho para um arranhão de jardim.
A cena tinha tudo para virar símbolo. Rilke escrevera sobre rosas a vida inteira, publicou um livro de poemas sobre elas em francês e deixou a rosa gravada no próprio túmulo. Um poeta das rosas ferido por uma rosa dava um desfecho perfeito demais para ser largado pelos admiradores.
O laudo, porém, conta a doença que já corria no sangue de Rilke havia anos e que explica por que a mão não sarava.
A primeira página de hoje abre o quarto da clínica sobre o lago Léman, o exame que desmentiu o jardim e o último poema escrito ali.
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I A Primeira Página de Hoje
O exame que desmentiu o jardim
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A clínica de Val-Mont ficava em Glion, na encosta acima de Montreux, virada para o lago Léman. Rilke conhecia bem os corredores: desde o fim de 1923 se internava ali em temporadas de repouso, sempre sob os cuidados de Theodor Haemmerli, o médico-chefe.
Os sintomas vinham de longe. Havia pelo menos três anos o poeta se queixava de cansaço, feridas na boca, perda de peso e dores que nenhum tratamento resolvia. Os médicos suspeitaram de nervos, de digestão, de excesso de trabalho.
No fim de novembro de 1926, com a mão ferida ainda aberta e a febre alta, Rilke voltou a Val-Mont pela última vez. Desta vez Haemmerli pediu a contagem do sangue ao microscópio.
A contagem mostrou glóbulos brancos em excesso e imaturos: leucemia. A doença baixava as defesas do corpo, e assim um arranhão comum de espinho virou uma infecção que não cedia. |
Leucemia é o câncer das células que a medula óssea fabrica para formar o sangue. Em 1926 ela não tinha tratamento: a primeira quimioterapia contra a doença só apareceria na década de 1940, nos Estados Unidos.
Rilke passou dezembro no quarto, com a boca e a garganta cobertas de feridas que dificultavam comer e falar. Quem cuidava das cartas e das visitas era Nanny Wunderly-Volkart, amiga suíça que administrava a vida prática do poeta desde a chegada dele ao país.
Por boa parte daquelas semanas ele recusou os sedativos fortes. Queria atravessar a dor acordado, coerente com o que tinha escrito em 1910 nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde defendia que cada pessoa merece a própria morte, e não uma morte de fábrica, igual à de todos.
No caderno de notas, em meados de dezembro, escreveu os últimos versos que se conhecem dele. Começam assim:
“Vem tu, o último, que eu reconheço, dor sem remédio na tecedura da carne.” Rainer Maria Rilke, caderno de notas, dezembro de 1926 |
Rilke morreu na madrugada de 29 de dezembro, no quarto de Val-Mont. A causa registrada pela clínica foi a leucemia, e não a rosa.
A ficha do paciente:
| Nome: Rainer Maria Rilke, batizado René Karl Wilhelm Johann Josef Maria | | Nascimento: 4 de dezembro de 1875, em Praga | | Internação final: fim de novembro de 1926, clínica de Val-Mont, em Glion | | Médico: Theodor Haemmerli | | Causa registrada: leucemia | | Data: 29 de dezembro de 1926, aos 51 anos |
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II O Que Aconteceu Depois
Uma lápide para a rosa
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O corpo não voltou para Praga nem foi para a Alemanha. Rilke deixara escrito, num bilhete de 1925, onde queria ficar: no adro da velha igreja de Raron, vilarejo do Valais sobre um rochedo, a poucos quilômetros de Muzot.
O enterro aconteceu em 2 de janeiro de 1927, num dia frio, com um grupo pequeno de amigos. Reinhart, Nanny Wunderly-Volkart e alguns moradores da região acompanharam o caixão morro acima.
Na lápide foram gravados três versos que o próprio Rilke escolhera para o túmulo. Em português, dizem:
“Rosa, ó pura contradição, prazer de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras.” Rainer Maria Rilke, epitáfio escrito em 1925 |
A rosa estava na lápide antes do espinho. Os versos foram escolhidos cerca de um ano antes da visita de Nimet Eloui Bey, e essa ordem dos fatos ajudou a lenda a crescer: parecia que o poeta tinha previsto o fim.
O espinho foi real e a ferida também. O que a lenda inverteu foi a causa: a rosa não trouxe a doença, a doença impediu que o arranhão da rosa sarasse. |
A versão romântica ganhou força nas lembranças publicadas por amigos e admiradores nos anos seguintes, e depois nos prefácios das traduções. Em muitas línguas, o leitor conheceu o espinho antes de conhecer o exame.
Há um ponto que os registros publicados não resolvem: o tipo exato de leucemia. A classificação que separa as formas aguda e crônica, mieloide e linfoide, só se firmou décadas depois, e a ficha de 1926 não traz os dados que permitiriam refazer o diagnóstico hoje.
A obra seguiu viva depois da lápide. Em 1929, a editora Insel publicou as Cartas a um Jovem Poeta, dez cartas que Rilke mandou entre 1903 e 1908 a Franz Xaver Kappus, cadete que pedia opinião sobre os próprios versos. O livro virou o título mais vendido do autor.
A cronologia do caso:
| 1875: nasce em Praga, em 4 de dezembro | | 1921: instala-se no Château de Muzot, no Valais | | 1922: termina as Elegias de Duíno em fevereiro, em Muzot | | 1923: primeira internação em Val-Mont, no fim do ano | | 1925: escreve os versos do epitáfio e as instruções do enterro | | 1926: fere a mão num espinho no outono e sucumbe à leucemia em 29 de dezembro | | 1927: enterro em Raron, em 2 de janeiro | | 1929: saem as Cartas a um Jovem Poeta, pela Insel |
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