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O Jogo de Uma Vez Só

Em 16 de fevereiro de 1926, no Carlton Club de Cannes, Suzanne Lenglen e Helen Wills se enfrentaram pela primeira e única vez.

Quadra de saibro vazia cercada por arquibancada de madeira, vista de cima.

Quadra de saibro na Riviera francesa, 1926

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Suzanne Lenglen não perdia uma partida de simples desde 1921, e o quadro de campeãs de Wimbledon registra o nome dela em 1919, 1920, 1921, 1922, 1923 e 1925. Helen Wills desembarcou na França com os títulos de 1923, 1924 e 1925 do campeonato nacional dos Estados Unidos, organizado pela United States Lawn Tennis Association, sem nunca ter cruzado a rede com a francesa.

Os dois cartazes descrevem invencibilidades que não cabem no mesmo lado da tabela. Uma delas seria interrompida numa tarde de fevereiro, num clube privado da Riviera, fora de qualquer campeonato oficial, num torneio de estação de inverno que existia para entreter hóspedes de hotel.

Lenglen tinha vinte e seis anos e morava na região. Filha de um proprietário de fábrica de carruagens que a treinou desde a infância em Compiègne e depois em Nice, ela transformou os torneios da Costa Azul em quintal de trabalho e jogava vestida por Jean Patou, o costureiro parisiense que assinou desde 1921 as saias plissadas na altura do joelho e a faixa de cabelo que viraram uniforme das quadras.

Wills tinha vinte anos, vinha de Berkeley, na Califórnia, estudava na universidade estadual e jogava de viseira verde e cara fechada, hábito que rendeu na imprensa americana o apelido de Little Miss Poker Face. Ela atravessou o Atlântico em janeiro de 1926 para jogar a temporada da Riviera, e a inscrição das duas no mesmo torneio de Cannes bastou para mobilizar a imprensa esportiva de dois continentes.

O torneio do Carlton Club era pequeno, com chave curta e quadra de saibro cercada por arquibancada de madeira montada às pressas. O clube não tinha porte de estádio nem bilheteria organizada para multidão, e a demanda por lugares apareceu semanas antes da chave sequer estar sorteada.

A primeira página de hoje é a tarde de 16 de fevereiro de 1926, com a bilheteria, os telhados vizinhos, os dois sets e o ponto que quase encerrou a partida cedo demais.

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I  A Primeira Página de Hoje

Seis por três, oito por seis

Na terça-feira, 16 de fevereiro de 1926, a final feminina do torneio do Carlton Club de Cannes colocou frente a frente a francesa Suzanne Lenglen e a americana Helen Wills. Foi a primeira e a última vez que as duas jogaram uma partida de simples uma contra a outra.

O clube vendeu os ingressos disponíveis muito antes da data. Quem chegou sem entrada encontrou revendedores cobrando múltiplos do preço original na porta, e quem não pagou o revendedor procurou altura: os telhados das construções vizinhas, as janelas dos andares de cima e até as árvores ao redor da quadra receberam gente em pé durante toda a partida.

O tênis me deu tudo, e eu dei ao tênis tudo o que eu tinha.

Suzanne Lenglen, Lawn Tennis for Girls, 1920

A moldura era desproporcional ao evento. Uma final de torneio de estação de inverno, sem título nacional nem internacional em disputa, atraiu correspondentes de jornais europeus e americanos, fotógrafos e cinegrafistas de cinejornal. Bill Tilden, o maior nome do tênis masculino da época, assistiu da arquibancada na condição de cronista contratado por jornais dos Estados Unidos.

A partida começou com Lenglen impondo o próprio jogo. Ela abriu vantagem cedo, controlou a troca de bola pela colocação e não pela força, e fechou o primeiro set em 6 a 3, com Wills errando na tentativa de encurtar os pontos.

O segundo set inverteu o roteiro. Wills passou a sustentar as trocas longas, empatou o jogo e chegou a abrir vantagem. Com Lenglen sacando em 6 a 5, um ponto pareceu encerrar a partida: uma bola de Wills foi cantada como fora por alguém à beira da quadra, a francesa recebeu flores da plateia e a quadra foi invadida por espectadores comemorando.

O ponto não tinha valido. O juiz de cadeira era o comandante George Hillyard, inglês com longa folha de serviço em arbitragem de Wimbledon, e ele determinou a retomada do jogo, porque o chamado não partira do juiz de linha responsável. A quadra foi esvaziada e as duas voltaram a jogar com o placar em 6 a 5.

A ficha da partida, item por item:

Data: terça-feira, 16 de fevereiro de 1926
Local: Carlton Club, Cannes, na Costa Azul francesa
Disputa: final feminina de simples do torneio do clube
Jogadoras: Suzanne Lenglen, 26 anos, e Helen Wills, 20 anos
Placar final: 6 a 3 e 8 a 6 para Lenglen
Juiz de cadeira: comandante George Hillyard
Confrontos anteriores entre as duas: nenhum
Confrontos posteriores entre as duas: nenhum

Wills empatou em 6 a 6 e ainda teve o serviço de volta em mãos. Lenglen fechou os dois games seguintes e venceu por 8 a 6, sem tie-break, recurso que só entraria no tênis décadas depois. Ao fim, a francesa deixou a quadra amparada, exausta, e a americana saiu de cabeça erguida com a certeza pública de que tinha chegado perto.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

As duas rotas depois do último ponto

A revanche parecia inevitável e nunca aconteceu. Em menos de doze meses, as duas trocaram de mundo por motivos diferentes, e o confronto de Cannes ficou como amostra única de uma comparação que o esporte discutiu por décadas sem poder repetir o teste.

O calendário conspirou primeiro. Wills passou por uma cirurgia de apêndice em 1926 e ficou fora de Wimbledon naquele ano, exatamente o torneio onde um segundo encontro entre as duas seria natural.

Lenglen chegou a Wimbledon em 1926 e saiu pela porta lateral. Um desencontro de horários na programação a colocou como ausente numa quadra em que a rainha Mary estava na tribuna, a imprensa britânica tratou o episódio como desfeita e a francesa se retirou do torneio.

Em agosto de 1926, o empresário americano Charles C. Pyle ofereceu a Lenglen um contrato para encabeçar a primeira turnê profissional de tênis da história. Ela aceitou, e a assinatura significou expulsão automática do circuito amador, único circuito que valia títulos naquele momento.

O que veio depois, ano a ano:

1926: Lenglen assina com Charles C. Pyle e deixa o tênis amador
1926: a turnê profissional estreia em 9 de outubro no Madison Square Garden, em Nova York, com Lenglen contra Mary K. Browne
1927: Wills vence Wimbledon pela primeira vez, aos 21 anos
1928: Wills vence Wimbledon, o campeonato francês e o campeonato dos Estados Unidos no mesmo ano
1933: Lenglen assume a direção de uma escola de tênis em Paris, financiada pelo empresário Jean Tillier
1938: Wills vence o oitavo título de simples em Wimbledon
1994: a segunda maior quadra de Roland Garros é inaugurada com o nome de Court Suzanne-Lenglen

A carreira de Wills seguiu por mais doze anos de circuito amador. Ela somou dezenove títulos de simples nos quatro grandes campeonatos, sendo oito em Wimbledon, sete nos Estados Unidos e quatro na França, e entre 1927 e 1933 atravessou temporadas inteiras sem perder um set em simples.

Lenglen nunca mais disputou um torneio oficial. A turnê de Pyle rendeu a ela uma quantia inédita para uma atleta mulher naquele momento, cruzou os Estados Unidos em dezenas de cidades e provou que existia público pagante para tênis fora do amadorismo, num modelo que o esporte só adotaria de forma ampla em 1968, com a chamada era aberta.

O confronto de Cannes virou referência permanente na literatura do tênis justamente pela falta de segunda medição. Larry Engelmann dedicou ao encontro o livro The Goddess and the American Girl, publicado pela Oxford University Press em 1988, e a comparação entre as duas continua sendo feita sobre uma amostra de dois sets.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame na página das estações de inverno

A página: a imprensa da Costa Azul em fevereiro de 1926 tratava a temporada de inverno como pauta econômica. Jornais regionais como L’Éclaireur de Nice et du Sud-Est publicavam a lista de hóspedes ilustres dos hotéis ao lado da programação de bailes, cassinos, regatas e torneios de tênis dos clubes, tudo na mesma grade que trazia o anúncio pago dos estabelecimentos.

O anúncio: ao redor dessa grade vinham os nomes que viviam do viajante estrangeiro. A Compagnie Internationale des Wagons-Lits anunciava o Calais-Méditerranée Express, o expresso de vagões azuis apelidado de Train Bleu desde 1922, que ligava o canal da Mancha à Riviera com carros dormitório. Os grandes hotéis compravam espaço fixo, entre eles o próprio Carlton de Cannes, aberto em 1911, e o Negresco de Nice, aberto em 1913.

A coluna: completavam a página os anunciantes industriais franceses em campanha nacional, entre eles a Citroën, que produzia em série em Paris desde 1919, a Michelin, de Clermont-Ferrand, com o boneco de pneus criado em 1898, e as marcas de aperitivo Byrrh, Dubonnet e Pernod, que dominavam os cartazes de rua da época.

A ficha da imprensa e do reclame francês do período, item por item:

Jornal regional da Costa AzulL’Éclaireur de Nice et du Sud-Est
Trem de luxo anunciado para a temporadaCalais-Méditerranée Express, o Train Bleu, com vagões azuis desde 1922
Operadora do tremCompagnie Internationale des Wagons-Lits
Hotéis anunciantes na regiãoCarlton de Cannes, de 1911, e Negresco de Nice, de 1913
Montadora em campanha nacionalCitroën, com produção em série em Paris desde 1919
Fabricante de pneus anuncianteMichelin, de Clermont-Ferrand
Aperitivos em cartazByrrh, Dubonnet e Pernod
Costureiro que vestia Lenglen nas quadrasJean Patou, de Paris, desde 1921

A moeda entrava na conta de quem anunciava. O franco francês atravessava 1926 em desvalorização acelerada, quadro que só começou a virar com o gabinete de Raymond Poincaré formado em julho daquele ano, e a fraqueza da moeda barateava a estadia para quem chegava com libra esterlina ou dólar no bolso. A Riviera de inverno vendia sol e câmbio favorável na mesma linha de anúncio.

O tênis entrou nessa economia como isca de temporada. Um torneio de clube não pagava prêmio às jogadoras, porque o estatuto amador proibia, mas enchia hotel, restaurante e cassino por uma semana inteira. O retorno vinha por essa via indireta, e explicava por que um clube pequeno montava arquibancada de madeira para uma final de fevereiro.

Os documentos daquela tarde continuam acessíveis e datados. As edições de fevereiro de 1926 dos jornais franceses estão digitalizadas na Gallica, a biblioteca digital da Biblioteca Nacional da França, e o quadro de campeãs de Wimbledon é mantido pelo All England Lawn Tennis Club. O centenário da partida cai em 16 de fevereiro de 2026. Reconfira as duas fontes na semana do centenário, uma na busca por data da Gallica e a outra no site oficial do torneio britânico.

"Um confronto único vale mais pela partida jogada ou pela revanche que nunca veio?"

 
 

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Segundo a edição, quem foi a adversária de Suzanne Lenglen na estreia da turnê profissional, em 9 de outubro de 1926, no Madison Square Garden?

AHelen Wills
BBill Tilden
CMary K. Browne
DElizabeth Ryan

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