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O mil-réis amarrado ao ouro

Em 18 de dezembro de 1926, Washington Luís cria a Caixa de Estabilização e fixa o mil-réis no ouro, lastro que 1929 esvaziaria.

Barras de ouro, cédulas antigas e balança de latão.

Ouro e papel, Rio de Janeiro, 1926

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A Lei nº 5.108, sancionada por Washington Luís em 18 de dezembro de 1926, obrigava a nova Caixa de Estabilização a trocar por ouro, à vista, toda nota que ela mesma emitisse. No fim de 1930, um decreto do governo provisório de Getúlio Vargas mandou fechar essa Caixa, com o cofre praticamente vazio. Os dois atos estão na Coleção das Leis do Brasil, publicada pela Imprensa Nacional e guardada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

O mil-réis era a moeda do país desde o Império, e ninguém sabia quanto ele valeria no mês seguinte. O câmbio era cotado em pence, os centavos da libra esterlina: quantos pence um mil-réis comprava em Londres. A lei de 1846 fixara a paridade em 27 pence. Em 1926, o mil-réis comprava menos de 6.

Essa oscilação dividia o país em dois campos. O cafeicultor gostava do mil-réis fraco, porque cada saca vendida em libras virava mais papel no bolso. O importador, o assalariado das cidades e o Tesouro, que pagava a dívida externa em libras, queriam moeda forte e estável.

Washington Luís, paulista e ex-governador do maior estado produtor de café, assumiu a Presidência em novembro de 1926 com a reforma monetária pronta na gaveta. O ministro da Fazenda escolhido para executá-la foi um deputado gaúcho de 44 anos, Getúlio Dornelles Vargas.

A escolha técnica mais importante da reforma foi recusar a volta aos 27 pence de 1846. Revalorizar a moeda até lá arruinaria o café e as dívidas internas. O governo preferiu fixar o mil-réis perto do valor que ele já tinha no mercado e prometer que, daquele ponto em diante, ele não se mexeria mais.

A primeira página de hoje abre o cofre criado pela lei, a regra que ele seguia e o peso exato de ouro que passou a valer um mil-réis.

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I  A Primeira Página de Hoje

Duzentos miligramas por mil-réis

A Caixa de Estabilização nasceu como repartição do Tesouro Nacional com uma função só: receber ouro e emitir notas que valiam aquele ouro. Quem entregasse metal no guichê saía com cédulas da Caixa. Quem entregasse as cédulas saía com o metal. A troca corria nos dois sentidos, sem limite de valor.

A lei fixou a conversão no artigo que mais importava para o comércio: um mil-réis passava a valer 200 miligramas de ouro fino, isto é, ouro puro, sem a liga de cobre das moedas. Em libras, a conta dava cerca de 5 pence e 29/32, praticamente o câmbio do mercado em dezembro de 1926.

A Caixa não imprimia dinheiro por decisão do governo. Cada nota dela correspondia a ouro já depositado no cofre, e por isso a quantidade de moeda nova subia e descia conforme o metal entrava e saía do país.

Na prática, o comerciante que recebia uma nota da Caixa sabia o que tinha na mão: um recibo de ouro depositado no Rio, trocável no dia seguinte pelo mesmo peso de metal, sem depender da cotação do dia.

A reforma também previu uma unidade futura, o cruzeiro, equivalente a um mil-réis, para substituir o papel antigo quando as reservas permitissem. O cruzeiro de 1926 ficou no papel: nenhuma cédula com esse nome circulou sob aquela lei.

O papel-moeda velho, emitido pelo Tesouro em décadas de déficit, continuou valendo. A ideia era recolhê-lo aos poucos, trocando-o por notas conversíveis à medida que o ouro chegasse. O Banco do Brasil, que desde a reforma de Artur Bernardes em 1923 tinha o poder de emitir, perdeu essa função para o novo regime.

O ouro viria de duas fontes. A primeira era a exportação, com o café à frente, que trazia libras e dólares. A segunda eram os empréstimos externos, contratados em Londres e Nova York por União, estados e municípios nos anos seguintes.

Vargas conduziu a Fazenda até dezembro de 1927, quando saiu para governar o Rio Grande do Sul. Deixou a Caixa aberta, recebendo metal, e o câmbio parado no ponto fixado pela lei.

A ficha da lei:

Número: Lei nº 5.108
Sanção: 18 de dezembro de 1926, no Rio de Janeiro, então capital
Presidente: Washington Luís Pereira de Sousa
Ministro da Fazenda: Getúlio Dornelles Vargas
Órgão criado: Caixa de Estabilização
Paridade: 200 miligramas de ouro fino por mil-réis
Unidade prevista e nunca emitida: cruzeiro
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O ouro que saiu mais rápido do que entrou

Durante 1927 e 1928 a Caixa funcionou como prometido. O café vendia bem, os empréstimos externos entravam, e o ouro se acumulava no cofre. O câmbio ficou imóvel no ponto da lei, e o comércio de importação passou a fazer contas sem medo da semana seguinte.

A firmeza tinha um apoio que não aparecia na lei. O café era sustentado pelo Instituto do Café do Estado de São Paulo, que retinha sacas em armazéns para segurar o preço e se financiava com crédito externo. Enquanto os bancos de Londres emprestavam, o esquema girava.

O lastro funcionava nos dois sentidos, e a mesma regra que atraía ouro nos anos bons obrigava a Caixa a entregá-lo nos anos ruins, sem poder de recusa.

O crédito secou em 1929, meses antes da quebra da bolsa de Nova York, nos últimos dias daquele outubro. O preço do café despencou nos mercados internacionais, o Instituto ficou sem como pagar os armazéns e os estoques represados pesaram de vez sobre a cotação.

Com exportação em queda e empréstimo cortado, quem tinha notas da Caixa correu para trocá-las por ouro e mandar o metal para fora. A Caixa pagou, como a lei mandava, e o cofre esvaziou em poucos meses. O câmbio fixo deixou de ser sustentável já no começo de 1930.

O governo não tinha ferramenta para segurar a sangria sem quebrar a promessa da lei. Washington Luís manteve a paridade e a política de café enquanto pôde, e a crise econômica se somou à crise política da sucessão.

O Brasil não caiu sozinho. A Argentina suspendeu a conversão da Caja de Conversión (Caixa de Conversão, o equivalente portenho) em dezembro de 1929. O Reino Unido, cuja libra servia de referência para o câmbio do mil-réis, abandonou o padrão-ouro em setembro de 1931.

A cronologia do caso:

1926: Lei nº 5.108 cria a Caixa de Estabilização em 18 de dezembro
1927: a Caixa abre e começa a receber ouro; Vargas deixa a Fazenda em dezembro
1928: reservas em alta, câmbio estável no ponto da lei
1929: crédito externo seca, a bolsa de Nova York quebra e o preço do café desaba
1930: as reservas se esgotam, Washington Luís é deposto no dia 24 daquele outubro e o governo provisório de Vargas fecha a Caixa antes do ano terminar
1931: o país negocia com os credores um novo esquema de pagamento da dívida externa
1942: o cruzeiro enfim entra em circulação, por decreto-lei do Estado Novo

A ironia ficou nos registros oficiais. O ministro que pôs a Caixa em funcionamento em 1927 foi o chefe de governo que assinou o fim dela três anos depois.

As fontes divergem sobre o saldo exato de ouro no dia do fechamento, porque parte do metal foi usada para pagar compromissos externos já nas semanas finais. Por isso a cifra fica fora desta página.

 

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III  O Anúncio da Página 3

Réis no rodapé do reclame

A página: a lei saiu no Diário Oficial e foi reproduzida pelos diários do Rio, como o Jornal do Commercio e O Paiz, este último alinhado ao governo. O texto ocupou a coluna das notícias oficiais, cercado por cotações de câmbio que, pela primeira vez em anos, prometiam não mudar.

O anúncio: nas mesmas folhas corria o reclame do Biotônico Fontoura, fortificante do laboratório paulista de Cândido Fontoura. Desde 1924 o produto distribuía o Almanaque do Biotônico, com a história do Jeca Tatuzinho escrita por Monteiro Lobato: o caipira doente de amarelão, a anemia causada por verme, que se curava, calçava botina e prosperava.

A coluna: o preço do vidro aparecia escrito à moda da época, com o cifrão no meio do número. Em 2$500 lia-se dois mil e quinhentos réis: o cifrão separava os mil-réis, à esquerda, dos réis, à direita. Mil mil-réis formavam um conto de réis, escrito 1:000$000, a unidade dos negócios grandes.

A promessa da Caixa mexia justamente com esse rodapé. Se o mil-réis ficasse parado em 200 miligramas de ouro, o preço impresso no reclame valeria o mesmo em dezembro e em junho, e a farmácia não precisaria remarcar o vidro a cada vapor chegado da Europa.

A ficha do reclame, item por item:

Produto: Biotônico Fontoura
Fabricante: laboratório de Cândido Fontoura
Personagem: Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato
Doença do enredo: amarelão, anemia causada por verme
Suporte: almanaque distribuído nas farmácias
Notação do preço: cifrão entre mil-réis e réis
Unidade dos grandes valores: conto de réis

O vidro sobreviveu à moeda. O mil-réis saiu de circulação em 1942, trocado pelo cruzeiro na razão de um por um, e o Jeca Tatuzinho seguiu nos almanaques por décadas.

O centenário da lei cai em 18 de dezembro de 2026. Reconfira nesse dia o texto da Lei nº 5.108 no Portal da Legislação da Câmara dos Deputados e as cédulas da época no acervo do Museu de Valores do Banco Central, em Brasília.

“Quanto vale uma promessa de ouro quando o ouro pode ir embora pelo mesmo guichê?”

 
 
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Pela Lei nº 5.108, sancionada em 18 de dezembro de 1926, quantos miligramas de ouro fino valia um mil-réis?

A100 miligramas
B200 miligramas
C300 miligramas
D27 miligramas

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