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O Plus Ultra Desce na Baía de Guanabara
Em 4 de fevereiro de 1926, um hidroavião espanhol pousa na Guanabara depois de cruzar o Atlântico Sul, e o Rio inteiro desce até a beira da água.
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O casco do hidroavião na Guanabara, 1926
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Um casco de duralumínio de dezessete metros boiava na barra onde o rio Tinto encontra o Odiel, no sul da Espanha. Em cima dele, dois motores Napier Lion de 450 cavalos montados em fila, um puxando e outro empurrando, e duas palavras pintadas na proa: Plus Ultra.
O aparelho era um Dornier Wal, projetado por Claude Dornier na Alemanha e construído na Itália, em Marina di Pisa. O tratado de Versalhes proibia a indústria alemã de fabricar aeronave daquele porte, e a fábrica atravessou a fronteira para continuar produzindo.
O casco era de metal inteiro, sem flutuador pendurado na asa. No lugar deles, duas abas curtas saíam da lateral e seguravam o aparelho na água, solução da casa que dispensava a treliça de madeira e tela dos hidroaviões da época. A Aeronáutica Naval espanhola comprou um.
A tripulação embarcou em 22 de janeiro de 1926: Ramón Franco no comando, Julio Ruiz de Alda na navegação, Juan Manuel Durán como segundo piloto e Pablo Rada, mecânico, o único que não era oficial. A decolagem foi de Palos de la Frontera, a mesma barra de onde as caravelas de Colombo saíram em 1492.
O roteiro era por etapas. Las Palmas, nas Canárias, no mesmo dia. Porto Praia, em Cabo Verde, no dia 26. E então o salto que ninguém tinha feito naquela latitude: 2.305 quilômetros de água aberta até Fernando de Noronha, doze horas sem terra à vista, com o cruzador Blas de Lezo esperando na ilha.
A Marinha espanhola tinha navios postados ao longo de toda a rota. Se o casco descesse no meio do Atlântico, alguém saberia mais ou menos onde procurar, e o cerco de navios era toda a garantia disponível.
Em 31 de janeiro o Plus Ultra pousou em Recife. Ali Durán desembarcou para o aparelho pesar menos, e a tripulação seguiu com três homens a bordo.
A primeira página de hoje começa na madrugada de 4 de fevereiro, quando os dois motores foram ligados na água do Recife e a proa apontou para o sul, com dois mil e cem quilômetros de costa brasileira pela frente.
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I A Primeira Página de Hoje
Doze horas de voo entre Recife e o Rio
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A entrada da Guanabara estava fechada de embarcação quando o zumbido apareceu ao norte. Rebocadores, barcas da travessia, lanchas particulares e botes de pesca tinham saído para o meio da baía, e os navios ancorados começaram a soltar as sirenes.
Era 4 de fevereiro de 1926, fim de tarde. O Plus Ultra vinha de Recife: dois mil e cem quilômetros de costa em doze horas e cinco minutos de voo, a etapa mais longa da travessia depois do salto do Atlântico.
Hidroaviões da aviação naval brasileira subiram ao encontro do aparelho antes da barra e o acompanharam até a amaragem. O casco tocou a água da baía, os dois motores foram cortados, e o zumbido que vinha crescendo há minutos parou de uma vez.
Quem não conseguiu barco ficou na orla. Escritórios do centro esvaziaram antes da hora, a Praça Mauá encheu, e o cais virou arquibancada de uma máquina que saíra da Europa por conta própria e chegara flutuando.
Os três subiram no casco para acenar. De perto, o que se lia no metal eram duas palavras, e elas não descreviam a máquina nem a rota.
As palavras vinham do brasão da Espanha. A lenda punha nas Colunas de Hércules, no estreito de Gibraltar, um aviso de que ali terminava o mundo navegável. Em 1516, o lema entrou no escudo de Carlos V com a negativa arrancada.
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Non plus ultra, nada mais além, era o que a coluna dizia. Plus Ultra, mais além, foi o que ficou pintado no casco que atravessou o Atlântico Sul.
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No Catete, o presidente Artur Bernardes recebeu a tripulação. O Distrito Federal vivia sob estado de sítio desde 1922, com censura prévia na imprensa, e a Coluna Prestes marchava pelo interior desde 1924.
A chegada do hidroavião foi uma das poucas festas de rua daquele ano que o governo não teve motivo para dispersar. A cidade ficou com os espanhóis até 9 de fevereiro, entre recepção oficial, banquete e passeio de automóvel aberto.
Dali o Plus Ultra saiu para Montevidéu, doze horas e dez minutos de voo, e no dia 10 de fevereiro pousou em Buenos Aires. A conta fechada da travessia deu 10.270 quilômetros em sete etapas e 59 horas e 39 minutos no ar.
A baía inteira aplaudiu de pé um comandante que fizera trinta anos dois dias antes, e ninguém na beira da água tinha como saber que o sobrenome dele entraria na história por causa de outro homem, um irmão que naquela mesma semana virava o general mais jovem da Europa.
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II O Que Aconteceu Depois
Oito dias à deriva e uma troca de lado
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A primeira página daqueles dias registrou a rota, o tempo de voo e o nome dos três que desceram do casco. O que ela não podia registrar é que o comandante ovacionado na baía mudaria de lado duas vezes nos doze anos seguintes, e que o sobrenome dele acabaria pertencendo ao irmão.
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O aparelho não voltou para a Espanha. O governo argentino pediu o Plus Ultra de presente e ficou com ele: está exposto até hoje no Museu Naval da Nação, em Tigre, na província de Buenos Aires.
Ramón Franco voltou de navio, condecorado. Na Espanha de 1926, dizer o Franco era falar dele. Na mesma primeira semana de fevereiro, enquanto o caçula descia na Guanabara, Francisco Franco recebia a patente de general de brigada aos 33 anos, conhecido apenas dentro do exército de África.
Em 21 de junho de 1929 o comandante tentou repetir a façanha rumo a Nova York, num outro Dornier Wal batizado Numancia. O aparelho desceu no Atlântico a caminho dos Açores e sumiu do rádio.
A busca mobilizou marinha de vários países. Em 29 de junho, oito dias depois da decolagem, o porta-aviões britânico HMS Eagle encontrou os quatro homens à deriva perto da ilha de Santa Maria.
A política veio em seguida. Em dezembro de 1930 ele entrou numa tentativa de derrubar a monarquia e sobrevoou Madri com bombas a bordo, para atirá-las sobre o Palácio Real. Viu gente nas ruas embaixo e voltou com a carga inteira.
Fugiu para Portugal. Proclamada a República em abril de 1931, voltou e foi eleito deputado por Barcelona nas Cortes Constituintes, na bancada republicana de esquerda. Depois virou adido aéreo em Washington.
Em julho de 1936 o exército se levantou contra o governo da República, o mesmo governo que ele ajudara a instalar. O comandante do Plus Ultra escolheu o lado do irmão.
Foi nomeado chefe das forças aéreas nas Baleares, com base em Pollença. Em 28 de outubro de 1938 saiu numa missão noturna sobre o Mediterrâneo, o hidroavião caiu na água e ele não voltou. Tinha 42 anos, e a causa nunca foi estabelecida.
Os outros três da travessia tiveram destino separado. Julio Ruiz de Alda, o navegador, fundou com José Antonio Primo de Rivera a Falange Espanhola em 1933 e foi fuzilado na Cárcel Modelo de Madri em agosto de 1936.
Juan Manuel Durán, que desembarcara em Recife para o casco pesar menos, caiu num acidente aéreo ainda em 1926. Pablo Rada, o mecânico, saiu do exército, atravessou o Atlântico outra vez e terminou a vida em Caracas, em 1969.
Quatro homens couberam num casco de dezessete metros em janeiro de 1926. Doze anos depois, dois estavam do lado nacionalista de uma guerra civil, o segundo piloto não chegou a ver o país se partir, e o único que não era oficial estava do outro lado do oceano.
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