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O presidente deposto aos 60 anos em Kaunas

Oficiais tomam Kaunas em 17/12/1926, derrubam Kazys Grinius e entregam a Lituânia a Antanas Smetona até 1940.

Quepe militar sobre uma cadeira vazia de parlamento.

Quepe e cadeira vazia, Kaunas, 1926

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Kazys Grinius nasceu em 17/12/1866, segundo a biografia oficial publicada pela Presidência da República da Lituânia. Na madrugada de 17/12/1926, data em que ele completava 60 anos, soldados cercaram o Seimas (o parlamento lituano) em Kaunas e prenderam o governo que ele tinha nomeado, conforme os despachos da agência lituana de notícias Elta daquela semana.

O presidente eleito pelo parlamento seis meses antes passou o aniversário sob a guarda de oficiais do próprio exército. As duas datas continuam nos arquivos, e são a mesma.

Grinius era médico, formado em Moscou, e militava desde o século anterior no movimento que pedia um Estado lituano. Foi primeiro-ministro em 1920 e 1921. Em 7/6/1926, o Seimas o escolheu presidente, depois que a União Camponesa Popular e os social-democratas venceram a eleição de maio.

O governo novo, chefiado por Mykolas Sleževičius, mexeu em pontos sensíveis. Suspendeu a lei marcial em vigor desde a guerra de independência, anistiou presos políticos, cortou verba do exército e permitiu mais escolas para a minoria polonesa.

Cada uma dessas medidas desagradou alguém. Os democrata-cristãos, fora do poder pela primeira vez desde 1920, falavam em fraqueza diante de Varsóvia. Oficiais com salário atrasado e carreira ameaçada falavam em perigo comunista.

Antanas Smetona, primeiro presidente do país entre 1919 e 1920, assistia de fora. Chefiava a União Nacionalista Lituana, partido que tinha só três cadeiras no Seimas, e mantinha amigos no corpo de oficiais.

Kaunas era a capital provisória. Vilnius, a capital histórica, estava em mãos polonesas desde 1920, e a disputa pela cidade pesava em toda decisão de governo.

Na noite de 16 para 17 de dezembro, a cidade dormia com o frio do inverno báltico. Nos quartéis, alguns oficiais não dormiam: tinham a lista dos ministros, o mapa dos prédios públicos e a senha combinada para sair às ruas.

As páginas abaixo começam no quartel de Kaunas, na lista de presos daquela madrugada e na renúncia de Grinius que o Seimas aceitou dois dias depois.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

A noite do Seimas cercado

O golpe de 17/12/1926 foi comandado pelo major Povilas Plechavičius, oficial afastado do serviço ativo, com soldados da guarnição de Kaunas e alunos da escola militar. Um grupo de oficiais planejou a ação; Antanas Smetona e o professor Augustinas Voldemaras sabiam do plano.

O Seimas estava reunido em sessão noturna. Os soldados entraram no prédio, mandaram os deputados embora e ocuparam as repartições, os correios e a central telefônica da cidade.

O primeiro-ministro Mykolas Sleževičius e vários ministros foram detidos. Grinius ficou retido no palácio presidencial, sem acesso ao gabinete.

Não houve combate. A guarda do parlamento não resistiu, e a cidade acordou com patrulhas nas esquinas e a notícia de que o governo tinha caído durante a noite.

Os golpistas anunciaram que agiam para impedir um levante comunista. Militantes presos e papéis apreendidos foram apresentados como prova, e a acusação serviu de justificativa pública para a tomada de Kaunas.

O texto que os soldados tinham acabado de atropelar estava na primeira linha da lei maior do país:

“O Estado da Lituânia é uma república democrática independente. O poder soberano do Estado pertence à Nação.”

Constituição da Lituânia, Artigo 1, Kaunas, 1922

Os oficiais precisavam de aparência legal. Pressionado, Grinius nomeou Voldemaras primeiro-ministro ainda em 17/12. Em seguida, assinou a renúncia, que o Seimas só aceitaria em 19/12. Anos depois, explicou que cedeu para evitar derramamento de sangue.

O golpe não dissolveu o parlamento naquela madrugada. Usou a assinatura do presidente deposto e os votos do próprio Seimas para parecer sucessão.

Em 19/12, o Seimas se reuniu de novo. Camponeses populares e social-democratas boicotaram a sessão. Com os deputados que ficaram, nacionalistas e democrata-cristãos, Smetona foi eleito presidente da República.

Os democrata-cristãos apostavam que dividiriam o poder com Smetona. A aposta durou poucos meses: em 1927 deixaram o governo, e o partido nunca voltou a mandar no país.

Plechavičius foi promovido a coronel e depois a general. Não ganhou cargo político no regime que ajudou a instalar.

Em 1944, sob a ocupação alemã, voltou a comandar tropas: chefiou a Força de Defesa Territorial Lituana, dissolvida pelos alemães meses depois. Terminou a vida exilado nos Estados Unidos.

A ficha do golpe:

Data: madrugada de 17/12/1926
Local: Kaunas, capital provisória da Lituânia
Comando militar: major Povilas Plechavičius
Deposto: presidente Kazys Grinius, no dia dos 60 anos
Justificativa oficial: impedir um levante comunista
Novo primeiro-ministro: Augustinas Voldemaras
Novo presidente: Antanas Smetona, eleito em 19/12
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Catorze anos sob Smetona

Em 27/12/1926, dez dias depois do golpe, quatro militantes comunistas foram fuzilados em Kaunas: Karolis Požėla, Juozas Greifenbergeris, Kazys Giedrys e Rapolas Čarnas. A execução deu corpo à versão oficial do levante e assustou a oposição.

Em 12/4/1927, Smetona dissolveu o Seimas. A Constituição mandava convocar eleição, e ela não veio. O país passou nove anos sem parlamento.

Em 1928, o presidente publicou uma nova Constituição por decreto, sem votação. O texto ampliava os poderes do cargo e dava ao presidente mandato de sete anos.

Voldemaras e Smetona brigaram pelo comando do regime. Em setembro de 1929, o presidente demitiu o primeiro-ministro. Voldemaras tentou voltar por um golpe próprio em 1934, fracassou e foi preso.

A imprensa passou por censura prévia, e os partidos de oposição foram fechados em 1935. Só a União Nacionalista seguiu em atividade legal. Smetona recebeu o título de tautos vadas (líder da nação).

O homem que chegou ao poder alegando defender a república governou sem parlamento eleito até 1936.

O Seimas voltou em 1936, com candidatos aprovados pelo governo. Uma terceira Constituição, de 1938, manteve o presidente no centro do Estado. Smetona foi reeleito em 1931 e em 1938 por colégios de representantes escolhidos sob o regime.

A política externa virou uma sequência de perdas. Em março de 1938, a Polônia impôs um ultimato e a Lituânia aceitou relações diplomáticas. Em março de 1939, a Alemanha tomou Klaipėda, único porto do país.

Em outubro de 1939, Moscou devolveu Vilnius à Lituânia e, em troca, instalou bases do Exército Vermelho no território. Em 14/6/1940 veio o ultimato soviético, e no dia 15 as tropas entraram.

Smetona atravessou a fronteira para a Alemanha naquele 15/6/1940 e seguiu para os Estados Unidos. Viveu em Cleveland até janeiro de 1944, quando um incêndio atingiu a casa onde estava hospedado, e ele não sobreviveu às queimaduras e à fumaça. Tinha 69 anos.

Grinius ficou na Lituânia durante a ocupação soviética e a alemã. Em 1944 emigrou, e viveu em Chicago até 1950. Seus restos voltaram ao país em 1994, quatro anos depois da nova independência.

O regime nascido naquela madrugada durou treze anos e meio. Acabou do mesmo jeito que começou: com soldados nas ruas de Kaunas, só que desta vez estrangeiros, e sem ninguém para pedir a assinatura do presidente.

A cronologia do regime:

1926: golpe em 17/12 e Smetona eleito em 19/12
1927: Seimas dissolvido em 12/4
1928: Constituição por decreto
1929: Voldemaras demitido
1935: partidos de oposição fechados
1936: Seimas volta com candidatos aprovados
1939: Klaipėda perdida e Vilnius devolvida
1940: ultimato soviético e fuga de Smetona
 

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III  O Anúncio da Página 3

A moeda que valia dez centavos de dólar

A página: nos dias seguintes ao golpe, os jornais de Kaunas saíram com a proclamação dos oficiais, a renúncia de Grinius e a eleição de Smetona, já sob o olhar dos novos censores.

O anúncio: nas mesmas páginas circulavam preços em litas, a moeda lituana. Criado em 2/10/1922 pelo Banco da Lituânia, o litas foi fixado em um décimo do dólar americano, com lastro (reserva que garante o valor) em ouro e moeda forte.

A coluna: o litas era um dos orgulhos do Estado novo. Enquanto vizinhos atravessavam inflação no pós-guerra, o câmbio lituano ficou estável, e o golpe de 1926 não mexeu na paridade.

O banco central tinha sido fundado em 1922 e emitia as cédulas com símbolos nacionais: o cavaleiro do brasão, figuras da história lituana e paisagens do interior.

Na Kaunas de 1926, a moeda estável convivia com um país agrário. A maior parte das exportações era de linho, madeira, manteiga, carne e cereais, vendidos sobretudo à Alemanha e à Grã-Bretanha.

O regime de Smetona usou a moeda como vitrine. Manter o litas firme era prova de ordem, e o governo apresentava a estabilidade do câmbio como obra da nova administração.

O lastro tinha endereço. Parte das reservas de ouro do Banco da Lituânia estava guardada em bancos do exterior, em Londres, Paris e Estocolmo. Depois de 1940, parte do ouro ficou retida nesses cofres por meio século, e só voltou ao banco central lituano nos anos 1990.

A ficha da moeda, item por item:

Nome: litas
Emissor: Banco da Lituânia
Criação: 2/10/1922
Paridade: um décimo do dólar americano
Lastro: ouro e moeda forte
Fim da primeira fase: 1941, trocado pelo rublo soviético

Depois da ocupação de 1940, o litas saiu de circulação na primavera de 1941. Voltou em 25/6/1993, com a independência restaurada, e deu lugar ao euro em 1/1/2015.

“Quando um presidente assina a própria renúncia sob guarda armada, a sucessão que vem depois é legal ou só parece?”

O centenário do golpe cai em 17/12/2026, uma quinta-feira. Nessa data, reconfira a biografia de Kazys Grinius e a lista de presidentes na página oficial da Presidência da Lituânia, em lrp.lt.

 
 
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Quem comandou o golpe militar que cercou o Seimas em Kaunas na madrugada de 17/12/1926?

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