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O rei de 5 anos que a Romênia teve em 1927
Em 20/7/1927, Michael I herda o trono do avô Ferdinand aos 5 anos e governa por regência até o pai voltar em 1930.
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Sinaia, Romênia, 20 de julho de 1927
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Em 20/7/1927, o Monitorul Oficial (o diário oficial romeno) anunciou um novo rei: Michael, de 5 anos, neto de Ferdinand I. Em 8/6/1930, o mesmo diário registrou outro rei no trono, Carol II, pai do menino, sem que Michael tivesse assinado abdicação alguma.
Os dois registros cabem em menos de três anos. Num deles, o país jura lealdade a uma criança. No outro, a coroa vai para um herdeiro que tinha aberto mão dela por escrito.
Ferdinand I governava a Romênia desde 1914. Levou o país à Primeira Guerra ao lado da França e saiu dela com a Transilvânia, a Bessarábia e a Bucovina, territórios que quase dobraram o tamanho do reino.
Em 1927, estava doente de câncer no intestino e passava os dias no Castelo Peleș, em Sinaia, nos Cárpatos, a residência de verão da família real.
O herdeiro natural seria o filho mais velho, o príncipe Carol. Em dezembro de 1925, porém, Carol renunciou à sucessão e ficou em Paris com a amante, Elena Lupescu, deixando para trás a mulher, a princesa Helena da Grécia, e o filho pequeno.
Não era a primeira escapada. Em 1918, Carol já tinha fugido para Odessa para se casar às escondidas com Zizi Lambrino, e o casamento acabou anulado por um tribunal de Bucareste.
O Parlamento aceitou a renúncia de 1925 em 4/1/1926 e declarou Michael herdeiro. Na mesma sessão, aprovou uma regência para o caso de o rei faltar antes de o neto chegar à maioridade, aos 18 anos.
O plano tinha um autor: Ion I. C. Brătianu, chefe do Partido Nacional Liberal e primeiro-ministro, adversário declarado de Carol. Para ele, um rei criança e três regentes de confiança garantiam anos de governo sem surpresa.
As páginas abaixo começam no castelo de Sinaia, quando a regência saiu do papel e um menino de 5 anos virou chefe de Estado.
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I A Primeira Página de Hoje
Três regentes para um menino
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Michael I da Romênia nasceu em 25/10/1921, no complexo do Castelo Peleș, em Sinaia, filho de Carol e de Helena da Grécia. Tinha 5 anos e 9 meses quando o avô, Ferdinand I, deixou de respirar no mesmo castelo, em 20/7/1927.
Ferdinand tinha 61 anos. O câncer avançava havia meses, e os boletins médicos do palácio já não escondiam a gravidade do quadro.
A Constituição de 1923 previa o caso. Sem rei adulto, os poderes da coroa iam para um conselho de regência de três membros, escolhido pelo Parlamento, até o herdeiro completar 18 anos.
Os três nomes estavam definidos desde 1926. O príncipe Nicolau, tio do menino e irmão mais novo de Carol, representava a família real.
Miron Cristea, patriarca da Igreja Ortodoxa Romena, representava a fé da maioria. Gheorghe Buzdugan, presidente do Tribunal de Cassação (a corte mais alta do país), representava a lei.
Quem assinava os decretos eram três adultos; o rei ainda ia para a escola. |
Ministros e deputados prestaram juramento ao novo soberano logo após o enterro de Ferdinand. As fotografias da época mostram o menino ao lado da mãe, em trajes de criança, diante de oficiais de farda.
O poder real ficava com Brătianu. O primeiro-ministro controlava o governo e contava com a regência para manter Carol longe da fronteira.
Quatro meses depois, em 24/11/1927, Brătianu morreu de uma infecção na garganta, aos 63 anos. O arquiteto do arranjo saiu de cena antes de o arranjo completar meio ano.
O irmão dele, Vintilă Brătianu, assumiu o governo, mas não tinha o mesmo peso. Em dezembro de 1928, os liberais perderam a eleição para o Partido Nacional Camponês de Iuliu Maniu, que via Carol com menos hostilidade.
A regência também se desfez aos poucos. Buzdugan morreu em outubro de 1929, e o Parlamento colocou no lugar dele Constantin Sărățeanu, juiz sem a mesma autoridade.
Helena da Grécia criava o filho em Bucareste nesse intervalo. O divórcio dela com Carol saiu em 1928, por decisão de um tribunal romeno.
Na prática, o pequeno rei cumpria agenda de cerimônia. Aparecia em desfiles militares e na abertura do Parlamento, enquanto os professores do palácio cuidavam das aulas de leitura, línguas e história romena.
A regência em datas:
| 25/10/1921: nascimento de Michael em Sinaia | | 4/1/1926: Parlamento aceita a renúncia de Carol | | 20/7/1927: Michael vira rei aos 5 anos | | 24/11/1927: Brătianu sai de cena | | Outubro de 1929: Sărățeanu entra no lugar de Buzdugan |
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II O Que Aconteceu Depois
O avião que trouxe o pai de volta
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Carol passou os anos da renúncia na França, ao lado de Elena Lupescu, mas manteve contato com políticos romenos que defendiam a volta dele ao país.
Em 6/6/1930, ele pousou em Bucareste num avião vindo de Munique, sem aviso público. Maniu, então primeiro-ministro, soube da chegada quando o fato já estava consumado.
Dois dias depois, em 8/6/1930, o Parlamento anulou o ato de 1926 e proclamou Carol rei, com o título de Carol II. A lei tratou o reinado dele como contado desde 20/7/1927, como se a renúncia nunca tivesse existido.
O filho não abdicou: a lei apagou o reinado dele e devolveu o título de herdeiro. |
Michael recebeu o título de Grão-Voivoda de Alba Iulia (príncipe herdeiro, batizado com a cidade onde se proclamou a união da Transilvânia em 1918) e voltou à condição de sucessor, aos 8 anos.
A promessa de Carol aos políticos incluía largar Lupescu e refazer a vida com Helena. Lupescu chegou a Bucareste poucos meses depois, e Helena acabou forçada a deixar o país em 1932, rumo a Florença.
O reinado de Carol II durou 10 anos. Em 1938, ele dissolveu os partidos e instaurou uma ditadura pessoal. Em 1940, após ceder territórios à União Soviética, à Hungria e à Bulgária, abdicou em favor do filho.
Michael voltou ao trono em 6/9/1940, aos 18 anos, com o poder efetivo nas mãos do general Ion Antonescu, que alinhou a Romênia à Alemanha nazista.
Em 23/8/1944, o rei mandou prender Antonescu no palácio e levou a Romênia para o lado dos Aliados. Três anos depois, em 30/12/1947, os comunistas o obrigaram a abdicar, e ele partiu para o exílio.
Viveu a maior parte da vida na Suíça. Recuperou a cidadania romena em 1997 e morreu em Aubonne, em 5/12/2017, aos 96 anos. Era então o último chefe de Estado da Segunda Guerra Mundial ainda vivo.
Carol não teve a mesma sorte. Deixou a Romênia em 1940, casou-se com Lupescu no exílio e terminou os dias em Estoril, Portugal, em 1953, sem nunca ter voltado ao país.
A cronologia depois da regência:
| 6/6/1930: Carol pousa em Bucareste | | 8/6/1930: Carol II proclamado rei | | 1938: ditadura pessoal de Carol | | 6/9/1940: Michael rei pela segunda vez | | 23/8/1944: prisão de Antonescu | | 30/12/1947: abdicação forçada | | 5/12/2017: Michael encerra a vida em Aubonne |
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